segunda-feira, junho 26, 2006

em entrevista...HUGO FLORES (SONIC PULSAR / PROJECT CREATION)

O Prog Rock não é, definitivamente, dos estilos musicais que gozem de mais popularidade no nosso país, isto embora tenhamos nomes extremamente talentosos dentro desse espectro. Sonic Pulsar e Project Creation são dois desses nomes e acabam por ter uma maior notoriedade no estrangeiro do que no seu próprio país. Hugo Flores, mente criativa de ambos os projectos, falou com o Opuskulo e deu-nos a conhecer excelentes propostas musicais que permanecem injustamente ignoradas pela maioria do público nacional.

Falemos em primeiro lugar de Sonic Pulsar. Como têm sido as reacções a este último disco?


Do que me tenho apercebido o pessoal está a gostar e consideram um grande avanço relativamente ao primeiro álbum. Algumas faixas são emblemáticas, e algumas criticas referem que estas faixas ficarão como sendo uma marca na nossa música, falo da “Schizophrenic Playgroung” e “I heard of a place called Earth” por exemplo. Os fãs que gostaram do primeiro ficaram satisfeitos com as ideias e musicalidade do “Out of Place”. Em termos de críticas nos media, tem sido excelente e o cd tem passado em várias rádios recebendo apoios um pouco por todo o lado. Claro que este género de música não tem, para já, a divulgação que um artista ou banda pop/rock conhecida beneficiaria, mas tem sido uma boa aceitação e sobretudo um óptimo reconhecimento do trabalho por parte da crítica especializada.


E quando a Project Creation, como estão a correr as coisas com o disco?

Project Creation está a beneficiar de uma divulgação superior a Sonic Pulsar, pela envergadura da editora, mas também pela música que, apesar de sinfónica, é mais apelativa e consegue agarrar públicos mais diversificados. No entanto, já vi alguns fãs de Sonic Pulsar preferirem o género mais ”agressivo” de Sonic comparativamente ao mais ambiental/sinfónico de Project Creation. Mas considero que “Floating World” é um álbum algo arriscado, pois coloca elementos do jazz/fusão pelo meio, coisa que não é fácil de realizar, tornando o som diferente do habitual. Penso que, no caso deste álbum, o efeito foi bem conseguido. Também é arriscado, porque tem quase 73 minutos de música e a história é contada ao longo do cd. Penso que o facto de um cd ter a totalidade do tempo, pode ser prejudicial, mas no caso deste “Floating World” a variedade e as surpresas que ocorrem destroem uma possível monotonia, acho eu. Li recentemente um comentário de um fã - que também escreve alguns textos/criticas - referindo que este álbum renova a esperança dos mais inconformados com o progressivo, e que traz frescura ao género quando todos pensavam que já não seria possível inovar. Enfim, é uma opinião, e só posso dizer que tento sempre inovar com o que faço, mas conheço projectos muito originais de progressivo e não só. Uma nota curiosa é que pessoas que não estão dentro do prog gostam do álbum e compram-no. Isso é excelente e não gosto de catalogar a música por isso mesmo. Em termos de rádios a coisa está a ir bem, mas falta sempre chegar às ditas “grandes”, pelo menos em Portugal! As críticas têm sido óptimas e já recebemos duas notas máximas, uma delas numa revista de renome, a Background Magazine na Holanda.


Não deixa de ser curioso que o teu projecto digamos “secundário”, Project Creation, seja o que, neste momento, está a obter uma maior exposição e sucesso. Como te sentes em relação a isso ?


(risos) É verdade, sabes que já pensei nisso! O segundo projecto vai ultrapassar o primeiro em termos de notoriedade, não há dúvida, mas acontece isso com muitos músicos e não apenas na música mas também noutras artes como o cinema. Quantas vezes um actor ou um realizador não fica conhecido com o seu 5º filme, por exemplo? O bom é que os fãs de Project Creation vão ouvir e ler o nome Sonic Pulsar e vão querer descobrir do que se trata e, por outro lado, quem gosta de Sonic vai querer ouvir este projecto. O que sinto é que Sonic devia estar na Progrock Records (risos) e beneficiar da mesma promoção, apenas isso. Espero que um próximo álbum de Sonic possa ser distribuído e editado pela mesma editora.


Por falar nisso, como surgiu o acordo com a norte-americana Prog Rock Records ? Podemos esperar uma relação duradoura ?

Claro, dou-me muito bem com a editora, que me dá liberdade total para criar. Não impõem nada, apenas aconselham a mistura final e dão conselhos ao nível da qualidade do som. O resto, produção, masterização, é feito por eles. Project Creation tem como objectivo 3 álbuns, os quais vão ser editados pela Progrock. Depois disso, e ainda falta muito tempo, logo veremos o futuro do nome Project Creation. O contacto com a Progrock já se iniciou há algum tempo, quando lhes enviei o “Out of Place” para colocação na rádio Americana Progrock Radio. O Shawn Gordon, Presidente da editora, gostou do “Out fo Place”, mas eu já tinha na altura contrato com a Italiana Mellow Records. Quando lhe enviei o Project Creation, ele ouviu a “demo” durante 1 semana, e deu-me resposta entusiasta e positiva. A partir daí foi melhorar os mixs, ter o produto final, e toda a arte gráfica do álbum.


Tanto em Sonic Pulsar como em Project Creation o conceito lírico gira em torno de ficção científica, espaço, “ufologia”, etc… Suponho que sejas um profundo interessado por essas temáticas…


Adoro mistério e o desconhecido, é isso que nos faz viver acho eu. Para o “Floating World” baseei-me em ideias para uma história de ficção e na minha vontade em explorar o desconhecido, o Universo. Para te dar uma ideia das influências para o Floating World, posso referir o livro Solaris, o filme Dark City, Star Trek I e 2001 Odisseia no espaço. Referes a ufologia, mas tal já sai um pouco fora do tema, pois trata-se de curiosidade pessoal e alguma investigação de um curioso do tema. Sabes que eu tenho uma mente muito aberta, não rejeitando nada à partida, mas procuro as minhas respostas. A educação parte também da nossa própria procura pelas repostas, e não pelo que nos é “doutrinado”. Já agora, em “Out of Place” e “Floating World” há uma crítica muito forte à nossa sociedade, mais ou menos explícita.



Sei que o conceito de Project Creation se relaciona com um filme de ficção científica que já se encontra em fase de produção. O que podes desvendar em relação a isso ?

Não é bem um filme, é mais um videoclip mas muito diferente do que se viu até hoje e com grande produção em cima. Talvez se possa falar numa curta curta-metragem! O clip vai ter como base a faixa 1, “Floating World”, mas não vai mostrar apenas imagens da faixa escolhida para o single, mas de todo o álbum, ou seja, em 6 minutos teremos toda a historia do 1º álbum! O teaser já está disponível no nosso site em sonicpulsar.com ou aqui

http://www.nemesismusica.com/projectcreation.htm


Poderá considerar-se Sonic Pulsar e Project Creation como verdadeiras bandas ou como projectos nos quais reúnes músicos convidados ?

Considero Sonic Pulsar um misto entre banda e projecto, mas Project Creation como um verdadeiro projecto, ou “supergroup” em que reúno músicos convidados. No entanto, quero que esse leque de músicos seja relativamente estável, por uma questão de confiança e de musicalidade. O som apresentado é também diferente de o de uma banda.

Quanto a discos a solo, após «Atlantis» há mais alguma coisa a ser preparada ?

Quero fazer uma “revisit”, como se diz actualmente (!), ao meu primeiro álbum “Atlantis”. Tenho também já algumas gravações para um álbum, que sai fora de todos estes projectos, muito mais direccionado para o metal e de nome “Dimensions”. Será uma viagem por diversas dimensões ou estados de espírito se quiseres. Vai ser mais agressivo e entre o depressivo e eufórico. Vai ser sobretudo guitarra, baixo e ritmo. Será talvez o álbum mais pessoal até hoje e já tenho boa parte das guitarras gravadas, faltando agora as primeiras misturas..Por último, uma novidade, Sonic Pulsar vai participar num tributo a Santana, à semelhança do que aconteceu com os Moody Blues, a ser editado pela Mellow Records (www.mellowrecords.com). Sonic Puslar conta agora com um novo membro na bateria, o norte-americano Davis Raborn que já participou em projectos como o Daymoon de Fred Lessing, que tocou flauta e Baroque recorder no “Floating World”.

