Verdadeiros resistentes da cena punk/hardcore nacional, os DAY OF THE DEAD editaram recentemente o seu mais recente disco «A New Healing Process», um disco que comprova a qualidade superior da banda e afirma, uma vez mais, Portugal no panorama internacional, não fosse este disco editado pela norte-americana State of Mind Records. Por entre digressões pela Europa, EUA e Brasil e outras tantas datas pelo nosso país, o vocalista Ricardo acedeu a uma entrevista para o Opuskulo. Aqui fica o resultado.
A questão que se impõe… Estão satisfeitos com o resultado final de “A New Healing Process”?

Podemos dizer que sim. Este disco ilustra bastante bem aquilo que se passou com a banda, principalmente nestes últimos 2 anos. Ilustra uma ou outra corrida contra a maré, algumas mudanças de formação, todos os “altos” e “baixos” que tivemos que ultrapassar, quer enquanto banda, quer a nível pessoal, e principalmente ilustra toda a maturidade e experiência que adquirimos a tocar uns com os outros nos últimos 5 anos e meio.

Que reacções têm recebido ao disco?

As reacções têm sido maioritariamente positivas. Ainda não tivemos grande possibilidade de promover de uma forma mais eficaz este mesmo disco em território português pois o mesmo só foi editado há cerca de 3 meses. Essa é de momento a nossa prioridade. Tocar alguns concertos de norte a sul do país de forma a mostrar ao público como funciona ao vivo este novo registo. Estivemos em digressão pela Europa durante 2 semanas no passado mês de Julho, e de uma forma geral pudemos apresentar o mesmo de uma forma relativamente eficaz por entre alguns países da Europa central como a Alemanha, Áustria, República Checa, Bélgica, Itália, Suiça e França. Acho que no geral as pessoas têm gostado. Vamos esperar…

A nível sonoro parece-me um disco fortíssimo com uma excelente produção e masterização. Concordam?

Este disco foi uma vez mais gravado e misturado nos estúdios Crossover em Linda-a-Velha. Já conhecemos o Bravo e o Sarrufo (os produtores) há alguns anos e estabelecemos com eles uma forte relação de amizade, respeito e compreensão. Acho que é bastante importante trabalhares com pessoas que compreendem o teu som e que, se possível, apreciem aquilo que tens para gravar. Além disso, essas duas pessoas são das poucas pessoas em Portugal que também cresceram connosco, no nosso meio, e que já gravaram vários discos de punk, hardcore e heavy-metal de outras bandas nacionais que apreciamos, por isso a escolha de voltarmos a trabalhar com eles foi mais que óbvia. Acho que fizeram um trabalho bastante interessante. Pelo menos bastante perto daquilo que procurávamos. Quanto à questão da masterização, uma vez que pudemos masterizar o disco fora de Portugal, optámos por isso mesmo. Enviámos o produto final para Nova Iorque para ser masterizado nos Estúdios Bionic pelo Tom Hutten, que já trabalhou com nomes conceituados do género como Most Precious Blood, Terror ou Walls Of Jericho… O resultado final ilustra realmente uma melhoria sonora bastante evidente, principalmente se compararmos este último disco ao nosso registo anterior, o MCD “Old Habits Die Harder”. Este é sem dúvida o nosso melhor registo até à data.
As vossas letras assumem geralmente um carácter interventivo. Qual o conceito lírico na base de “A New Healing Process”?

Este disco fala principalmente sobre mudança e renovação. Fala especialmente da adaptação às constantes adversidades com que nos temos deparado, principalmente nestes últimos 2 anos, quer a nível pessoal, quer inclusive dentro da própria cena hardcore/punk. Fala sobre manter a cabeça erguida numa procura incessante do nosso próprio caminho e da nossa própria felicidade e paz interior, no meio do caos e da turbulência que gira à nossa volta. É um disco um pouco mais amargo que o anterior, mas no entanto acho que a maioria das letras deste registo consegue ter um carácter bastante construtivo e pedagógico.

Apesar do nome Day of the Dead não ser dos nomes mais conhecidos em Portugal em termos de hardcore, contam já no currículo com digressões pela Europa e Estados Unidos. A que se deve esta falta de reconhecimento em Portugal?