Em termos nacionais noto que nunca foi dada a devida atenção ao teu trabalho. Sentes o mesmo ? Achas que nasceste no país errado ? Provavelmente tudo seria muito mais simples em termos de carreira musical se fosses norte-americano ou britânico…

(risos) Sim, não se dá a atenção devida aos melhores trabalhos, ou pelo menos aos mais originais, e isso não acontece apenas em Portugal. Os filmes de culto, séries de culto, têm alguns seguidores, e a pouco e pouco vão ganhando cada vez mais notoriedade. Penso que no campo das artes, e especialmente no cinema e música, tudo o que inova é mal recebido no início pelo grande público, pois há resistência à mudança e ao que é novo. Um filme diferente, original, ficaria pouco tempo no cinema, pois o público demora mais tempo a absorver o que se lhe é apresentado, e depois sai das salas rapidamente. Se ficasse tanto tempo como os ditos mainstream, tenho certeza que ia ganhando público.Se nasci no Pais errado….não sei, gosto do meu País, mas de facto os álbuns têm tido sempre edições lá fora, e isso diz tudo, apesar da Portuguesa Nemesis saber o que é bom, e ter pegado tanto em Sonic como em Project para distribuição oficial em Portugal. Aliás, o catálogo da Progrock está todo na Nemesis para o nosso País.


Como vês o “estado da arte” em termos de Metal e Rock Progressivo em Portugal ?

Pouca coisa, mas boa em termos de rock progressivo. O metal já tem muito mais variedade, com muito underground e várias bandas de nível. É impossível deixar de falar nos meus amigos Forgotten Suns, e também nos Miósotis, uma banda progressiva, com óptimos temas bastante originais. Claro que nem sempre é preciso inovar, também gosto de ouvir música mais comercial, desde que tenha algo de novo para oferecer e não se limite a copiar.

Poderemos alguma vez ver Project Creation ou Sonic Pulsar ao vivo ?

Project Creation é um produto final, uma criação de estúdio, apesar de eu já ter pensado a sério apresentar o álbum ao vivo, o que se revela complicado devido às várias sonoridades, requerendo um tempo e logísticas muito complexas. Para me dedicar a Project ou Sonic ao vivo, não teria certamente tempo para os dois projectos. É uma escolha a fazer mas um verdadeiro dilema para mim, pois queria ter tempo para fazer isso tudo (risos). Mas sabes que eu sou um bocado como o Arjen Lucassen e gosto de estar fechado no meu Mundo, a compor e ir até ao meu limite em termos de composição e de criação. De qualquer maneira não está colocada de parte uma actuação a vivo, logo veremos.

Quanto a projectos a curto/médio prazo…o que podemos esperar ?


Bem, tenho o Project Creation parte II que já está a ser produzido, mas um terceiro álbum dos Sonic Pulsar já está idealizado, bem como uma regravação do meu primeiro álbum “Atlantis” (para mais tarde). Como disse, estou já na fase de composição do segundo álbum de Project Creation. Em relação à historia, vamos observar um pouco a evolução do novo planeta, a comunhão entre as diversas espécies e vamos igualmente revisitar a pirâmide de Queops que vai ter um papel na epopeia a desempenhar por uma das libelinhas mecânicas do 1º álbum. Posso adiantar que duas musicais vão falar sobre uma fantástica cidade, num planeta distante. Mais detalhes para breve. Já estou igualmente a trabalhar com uma designer para todas as imagens do booklet. Tenho também o “Dimensions”, álbum a solo, que está também em gravação.

Últimas palavras…

Quero agradecer-te por esta entrevista, e agradecer a todos fãs de Sonic e de Project Creation. Espero que todos os que comprem o cd desfrutem o mais possível do trabalho realizado, pois teve de facto muito trabalho envolvido nesta criação. Um abraço !

quarta-feira, junho 14, 2006

em entrevista...SCHEMATTA


Autores de um surpreendente EP de estreia - «exit:inertia» - os Schematta revelam-se como um das principais promessas do Metal mais alternativo no nosso país. Sobre este disco - e não só - o Opuskulo quis conhecer melhor esta banda. Aqui ficam os resultados dessa conversa...
Apresenta-nos os Schematta

Os Schematta, actualmente, estão num processo reestruturação, pelo que uma apresentação da banda poderá ter, eventualmente, uma leitura volátil.

Não deixei de ficar surpreendido com o vosso EP «exit:inertia»…fui o único ou há mais como eu?

Correndo o risco de interpretar essa surpresa como um elogio, muito obrigado desde já. Temos tido feedback muito positivo pelo trabalho até agora elaborado, quer pelo resultado das gravações em estúdio, quer pela nossa prestação ao vivo. Evidentemente, é um incentivo muito forte para continuar a promover esta loucura que é fazer música em Portugal.

Pegando no título do disco…este EP marca definitivamente o fim da inércia para os Schematta ? O que podemos esperar da vossa parte ?

Essencialmente marca o início de um percurso. Qualquer movimento é contrário à inércia, e o mais complicado é começar a andar. Desta forma, pensamos que o EP foi o primeiro passo neste percurso que é o da indústria musical. A experiência que temos vindo a adquirir levou também à concepção de novos métodos de trabalho, que se irá revelar certamente nas próximas notícias acerca das nossas actividades. Pedimos desde já desculpa pela não-actualização do site, que será brevemente resolvido. Esperem por noticias quentes e boas para breve.

Tool parece-me ser uma das vossas referência musicais…concordas ?

Tool e vinho verde sempre foram uma influência forte, sinapticamente falando. Juntem-lhe broa, queijo e temos Meshuggah; uma açordinha de marisco, mais vinho verde e uma folha de Hortelã e temos Police. Enfim, são tantas as influências que nos perdemos na gastronomia.

Achas que o facto de praticarem um Metal dito alternativo vos poderá prejudicar na captação de um público específico ? Ou pretendem agradar a “gregos e troianos”?

A nossa música assume um patamar que nos satisfaz quando é verdadeira e genuína. É o resultado de vários aspectos que tiveram influências sobre nós, que tanto podem tratar-se de bandas que ouvimos actualmente ou durante a nossa adolescência, ou vivências que nos marcaram positiva ou negativamente. Sob este prisma, não nos ocorre pensar em produzir música – que por si só é uma expressão feia – com qualquer tipo de condicionante ou objectivo pré-estabelecido relacionado com vendas. Importa-nos sim chegar ao fim com a certeza de que fizemos o melhor trabalho que estava ao nosso alcance. À parte disto, estão todos desde já convidados a ouvir o EP Exit: Inertia e a aparecer nos concertos oportunamente divulgados, já que é no palco que a nossa música assume a sua essência, com a resposta do público em tempo real.

Do acompanhamento que faço dos eventos que vão acontecendo semanalmente por todo o país fico com a sensação que os Schematta tocam pouco ao vivo, ou estarei errado?

Uma das preocupações mais prementes que tivemos desde sempre, como já referimos anteriormente, não é fazer muito mas sim fazer muito bem. Não é fácil planear uma digressão de apresentação em que todas as condições são reunidas. Há todo um trabalho a exercer por todas as bandas que passa pela exigência de um cachet justo, recursos técnicos apropriados e, claro está, recursos humanos. Não faria sentido investir tempo, centenas de milhar de euros em bons instrumentos, horas de estúdio, para termos uma prestação live frágil ou deficiente. Tentamos então levar a música ao nosso público da forma mais competente e profissional que nos estiver acessível, quer para nossa satisfação, quer pelo total respeito de quem se presta a deslocar a um concerto por nós promovido – temos que ser nós próprios a garantir a certificação ISO 9001:2001 (risos).