Não sei. Acho essa questão do “maior ou menor reconhecimento” bastante relativa e discutível. Acho que, resumidamente, a questão principal se deve ao seguinte facto: realmente tocarmos um tipo de som que é usualmente definido como “hardcore/punk”, mas o que acontece é que a nossa banda tem também uma personalidade bastante forte e vincada, uma vez que somos todos pessoas com idades entre os 25/29 anos. Já andamos nisto há algum tempo. Sempre soubemos exactamente aquilo que queríamos. Para nós isto continua a ser muito mais que música. Eu sei que isto pode soar cliché, mas o que se passa é que temos opiniões muito definidas acerca do estado actual da cena e sobre aquilo que acontece à nossa volta. Existem algumas bandas com quem gostamos de tocar, existem concertos em que temos todo o gosto em participar, outros simplesmente não. Muitas vezes recusamo-nos a tocar com determinadas bandas ou ia participar em eventos que para nós nada têm a ver com hardcore/punk. O facto de teres uma opinião é muitas vezes incomodativo. Acho que é só isso.

Poderá dizer-se que a vossa aposta é mais centrada além fronteiras? Portugal é um mercado bastante limitativo, não concordas?

Sempre tivemos horizontes bastante alargados até porque desde bem cedo tivemos oportunidade de sair em tour para fora do país. E foi isso que fizemos. Já fizemos 2 tours europeias, uma tour norte-americana, uma tour no Brasil… O que acontece é que de facto evitamos tocar muitas vezes seguidas (principalmente na zona de Lisboa – onde a cena hardcore/punk está concentrada) no mesmo local ou clube. Não faz sentido. Para além disso consegue-se atravessar o nosso belo país, à beira mar plantado, num único dia. O nosso país é muito, muito pequeno. Acho que foi isso que nos “atirou” mais rapidamente lá para fora, até porque lá, sinceramente, é lá que existe maior receptividade para o som que praticamos. Para quê tocar sempre para as mesmas 100 ou 200 caras se efectivamente temos oportunidade de viajar e conhecer outras cidades e outros países em que nunca estivemos, tocando assim para pessoas que nunca tiveram a possibilidade de nos ver? Acho que a decisão foi óbvia. Não é todos os dias que tens a hipótese de tocar em locais como o Rio de Janeiro, Daytona Beach ou Berlim, certo?
Como vês o actual entusiasmo que se vive por cá em torno do movimento hardcore?

Para ser sincero não acho que haja actualmente assim tanta euforia quanto isso. Penso que as coisas tiveram mais acesas há cerca de 1 atrás. Existem algumas bandas de outros sub-géneros que têm tido efectivamente algum sucesso por cá (e também lá por fora) como os More Than a Thousand, os Twentyinchburial, os Easyway, os If Lucy Fell, os Aside ou os Blacksunrise… São efectivamente boas bandas, com um bom som e com uma boa presença, mas sinceramente não sei se a “cena” underground portuguesa irá ter “suporte” suficiente ou infra-estruturas para essas mesmas bandas (e muitas outras) crescerem num espaço territorial tão limitado como o nosso. A nível de hardcore e punk rock, há algumas bandas interessantes de que gostamos. The Youths, My Rules, Decreto 77, Simbiose, Albert Fish, No Good Reason… A ver vamos…

Na tua opinião que se deveu este “boom” de bandas, discos e fãs do estilo?

Bem, penso que o “boom” de que estás a falar é o do metalcore e do punk-rock mais melódico. Bem, esses estilos chegaram a Portugal com um atraso bastante considerável (como quase tudo). Acho que isso é fruto das grandes tendências, principalmente oriundas dos mercados norte-americano e europeu. Seguimos tendências. De qualquer forma acho que o metalcore já esteve em maior alta do que agora. O que assistimos principalmente nos últimos anos foi o seguinte: algumas bandas evoluíram bastante musicalmente, tentaram efectuar uma gestão mais eficiente dos seus recursos, procuraram gravar discos com maior qualidade, e isso mesmo notou-se em meia dúzia de discos que foram editados nestes últimos 2 anos. A qualidade de algumas bandas portuguesas está bastante acima da média. Logo não é de admirar que essas mesmas bandas já tenham uma boa legião de seguidores.

A cena punk/hardcore foi sempre marcada por uma lógica muito DIY. Achas que esse espírito continua bem vivo actualmente ou tende a desvanecer-se?

Devo dizer-te que acho que são poucas as bandas que actualmente fazem jus a esse mesmo espírito. Há algumas bandas punk e hardcore com carácter e atitude, mas ousaria dizer-te que 80% das bandas que se auto-denominam sob esse mesmo rótulo, de D.I.Y. não têm absolutamente nada. No entanto, esse mesmo espírito ainda subsiste, embora sub-representado. Existem ainda algumas bandas que são auto-suficientes: organizam por vezes os seus próprios shows (e muitas vezes com uma qualidade acima da média), têm um bom som (quase sempre pago dos seus próprios bolsos), com gravações razoáveis ou mesmo acima da média, mantendo no entanto uma postura capaz de causar inveja a muitas bandas que utilizam muitas vezes agências de “management” ou afins do género e que no entanto são ultra-dependentes dessas mesmas agências (e muitas vezes explorados) para conseguirem obter 2 a 3 míseros e mal pagos shows por ano. Depende dos casos. Para mim, D.I.Y. não é sinónimo de “chunga”. Podes ter um controlo razoável sobre a tua própria banda e apresentar uma gravação “decente”, mesmo que D.I.Y.

O que podemos esperar da vossa parte para breve? Haverá alguma tour planeada para Portugal ?

Como já mencionei anteriormente, estamos neste momento a dar alguns shows em território nacional tendo em vista a promoção do nosso último registo. Estamos ao mesmo tempo a compor novos temas, tendo em vista gravarmos novamente algo durante o próximo ano. Para já, esses são os nossos principais objectivos.

Quanto ao estrangeiro, planeiam novamente fazer o circuito pela Europa e EUA?

A ver vamos. Queremos voltar novamente aos E.U.A. já no próximo ano. Talvez para 1 pequena tour de 2 a 3 semanas. Já tivemos alguns convites, quer por parte da nossa editora, a State Of Mind Recordings, quer por parte de uma ou outra banda norte-americana. Desta vez vamos tentar tocar na costa oposta, e tentar passar por locais como Los Angeles, San Diego, San Francisco… Se tudo correr bem, vamos tentar tocar também uns shows pela Europa mais para o final do próximo ano. Mas isto é ainda um plano assim muito vago. Vamos esperar.

Por falar nisso, que reacções obtiveram pelos vários países por onde passaram? Há de facto um interesse crescente pelo que o hardcore português tem para oferecer?

As reacções foram de um modo geral bastante positivas. Neste última tour europeia os principais “highlights” foram de uma maneira geral todos os shows que tocámos no norte da Alemanha, normalmente sempre bem compostos em termos de público. O Burning Season Fest na Áustria, onde tivemos a oportunidade de tocar para cerca de 500 pessoas, e ao lado de bandas como Ignite, With Honor e Cataract, foi também muito especial. O Fluff Fest na República Checa (festival onde tocámos pela segunda vez) foi também muito bom. Tocámos para cerca de 700 pessoas, partilhando o palco com boas bandas como Heaven Shall Burn, Endstand ou Seein Red. De qualquer forma, a tour que fizemos no Brasil em Janeiro passado foi simplesmente inesquecível. Não dá para explicar. O show mais pequeno que tivemos foi para cerca de 80 pessoas. A maior parte dos shows teve 150/250 pessoas, os miúdos apareciam nos shows para se divertir, e de uma forma descomplexada, vinham falar connosco depois do show… Enfim…Terminámos essa mesma tour a tocar para umas 600 pessoas no já mítico Festival Hardcore de São Paulo. Simplesmente inesquecível!
Últimas palavras…

Ricardo, muito obrigado pela entrevista e pelo apoio que tens dado às sonoridades underground mais pesadas. Continuação de um bom trabalho e muita força para o Opuskulo.

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