Actualmente em Portugal assiste-se a um surgimento de muitas e boas bandas dentro de todos os estilos musicais. Na tua opinião a que se deve este advento? Achas que o nosso país poderá afirmar-se no panorama internacional como uma nova Suécia ou Finlândia em termos de exportação de grandes bandas?

Depois de vários anos num fosso de produção, recebemos agora várias notícias por dia que indicam que as coisas estão mesmo a mudar. Pensamos que um dos factores que mais prejudicou a música portuguesa foi uma clara assimetria de critérios entre os músicos e o seu público. Movimentos outrora sustentados por zines fotocopiadas são agora promovidos online, possibilitando a um metaleiro de Vila Nova de Cerveira estar tão dentro da cena portuguesa, como espanhola, ou qualquer outra. Cremos que esta exposição alargada aos parâmetros estabelecidos por outros países fez com que a fasquia da qualidade subisse em flecha em todos aspectos - dos quais podemos destacar a execução técnica e a apresentação gráfica - e simultaneamente o público que segue uma banda fá-lo por opção. Isto representa muita liberdade artística, resultado das edições de autor com cada vez mais qualidade. Quanto ao panorama internacional, achamos que tudo é possível com trabalho árduo e continuado. Não é com um EP que se constrói uma fanbase ou se eleva a sobrancelha de um A&R, na maioria dos casos. Como tal, vemos essa possibilidade como real e tangível.

Últimas palavras….

Obrigado pela entrevista, boa sorte para este projecto que é tão importante como a música que divulga, e a quem nos lê, apareçam nos concertos porque é com isso que músicos e bandas dão continuidade ao seu trabalho.

terça-feira, junho 06, 2006

em entrevista...INSANIAE

Insaniae é um nome que se tem vindo lentamente a afirmar no panorama Doom Metal nacional sendo que «Outros temem os que esperam pelo medo da eternidade», o disco de estreia da banda, assume-se como um dos melhores editados em Portugal e revela uma banda de características peculiares. Foi sobre essas e outras características que o Opuskulo falou com o guitarrista Luís Possante.


A pergunta é inevitável…como têm sido as reacções ao vosso disco de estreia?

Superaram as nossas expectativas. Vendemos já um número considerável de CD´s, uns directamente, outros com a preciosa ajuda da D:/moni1/. Nunca pensámos que poderia haver tanta gente interessada, ainda para mais numa edição de autor em CD-R, o que só prova que as pessoas não estão preocupadas com a embalagem mas com conteúdo em si e isso é muito positivo e gratificante.


Acompanhei a evolução dos Insaniae desde há alguns anos a esta parte (ainda sob o nome Dogma ) e é caso para dizer que a persistência e a convicção naquilo que acreditam são armas poderosíssimas, concordas ?

É fundamental acreditar no que se está a fazer, ser muito persistente e aprender com os próprios erros. Igualmente importante é perceber a realidade em que vivemos. Não vou estar a enumerar as dificuldades que as bandas em Portugal têm que ultrapassar, penso que é assunto já mais que debatido e toda a gente tem mais ou menos a noção disso. Mas o que é um facto é que é complicado fazer música por cá. É preciso muito amor á camisola.


Pretendem continuar a cantar em português ou não está de parte a hipótese de utilizarem outras línguas?

Para já, essa hipótese está posta de parte, o que não quer dizer que no futuro não surja essa vontade. A língua portuguesa, para além de ser a nossa língua materna, é extremamente rica, cheia de segundos sentidos e propensa a diferentes interpretações, pelo que achamos mais interessante escrever e cantar em português, é algo que já faz parte da identidade dos Insaniae. Não deixa de ser curiosamente irónico o facto de haver muita gente que estranhe cantarmos em português, afinal é a nossa língua, o estranho é cantar noutra qualquer.
Achas que esse facto vos pode fechar algumas portas a um nível internacional?

Pode fechar algumas, mas certamente abrirá outras. Há muitas bandas que cantam em outras línguas que não o inglês o que dá quase sempre um toque de originalidade e até de mistério quando se trata de uma língua absolutamente desconhecida ao ouvinte. Pessoalmente penso que cantar na sua própria língua torna uma banda mais autêntica. Seja como for as letras são apenas uma das componentes da Música - ainda há, pelo menos, as guitarras, baixo, bateria, melodias de voz ... e tudo isso é perfeitamente universal.

E de onde vem a influência para as vossas letras? Revelam um sentido poético bastante apurado…

As letras mais não são do que histórias provenientes da minha mente, captadas através dos meus olhos e sentidos. Naturalmente sou inconscientemente influenciado pelo que leio e pelo que vejo, daí, se calhar, algumas referências literárias... quanto ao sentido poético apurado, estou demasiado próximo delas para poder aferir. Acho que são mais viscerais do que poéticas...


Quanto a influências musicais, My Dying Bride e Mourning Beloveth serão certamente algumas delas, não?

As influências, conscientes e inconscientes, são diversas, e variam com cada membro da banda, mas essas duas bandas que referes são seguramente uma influência para mim e não só em termos musicais. Temos outras, e algumas também de bandas nacionais.

Consideras o Doom Metal um estilo musical mais propício para disco ou para o palco? Sentem dificuldades em transpor para o palco temas longos sem cair na monotonia?

Acho que o Doom, à semelhança de outros géneros e correndo o risco de parecer elitista, não é para todos, pelo que compreendo que nem toda a gente consiga ver um concerto inteiro com interesse. Acho que o Doom se traduz bem para o palco, dependendo da banda, apesar de ser um género tradicionalmente mais propício para disco.Para nós tocar um tema de dez minutos ou de cinco acaba por ser igual, uma vez que as nossas preocupações são de outra ordem como por exemplo a perfeição da execução ou a interacção com o público. Quem está a assistir terá certamente uma outra noção da duração dos temas diferente de nós que estamos em cima do palco.
Há já novos temas a ser compostos? Que direcção estão a tomar?

Há neste momento uma meia dúzia de novos temas. Um deles está pronto e já tem vindo a ser tocado ao vivo há algum tempo. Mais pesados, mais lentos e mais extremos... melhores. Reflectem uma maior maturidade tanto de ideias como nos aspectos mais técnicos de composição e execução.

O que podemos esperar dos Insaniae para breve?

Mais e melhores concertos ao vivo é o que nós esperamos proporcionar e, quem sabe, mais um CD quando estiver tudo composto o que certamente não será antes do final deste ano. Não temos pressa, afinal tocamos Doom.

Palavras terminais….

Obrigado por esta entrevista e obrigado a todos os que nos acompanham. Continuem a apoiar o Metal. Apareçam nos concertos.

terça-feira, maio 30, 2006

em entrevista...MEN EATER

Men Eater é um nome que tem vindo a ganhar notoriedade no panorama de peso nacional não só pelo surpreendente EP de estreia, assim como pelas explosivas actuações que o colectivo protagoniza. O Opuskulo quis conhecer esta verdadeira revelação e estabeleceu uma profícua conversa com o guitarrista Miguel que, entre outras coisas, deixou no ar a promessa de um disco de estreia ainda para este ano.

Quem são os Men Eater ?

Ora, tudo começou quando For the Glory e BlackSunrise foram ambas dar um concerto a Espanha no mesmo festival. O Sérgio na altura ainda era o vocalista de BlackSunrise e já para o fim da noite estava um banda a tocar assim mais pesada com algumas partes ambientais..e nós estávamos a falar de idiotices, como de costume e surgiu na conversa a ideia de formar uma banda, uma cena mais crust, lenta...O Bibi por acaso também estava connosco em Espanha e então formámos logo ali a banda: o Bibi na bateria, o Sérgio na voz , o Carlos (azeitona) na guitarra e eu na outra guitarra! Pensámos logo no Jotinha para o baixo e assim foi ! Era uma espécie de brincadeira, mas quando na manha seguinte, depois de deixarmos o hotel, o Bibi liga-me a dizer que já tinha nome para a banda e eu fiquei um pouco naquela…”qual banda???” (risos). Ainda não tinha a noção que tínhamos feito algo..e pronto nesse telefonema veio logo o nome Men Eater..e somos os mesmos desde inicio!

Algo muito espontâneo, então ?

Acredita que sim..isto tudo passou-se num Sábado...8 dias depois já estávamos a ensaiar.

E porquê Men Eater para designação da banda ?

Basicamente eu ainda hoje não sei ao certo o porquê do nome..sim temos uma explicação lógica...se os promotores dos concertos escreverem MAn Eater, como já aconteceu, ai não sei que explicação dar..(risos) mas se for com E, partimos do principio que é uma espécie de humanidade, comer a humanidade, os podres que em si se juntam..

Quando começaram a ensaiar já sabiam o que queriam em termos de sonoridade ou a coisa foi-se desenrolando naturalmente ?
Desde sempre tivémos consciência do que queríamos fazer como banda. Temos noção que o Ep de lançamento está um pouco fraquinho em relação ao que já estamos a fazer hoje! Quando pensámos em fazer o álbum achámos que deveríamos ir para uma onda mais ambiental/instrumental. Todos nós adoramos isso mas não conseguimos deixar a nossa veia stoner/sludge/doom!


Mas ainda assim o EP suscitou reacções bastante positivas. Ficaram surpreendidos ?

Ficámos...de certo modo não estávamos à espera que o publico fosse reagir deste modo à banda! Só nos deu vontade de trabalharmos mais e melhor para essas mesmas pessoas e muitas mais comecem a gostar do que fazemos. É sempre gratificante ver que o publico gosta do que fazes. E que tipo de publico conseguiram atrair ? Noto um grande feedback por parte de pessoas mais ligadas a outros estilos musicais...a metal mais extremo, etc..

Claramente! Foi algo que não referi na questão acima. O que nos surpreendeu mais foi um publico mais metal e mais velho em termos de idade reconhecer o que fazemos! Como banda adoramos ver isso, e ficamos muito gratos por todo o apoio que o publico mais metal/doom nos tem dado..tanto em reviwes como noutros campos. Já estamos a fazer musica para homens. Só nos falta a barba…(risos)

Achas que o Metal ainda continua a ser para homens de barba rija (risos)?


(risos) Não, não… Creio que qualquer estilo de musica que o seja tem o espaço para todas as idades! Mas temos de ser sinceros… tu vais a um concerto de metal como deve ser e não vês por lá carinhas rosadas de putos de 18/20 anos. Ok, podes sempre encontrá-los lá..mas a maioria vai ser pessoal de barba..(risos) digo isto porque Men Eater talvez tenha aquela sonoridade do sul dos estados unidos…vamos levar o stoner português longe! (risos)

Essa é uma questão interessante...acabam por praticar um estilo pouco habitual em Portugal..sentem-se de certa forma uns percursores ?

Hum..é um pouco difícil sentirmo-nos percursores..temos noção que até agora não conheço nada do género cá...mas também sabemos que é capaz de virem ai bandas dentro da mesma onda mais cedo ou mais tarde, visto que em Portugal as coisas chegam sempre tarde. Até Men Eater se atrasou em termos de começar a banda (risos). Esperamos sinceramente que apareçam mais bandas deste tipo para pudermos partilhar palcos. É sempre bom haver mais que uma banda dentro da mesma cena, se não serão sempre as mesmas a tocar e isso pode cansar o publico!

Já que falas em tocar…têm recolhido excelentes reacções essencialmente das vossas prestações ao vivo...o que se pode esperar de um concerto vosso ?

Muita energia, muito headbang e rock’n’roll puro e duro. Mais tarde queremos começar a meter coisas novas ao vivo..faz parte de um bom espectáculo..assim como luzes etc..
Quanto a novos temas e novos lançamentos, o que podemos esperar ?

Vamos começar a gravar agora 14 temas, 10 deles vão fazer parte do nosso primeiro álbum. Vamos começar a gravar já daqui a duas semanas, o resto ficará para futuras oportunidades de splits ou ate mesmo um novo Ep da banda

E para quando podemos esperar esse disco de estreia ?

Está tudo previsto para Setembro, máximo Outubro! Ainda temos de mandar o álbum para os Estados Unidos, vamos trabalhar com o Matt Baylles e o Chris Common na mistura (Mastodon,Isis), por isso esperamos que nada se atrase.

Será edição de autor ou através de alguma editora ? O que podes revelar desde já ?

Será através de editora, a Major Label Records. É um colectivo novo português, mas já estamos a tratar de possíveis editoras estrangeiras!

Que reacções têm recebido do estrangeiro ?

Todas boas..tanto de editoras como de bandas! Ambas as partes têem mostrado algum interesse...tanto a nível de lançamentos como de splits ou mesmo tours, mas todos estão a espera do álbum para ver!

Bandas como Blacksunrise, For the Glory, If Lucy Fell, Devil in Me, Men Eater, entre muitas outras têm gerado muito interesse ultimamente… Achas que se está a formar um novo movimento de bandas alternativo ao underground mais ligado ao Metal e ao Hardcore ?

Claro que sim...já era altura de se renovar o que por cá andava, não estando a tirar valor a ninguém..Se estas bandas apareceram foi só por bem do underground português. Todas elas já têem reconhecimento lá fora. Muito ou pouco não interessa. Certo é que, mais no que nunca, estas novas bandas já levaram Portugal para fora mais do que aquelas que já cá andavam..se calhar na altura as coisas eram diferentes. Hoje em dia temos managers, labels, etc..Faz tudo parte de uma evolução mutua! O publico português so tem de ficar orgulhoso disso mesmo!

Achas que se pode formar em Portugal uma cena underground que chame a atenção do panorama internacional e que exporte bandas para um maior reconhecimento lá fora ?

Eu acho que sim..agora não tem de partir de uma entidade só..temos bons meios cá em Portugal, apenas há que saber trabalhar com eles! As editoras lá fora são mais abertas do que aquilo que se pensa..agora temos de arriscar, gastar dinheiro do teu bolso se quiseres ir a algum lado..nada cai do céu! Eu aposto que se fores no mínimo para a Europa Central e falares das bandas que em cima referiste a alguém, esse alguém vai-te dizer que já ouviu..ou ate mesmo já viu ao vivo! Não nos podemos fechar aqui dentro. As editoras não nos vêem bater à porta! Suar..tens que suar!

Exacto...é um pouco o espírito “Do it yourself”....esse é um espírito mais próprio da cena hardcore e punk que esse tipo de bandas, vós próprios, parecem adoptar, concordas ?

Não acho que seja da cena punk/hardcore..Acho que tem mais a ver com o que queres da tua banda e onde a queres levar, e se tens consciência do que tens de fazer! Se eu quiser andar só a tocar em Portugal ,aqui e ali… ai sim..sento-me em casa e espero que me chamem para tocar. Mas no caso Men Eater nos queremos ir mais alem..não digo chegarmos ao mainstream, mas, no mínimo fazer umas tours e curtir muito mais do que só ficar aqui em Portugal. Logo ai tens de fazer algo para isso...sejas punk/hxc/metal/pop/rap...se queres ir mais longe tens de queimar pestana.

Bem, a conversa já vai longa..não te maço mais..últimas palavras...


Desde já obrigado pela oportunidade de mais uma vez mostrar Men Eater ao público,tal como te disse os meios são poucos mas há que os usar...e...se tiverem oportunidade de ver Men Eater ao vivo não falhem, no mínimo terão uma excelente noite! Até ao álbum! Abraço!

Contacto:
www.myspace.com/meneaterdoom

quarta-feira, maio 24, 2006

em entrevista...SWITCHTENSE

Oriundos da Moita, os Switchtense apresentaram há bem pouco tempo um surpreendente registo na forma de «The Brainwash Show», um cocktail explosivo algures entre o Hardcore e o Metal. O Opuskulo quis conhecer melhor esta banda, as suas ideias, aspirações e objectivos e para tal falou com o seu vocalista, Hugo.

Para quem não vos conhece, apresenta-nos os Switchtense…


Os Switchtense são uma banda oriunda da Moita (margem sul) e existem desde 2002. Desde ai gravámos 2 demos ( em 2003 e 2004 ) e um ep agora este ano, chamado Brainwash Show. Desde o inicio da banda que já tivemos alterações na nossa formação, pelo que neste momento os Switchtense são Hugo (voz) Pardal (guitarra) Karia (baixo) e Antero (bateria). Tocamos uma mistura de metal, sobretudo thrash, com algum hardcore! É basicamente isto que fazemos, sem termos pretensões de soar a nenhuma banda em especial, mas com a perfeita noção que também não somos "os originais"...Fazemos aquilo que mais gostamos, e com toda a nossa dedicação e vontade!

Como têm sido a aceitação a «Brainwash Show» ? Satisfeitos com o resultado final ?


Nós já ficamos muito contentes por termos conseguido gravar este ep e termos tido a oportunidade de fazer uma edição com algum cuidado tanto a nível do áudio como do artwork ( fotos do Pedro Bonnet e design do Rui Rodrigues )! Temos tido bastantes criticas construtivas e de incentivo tanto de quem ja comprou e ouviu o cd, que estamos a disponibilizar na internet, como das pessoas que escrevem reviews! Para nos tudo o que vier é bom...Ao vivo, já contamos com alguns concertos realizados este ano, onde temos tocado ao vivo as musicas deste ep, e temos ficado muito surpreendidos com a reacção das pessoas! Tem corrido tudo muito bem

Apostaram desde logo pela edição de um EP num formato profissional. Acham que dessa forma se torna mais fácil chegar ao público ?

Já tínhamos gravado 2 demos antes e pensamos que queríamos fazer uma coisa um pouco melhor a todos os níveis! Outro dos motivos é para tentar fazer com que algumas pessoas levem a banda mais a sério, pois quer queiras quer não em algumas abordagens que fazes a editoras, promotores de concertos ou rádios, uma boa imagem conta muito, para quem as vezes nem sequer ouve o som que vem no disco...é triste mas é verdade! Este ep foi totalmente gravado, produzido e misturado por nós, nos nossos mini-estudios ( www.myspace.com/thefogstudios ) e foi mais uma das coisas que nos motivou para fazer um bom trabalho, pois a parte da produção é também um dos universos dos quais gostamos ( se tiverem uma banda e quiserem gravar podem contactar...)


Noto nos agradecimentos e apoios do vosso EP várias menções à vossa autarquia. É de facto uma política generalizada no vosso concelho o apoio a bandas para a edição de discos ou os Switchtense acabaram por ser uma excepção ?

Pode dizer-se que fomos pioneiros nessa area aqui no concelho da Moita...(risos)! Sabemos de outras bandas que já fizeram os mesmo que nos em outros concelhos e então decidimos fazer o mesmo pedido a autarquia. Para isso também contribuiu o papel que representamos aqui na nossa terra! Todos os anos trabalhamos em conjunto com a autarquia na organização de um festival (MOITA METAL FEST ) aqui na quinzena da juventude da moita, ja tocamos em diversos concursos e tentamos sempre levar o nosso da nossa terra atras..é o mínimo que pudemos fazer! Achamos que neste sentido tem que haver uma preocupação dos "governos" locais em apoiar aquilo que se faz na terra, seja genuíno ou não...Só assim se podem desenvolver bons projectos! Desde ai, a câmara municipal da moita esta receptiva a propostas de bandas que queiram um apoio para a mesma finalidade que nos!

São oriundos da margem sul do Tejo, uma área que durante a década de 90 era detentora de um aceso e dinâmico movimento underground de onde saíram excelentes bandas mas que acabou por esmorecer há alguns anos atrás. Achas que se está a recuperar esse fulgor e mística das bandas da margem sul ?

O chamado Margem Sul HardCore (mshc)...É verdade que houve uma fase em que as bandas aqui já não eram assim tantas, contudo a tendência tem vindo a mudar de ha uns anos para cá, e nos próprios somos prova disso (existimos apenas há 4 anos....) Tem tudo a ver com fases que se atravessas e para as quais não existem muitas explicações! Mas se calhar aqui na margem sul haja algum segredo no ar que se respira...lool

Como vês toda a polémica actual em torno dos downloads ilegais de música ? Achas que isso poderá prejudicar jovens bandas nacionais como os Swithctense ?

A nível da banda acho que so tem a favorecer, pois nos não ganhamos nada com a musical, a não ser o reconhecimento publico de quem a ouve..e quem melhor para isso que a internet! Para as editoras talvez o caso ja mude de figura, pois a sua sustentabilidade depende da venda de discos...tem tudo a ver com um processo de evolução e modernização do negocio da musica! Se algum dia vivermos da musica, espero que seja de tanto tocar ao vivo, pois os cds são apenas um suporte e um veiculo para chegares as pessoas e tentares esgotar salas de espectáculo! Ai é que é realmente o local de trabalho de quem toca

O que poderemos esperar de vós a curto/médio prazo ?

Podem esperar uma banda cheia de vontade de continuar a tocar e a gravar coisas...a nossa vontade é fazer musica, divertir-nos e divertir quem nos vai ver! Se for com mosh e rodas melhor ainda! Esperamos brevemente gravar o nosso primeiro álbum e continuar a nossa caminhada ate onde pudermos ir, sem qualquer tipo de pressão!

Últimas palavras….

Agradecimentos especiais ao OPUSKULO pela oportunidade dada de falarmos da banda, do ep e das nossas ideias! Agradecemos também o apoio dado a todo o movimento underground nacional e esperamos que continuem com a vossa atitude e força por esta causa! Deixamos também um obrigado a todos os que apoiam a cena metálica em Portugal. Visitem-nos em www.switchtense.web.pt

terça-feira, maio 16, 2006

em entrevista...HORDES OF YORE

Tendo representado uma das boas surpresas do ano 2005, «Of Splendour and Ruin», o disco de estreia dos Hordes of Yore, continua a ecoar no panorama de peso nacional e a afirmar-se como uma obra verdadeiramente a descobrir. O Opuskulo falou com o guitarrista Helder no sentido de conhecer melhor esta interessante banda e indubitável certeza do Metal nacional.
Para quem não vos conhece…apresenta-nos os Hordes of Yore?

Somos uma banda criada em 2002 por minha iniciativa e do baixista Tiago Martins. Resolvemos romper com o estilo mais convencional que tocávamos numa outra banda para podermos criar realmente um estilo que envolvesse o gosto que partilhávamos pelo romance histórico, factor que está na base da nossa essência. Havia a pretensão de criar musicalmente algo que se interligasse com essa mistura de realidade e imaginário. Após o desenvolvimento ponderado de um contexto musical e lírico, resolvemos gravar o nosso primeiro álbum em 2004.
E como têm sido as reacções a «Of Splendour and Ruin» tanto em Portugal como lá fora?

Em Portugal têm sido bastante boas, tendo em conta que se trata de um primeiro álbum e que nenhum de nós era propriamente uma figura mediática dentro do meio, conseguimos divulgar o nome da banda com alguma facilidade. As pessoas gostam, sobretudo, do facto de reunirmos ideias bastante diversificadas em relação à música e da originalidade das letras. Lá fora, não é possível ter uma percepção muito exacta do número de pessoas que possam gostar do “Of Splendour and Ruin”, uma vez que não temos um contacto muito permanente com as distribuidoras. No entanto, alguns amigos nossos têm manifestado directamente o seu contentamento, um pouco na Europa, EUA e Brasil.
Para a gravação deste disco recorreram à colaboração de músicos de sessão, como por exemplo o Rolando Barros na bateria. Pretendem continuar a trabalhar desta forma ou irão integrar elementos na banda a título oficial ?

O Rolando apenas participou na gravação do álbum, após esse período arranjámos logo um baterista permanente com o qual realizámos todos os concertos – o Jorge. Não me parece que alguma banda tenha realmente gosto em colmatar o vazio com músicos de sessão, por muito competentes que sejam. No nosso caso deveu-se ao facto de existir um prazo estipulado para o começo da gravação e precisarmos de entregar as linhas de bateria, que já estavam criadas, nas mãos de quem não houvessem dúvidas de que as poderia executar. Outra colaboração foi a do nosso amigo Tiago (Rato) Martins nos teclados, um excelente músico que infelizmente não pôde integrar a banda num período posterior à gravação. Continuamos até hoje sem ter encontrado a pessoa certa para o seu lugar. Tivemos que adaptar algumas partes das músicas, ao vivo, de modo a que possam compensar e transmitir uma atmosfera diferente daquela que é encontrada no álbum. Não acho que isso seja necessariamente negativo, mas espero ainda encontrar um teclista, um dia destes.

Quanto à masterização do Alex Krull, como se deu essa colaboração? Conseguiram auferir qualquer opinião dele sobre os Hordes of Yore?

Bem, precisávamos mesmo de masterizar o álbum, porque não deixar o trabalho nas mãos de quem realmente admiramos? Basicamente foi-lhe enviado um mail ao qual ele respondeu afirmativamente. Penso que ele tenha gostado do álbum, embora o tivesse manifestado de um modo sublinear, tendo-se mostrado entusiasmado e fazendo várias sugestões acerca de coisas que nem eram à priori da sua competência.

Em termos líricos julgo que abordam temas relacionados com a Roma Antiga, estarei correcto? Porquê esta decisão? Fará mais sentido para vós abordar factos históricos de um país que não o vosso?

Os factos históricos que abordamos são exactamente do nosso país, bem como de todos aqueles que ofereceram resistência ao domínio romano. Acho que algumas pessoas são capazes de ficar com a ideia errada, se olharem somente para o layout. Devo dizer que não se trata propriamente de uma homenagem ao império, mas antes uma crítica. O maior domínio que o Mundo conheceu foi responsável pelo modo fútil com que levamos o nosso quotidiano. Dizimaram muitas civilizações e seus respectivos valores em nome do “esplendor” de Roma. Na nossa era, estão esquecidas palavras simples como honra, liberdade e integridade em troco da cobardia, prepotência e traição que governam o nosso mundo ocidental, herança directa do comportamento dos nossos colonizadores.

Pegando em duas palavras-chave no título do vosso disco indica-me ao que associas a esplendor, por um lado, e ruína por outro, no que diz respeito em primeiro lugar a Portugal e em segundo lugar ao Metal nacional?

Em relação a Portugal, associo esplendor a todo o seu património natural, cultural e à emotividade intrínseca que nos caracteriza enquanto portugueses. Esta mesma emotividade acaba por ser a nossa ruína como reverso da medalha. Algumas pessoas podem não saber compensar muito bem este factor. Meter o coração à frente da razão, por vezes pode ser perigoso, atravessamos um período bastante sério e é altura de deixar o coração um pouco de lado e ser o mais racional possível. Quanto mais não seja porque os nossos políticos estão sempre à espera de nos apanharem distraídos, estes não regem segundo o coração e tenho dúvidas de que o façam segundo a razão, mas apenas pelo oportunismo e pelo puro estado de demência. No que concerne ao metal nacional, terei de relacionar analogamente a palavra esplendor aos esforços de algumas bandas no sentido do progresso técnico, nos últimos anos. Por outro lado, o provincianismo de nos acharmos intelectualmente inferiores ao resto do Mundo e, consequentemente, o mergulho no preconceito de fazer algo de inovador, parecem ser a ruína da cena nacional, na generalidade dos casos.
O que podemos esperar dos Hordes of Yore a curto/médio prazo? Há já algo a ser preparado quanto a novas edições?

Ainda continuamos a divulgar este trabalho de apresentação da banda. Embora sejamos um meio pequeno, acho que muita gente ainda não nos conhece, pelo que devemos insistir em mais actuações ao vivo em alguns pontos do país que ainda nos falta visitar. Só em 2007 se poderá esperar um novo álbum que, aliás, já começa a ganhar contornos. No entanto, é apenas uma estimativa, pois algumas ideias são demasiadamente megalómanas para conseguir pôr em prática num curto espaço de tempo, uma vez que dependerão também de muitas outras pessoas. Refiro-me por exemplo à eventual inclusão de um coro ou quaisquer outros arranjos que possam envolver as respectivas diplomacias. Mas, não querendo adiantar ainda demasiado sobre o assunto, dediquemo-nos presentemente ao “Of Splendour and Ruin”.

Últimas linhas…

Os meus agradecimentos à Opuskulo pela entrevista e pela review ao nosso cd. Gosto sempre de referir as pessoas que vão propositadamente aos nossos concertos, principalmente aquelas que se têm deslocado entre várias actuações da banda. É realmente por elas que sentimos sempre motivação para continuar o nosso percurso; não me esqueço disso. Assim, os Hordes of Yore somos todos nós!

segunda-feira, maio 08, 2006

em entrevista...IN PECCATVM


Resistentes da cena açoriana, os In Peccatvm têm vindo a construir lentamente uma carreira sólida e interessante, sendo «Antília» o trabalho que a banda ainda se encontra a promover e que o Opuskulo procurou conhecer melhor .

Apresenta-nos os In Peccatvm…
Os In Peccatum são uma banda micaelense que pratica um som algures entre o heavy e o gothic metal. Nasceram fruto da vontade colectiva de três amigos de formarem uma banda e de se expressarem através daquilo que mais gostam: o heavy metal
«Antilia», o registo que ainda se encontram a promover, data de 2003. O que aqui podemos ouvir ainda é fiel ao que a banda se encontra a fazer actualmente ?
Sim, pois os traços que caracterizam a nossa sonoridade ainda se mantêm. Como é o estilo que gostamos, vamos mantê-lo enquanto existirmos como banda.
Sei que existe um conceito lírico por trás de «Antília». Podes explicar-nos um pouco melhor do que se trata ?
Exacto. O MCD "Antília" é um trabalho conceptual e quer a música, quer as letras são inspiradas na lenda micaelense associada ao lugar das Sete Cidades, que é um lugar da nossa ilha (S. Miguel) onde existem duas lagoas, uma verde e uma azul. Diz a lenda que estas lagoas foram formadas pelas lágrimas de uma princesa e de um pastor, que perante um amor impossível, choraram tanto que das suas lágrimas nasceram as referidas lagoas. Portanto, as letras de "Antília" são inspiradas nesta lenda.
Há planos a curto prazo para a gravação de um novo registo ? Em que formato ?
Sim, já desde o ano passado que temos a intenção de editar um novo registo, mas não tem sido fácil, pois nos últimos dois anos, dois dos nossos elementos encontravam-se a trabalhar fora da ilha, daí que não tivesse sido fácil termos o tempo necessário para a escrita de novos temas. Além disso, o factor monetário também é fundamental e na altura também não estavam reunidas as condições necessárias. Mas contamos para muito breve (sem precisar datas) entrar em estúdio, pois já temos canções novas, prontas para serem gravadas. O formato será novamente o de um MCD.
Achas que o facto de serem originários de uma ilha vos prejudica de alguma forma ou pelo contrário ?
Por um lado, complica um bocado a vida, pois não há um circuito de bares que promova uma banda desconhecida. Por outro lado, sermos de uma ilha desperta a curiosidade dos interessados e é um óptimo veículo promocional.
Os In Peccatvm são uma das bandas açorianas com maior longevidade e resistente de uma geração de promissoras bandas que acabaram por desaparecer. O que vos faz continuar ao longo de todos estes anos ?
Basicamente o que nos faz continuar e permanecermos no activo é para além do gosto pelo metal, sermos grandes amigos. Somos amigos de infância e é basicamente isso que faz com que a banda não morra e decerto, nunca morrerá, mesmo que permaneça por longos períodos de tempo inactiva.
Consideras que o movimento Metal nos Açores tem vindo a perder algum do fulgor que o caracterizava ?
Penso que não. Apesar de algumas bandas irem desaparecendo, vão sempre surgindo outros projectos. É pena é que não durem muito tempo, pois grande parte das bandas surgem durante a escola e mais tarde, quando chega a altura de ingressar na universidade, muito pessoal parte para o continente para prosseguir estudos e as bandas vão acabando.
Indica-me 3 desejos que gostaria de ver realizados em relação aos In Peccatvm ?
Epá, esta é difícil, mas basicamente só temos um desejo: que os In Peccatum continuem sempre a fazer aquilo que mais gostam: metal.
Últimas palavras…
Queremos agradecer-te pelo teu interesse na nossa banda e louvar-te pela tua iniciativa, pois só assim têm voz todas as bandas, que como nós, lutam pelo amor à camisola. E já agora, convidamos todos os leitores a visitarem a nossa página na net: www.inpeccatum.com
Saudações metálicas para todos.

sexta-feira, maio 05, 2006

em entrevista...PANZERFROST

Num panorama Black Metal cada vez mais animado em Portugal, os PanzerFrost surge como mais uma excelente proposta, revestindo-se de uma aura bélica, destruidora e brutal. O Opuskulo quis conhecer melhor esta banda oriunda da Marinha Grande e para tal falou com o seu vocalista e guitarrista, Sorath Panzerkiller.


Apresenta-nos os Panzerfrost…

Desde já as minhas saudações á Opuskulo e a todos os fans do underground nacional mais extremo..
Panzerfrost, surgiu logo no inicio de 2002 na Marinha Grande pela fusão de duas bandas Mortalthrone ('94/'95) e Argothium ('00). A banda sofreu algumas reformulações no line-up, mas sendo actualmente composta por um exército de 4 indivíduos que acreditam fielmente naquilo que fazem: Sorath Panzerkiller (Voz/StudioGuitar), Nihil Warthrone (Guitar.), Peter Slaughter (Guitar.Baixo) e SkullCrusher responsavel pela bateria e percurssao. Desde então a banda tem evoluido dentro de si mesmo e dentro daquilo que acreditam, entre vários concertos destacam-se talvez, Underfest II com bandas como Extreme Noise Terror (UK), Decayed, Stuprum Dei, Vizir, o Lusitanian Darkness fest II com Fili Nigrantium Infernalium, The Firstborn e a oportunidade de ter-mos tocado com bandas como In Tha Umbra, Inquisition (US) e Sacred Sin.

Sei que chegaram já a gravar um álbum mas que nunca chegou a ser editado, certo ? O que se passou ? Contam vir ainda a editá-lo ?
É verdade, chegámos a gravar aquele que seria o primeiro álbum de Panzerfrost sob o nome de RETALIATION, mas houve uns problemas técnicos e alguns ficheiros ficaram corrompidos, temos ponderado entre tentar recuperar esses mesmos ficheiros ou entao de esquecermos e voltar-mos a gravar tudo novamente.. o que é o mais provável que venha a acontecer e esperamos que seja o mais breve possivel..

A julgar pelo aspecto cénico e pela própria músicca, remetem para um imaginário bélico ligado à Guerra. Correcto? Explica-nos um pouco melhor qual o conceito lírico de Panzerfrost…

Correcto, não abordamos definitivamente aquela imagem típica do Black Metal Nórdico, de florestas, montanhas e neve, vivemos a nossa actualidade tal como ela é, gostamos das suas Imperfeições, da sua Violência e da sua Perversão, admiramos o Ser Humano como o animal mais Selvagem e Manipulador de todos, na forma como exprime os seus Ideais e nas suas acções de Liderança e Domínio.
As nossas letras são o negro reflexo de tudo isso, Guerra, Satanismo, Violência, Sadomasoquismo, Pre-niilísmo, Terrorismo, Armas de destruição maciça, Òdio e Destruição, são conceitos amplamente difundidos nas letra de Panzerfrost.


Marduk aparece como uma clara influência a todos os níveis…ou será que estou errado ?

Não é das nossas principais sinceramente, mas é certamente, na minha opinião uma das nossas melhores influências, em comum está a não inclusão de teclados e talvez nos momentos mais explosívos da nossa música as nossas influencias do Black Metal mais extremo se tornem mais evidentes, mas em Panzerfrost encontram-se bastantes elementos diversificados do Death Metal e até mesmo do Thrash.

Nos últimos tempos tem-se notado um fervilhar do Metal e do underground em geral em toda a região Centro com o aparecimento de muitas bandas e realização de muitos concertos. Existe realmente um movimento forte e organizado? Consideram que isso vos pode beneficiar?

Acho que é pura ilusão, é certo que ultimamente tem havido muitos concertos na zona centro, mas conta as pessoas que aparecem nesses mesmos concertos!É triste ver que o movimento metálico tem um circulo cada vez maior de fans, mas que por outro lado não dão o valor e o devido respeito que o Metal merecía ter, muitas vezes preferem ir para as discotecas com as namoradas do que assistir e apoiar um bom concerto de Metal e quando aparecem é só para arranjar um ou dois engates.. o que é no mínimo revoltante, não achas? No entanto, tudo isto nos beneficia, porque pelo menos sabemos que a maioria do pessoal que está no concerto é pouco, mas são bons e estão ali porque tal como nós acreditam no Metal, como uma forma de Arte, Filosofia e Culto.
Indica-nos 3 coisas que gostariam de mudar no actual panorama Metal nacional ?

Penso que a minha resposta anterior revela algumas das grandes mudanças que o panorama Metálico Nacional precisa, de ano pra ano temos vindo a assistir a uma evolução tremenda nas Bandas Portuguesas em todos os géneros de Metal, quando vou a um concerto fico cada vez mais impressionado com a força em palco, qualidade e profissionalismo que algumas bandas Portuguesas conseguem ter.. e para elas desejo tudo de melhor.

Em termos de concertos, o que poderemos esperar de uma prestação de Panzerfrost ?

CAOS E DESTRUIÇÃO!! Para nós cada concerto é o ultimo, é uma missão de combate, damos tudo até aos nossos limites, damos o sangue se for preciso.

Alguma coisa prevista para breve ?

Temos agendada para 13 de Maio (Sabado), o PANDEMONIO underground Fest na Benedita, perto de Caldas da Rainha/Alcobaça com Theriomorphic, Shadowsphere, Panzerfrost, Process of Guilt, Skanvass, por isso apareçam e apoiem o Metal Nacional.

Quanto a novas edições, há alguma coisa a ser preparada ? Que pormenores nos podes revelar ?

Sim, vai sair entretanto um tema nosso numa compilação de aniversário aqui da Opuskulo, a faixa que nós apresentamos dá-se pelo nome de: "Infernal Black Metal Attack", á parte disso estamos a pensar seriamente entrarmos em estúdio novamente, e desta vez sem problemas.. espero!

Últimas palavras…

Não sendo minhas estas palavras, faço delas minhas:
"O Homem é aquilo que pensa e aquilo que imagina.
Se pensar no fogo, será fogo;
se pensar em Guerra, será Guerra!" (Paracelso, De virtute imaginativa, 1526)
Um agradecimento especial á Opuskulo por esta entrevista e pelo seu trabalho no Underground Nacional.
Visitem o nosso blog em:
http://panzerfrost.blogspot.com
Para mais contactos deixo aqui o email da banda: panzergramm@mail.pt

quarta-feira, abril 26, 2006

em entrevista...PAINTED BLACK

Praticamente desconhecidos no panorama musical nacional, os Painted Black são uma banda oriunda da Beira Interior que editou recentemente «The Neverlight», um EP de estreia promissor e apelativo a vasto espectro de apreciadores. O Opuskulo quis conhecer melhor esta banda e falou com o guitarrista Luis Fazendeiro...
Apresenta-nos os Painted Black…

Os Painted Black são um grupo de pessoas que usam a música para exprimirem sentimentos e estados de espírito. É este o verdadeiro objectivo e o propósito de existirmos. A banda foi formada no Verão de 2001, mas a génese das ideias para o projecto já remontavam ao ano de 1998. Desde a sua formação até aos dias de hoje, a banda passou por saídas e entradas de novos membros, tal como vários problemas em arranjar um local de ensaio fixo. Tivemos alguns períodos de total inactividade devido a estes factores, o que não ajudaram ao nosso crescimento e evolução, mas felizmente, desde o ano de 2005 que as coisas estabilizaram, e neste momento as nossas preocupações passam apenas em compor e promover a banda de todas as maneiras possíveis. Da formação de 2001 apenas me mantenho eu, o Daniel (vocalista) e o Telmo (baixo), e no ano passado juntaram-se a nós os irmãos Miguel e Rui Matos, na guitarra e bateria respectivamente, a completar a formação mais sólida que tivemos. Para os teclados contamos com a participação preciosa do Bruno Aleixo, que neste momento trabalha connosco como músico de sessão.

«The Neverlight» é uma estreia em termos visuais bastante auspiciosa. Até que ponto consideram importante uma banda transmitir não só uma boa impressão em termos musicais como também em termos de imagem?

A música é e será sempre o mais importante, como é natural, mas é importante que todo o trabalho gráfico que envolve um CD descreva e exprima o melhor possível os ambientes e sentimentos contidos na música. Falando por mim, quando penso num certo tema de uma banda, a imagem que me surge na mente, é a capa do álbum onde está inserido. Acho que acaba por ser inevitável essa associação, e até se pode fazer um paralelo com as pessoas. Quando pensamos em alguém, o primeiro que vem à cabeça é o seu rosto ou corpo. Por isso acho que a caixa, e tudo o que envolve fisicamente um CD, é o seu corpo, e este guarda nada mais do que a sua alma. É uma visão poética, mas penso que funciona na perfeição, ainda mais quando sentimos verdadeiramente que a música que registámos no CD, faz parte de nós e foi feita com sentimento.

Gravaram temas presentes neste registo de estreia em estúdios distintos. Porquê essa opção?

Basicamente foi tudo uma questão monetária. Gravámos o tema “DeadTreeSong” em 2003, no estúdio iSom em Alcains, com o objectivo de gravarmos mais temas para uma maqueta, os quais nunca foram gravados devido a factores de instabilidade na banda na altura. Quando a situação foi estabilizada, com a entrada de novos membros, decidimos finalizar o trabalho deixado para trás, mas em vez de uma maqueta de 3 temas, apostamos num EP. Tínhamos ideias suficientes, mas o dinheiro não abundava (nem abunda!), e decidimos gravar os temas que requeriam um trabalho muito mais cuidado no estúdio, e os restantes por meios próprios, com a ajuda de um amigo chegado a nós, que consideramos quase como família. Por isso na realidade o segundo estúdio que referimos no CD, não é um estúdio verdadeiro, foi apenas uma maneira de agradecermos e evidenciar o trabalho desse nosso amigo (primo Costa rules! ;) ).

Que tipo de condições e apoios existem para uma banda construir uma carreira na região de onde provêm, a Beira Interior?

Não existem! A resposta é directa mas sincera. A única atitude que podemos ter, é ir à luta, e fazermos as coisas por nós mesmos, sem estar à espera que as coisas nos caiam no colo. Penso que qualquer banda em Portugal, esteja onde estiver, tem de ter este espírito, ou nunca vai sair da sala de ensaios. Temos paixão naquilo que fazemos, todos gostamos de música, e se acreditarmos em nós próprios, temos que inevitavelmente fazer sacrifícios para podermos ir mais além. É tudo uma questão de trabalho, dedicação e agradecer e aproveitar todas as oportunidades que aparecem para mostrarmos a nossa música, e aquilo que nos vai na alma. Por vezes temos que ser nós a criar essas mesmas oportunidades.


Musicalmente falando nota-se uma certa heterogeneidade de influências musicais que acaba por resultar em temas algo díspares entre si. Todos os temas reflectem o mesmo estádio evolutivo da banda ou foram compostos e gravados em alturas distintas?

A disparidade que falas, é sem dúvida algo evidente, e que nós estamos cientes. Ao lançar um primeiro trabalho, quisemos mostrar da melhor maneira possível o nosso leque musical e os nossos extremos. Como referi na primeira pergunta, a nossa música reflecte o nosso estado de espírito, os nossos sentimentos mais íntimos e honestos, os quais exorcizamos através de um veículo, que é a música. Desde a génese do projecto, em que tudo o que existia era uma guitarra acústica e o contributo vocal e lírico do Daniel, que evidenciamos essa mesma disparidade de melodia e agressividade. Mas para nós foi sempre algo natural e nunca forçado, e tal como os temas mais melancólicos, que sem dúvida perfaziam a maioria do material, existia uma necessidade e vontade de explorar a agressividade. Para além desta razão, puramente visceral, existe também a consciência e a preocupação de não sermos uma banda linear, no sentido de estarmos sempre a criar o mesmo tema, mas com roupagens diferentes. Evitamos ao máximo repetir-nos, quer seja nas estruturas dos temas, ou neste caso que referiste, no uso do equilíbrio da melodia/agressividade. Não é por acaso que entre os 6 temas que perfazem o EP, apenas um se afaste dos restantes, no que toca a agressividade e peso. É algo que surge espaçadamente, e que até pode deixar de aparecer um dia, mas que nunca vamos relegar, ou colocar de lado. Faz parte da identidade da banda, e de nós. O que realmente importa, é que seja honesto e sentido.

Que rumo levarão os novos temas de Painted Black? Mais Doom e agressivos, mais Rock e melancólicos ou um misto dos dois?

Os temas que já temos preparados para um segundo registo, são um misto dos dois. Aliás, acho que esses quatro adjectivos que deste, nos definem bem: Rock, Doom, agressividade e melancolia. É nossa opinião que os temas novos estão mais coesos, e que o equilíbrio peso/melodia está melhor distribuído. Penso que existe uma evolução entre “the Neverlight” e o nosso próximo trabalho. No entanto, continua a existir a disparidade que falava anteriormente, que para nós continua a ser algo natural, e com a qual estamos completamente à vontade e acolhemos de braços abertos. Se todos os nossos planos se concretizarem, o nosso próximo trabalho irá incluir o tema mais pesado que alguma vez compusemos, tal como o mais melódico e “calmo”. Sabemos que para algumas pessoas não é fácil assimilar estes dois tipos de “ambientes” num mesmo registo, mas é o que poderão contar da nossa parte. Não somos uma banda brutal, nem temos essa pretensão, mas temos a nossa própria dose de agressividade. A melodia e a melancolia irão ser sempre parte fundamental na nossa música, tal como os sentimentos que queremos transmitir, mas tudo será criado naturalmente e fruto da inspiração e estado de espírito do momento.

Em termos de concertos julgo nunca ter tido conhecimento de nenhum cartaz com a vossa presença. É uma opção vossa não dar concertos ou simplesmente uma falta de convites para tal?

A verdade é que nós damos concertos, mas não tantos como desejaríamos. Ainda não conseguimos sair da nossa região, mas já estivemos presentes em 3 festivais, um dos quais os Moonspell estavam no mesmo cartaz, mas infelizmente fomos colocados num dia diferente, onde actuamos ao lado dos Blasted Mechanism e Tara Perdida. Já contamos com mais de uma dezena de concertos, com as habituais actuações em bares da zona, mas realmente nunca fomos convidados para actuar fora deste circuito. É nosso desejo actuar nos grandes centros do nosso país, como Lisboa e Porto, mas ainda não surgiram as oportunidades. A vida pessoal de cada membro da banda também não permite que estejamos sempre disponíveis para actuações, mas resta-nos tentar e esperar pelos convites e interesse no nosso trabalho.

Sentem-se de alguma forma prejudicados por se tratarem de uma banda praticante de um estilo contrário ao que a vossa região exporta com maior abundância, normalmente bandas mais dentro do Death e Black Metal brutal?

Nunca nos sentimos prejudicados por isso. Conhecemos pessoal de bandas mais extremas na região, como os Agonized e Necrose, e já estivemos presentes em concertos deles, como eles em actuações nossas. Acho que o facto de praticarmos uma sonoridade diferente deles, não nos afastou, pelo menos nunca o sentimos. Acho que quando há apreço e respeito mútuo pela música que cada colectivo faz, e sobretudo camaradagem, esses aspectos mais negativos nunca chegam a existir. É verdade que não temos conhecimento de mais nenhuma banda a praticar um estilo similar ao nosso na região, mas acho que Portugal é um país demasiado pequeno para se limitar uma região como exportadora específica de um determinado estilo. Pelo menos a nossa existência pode desmistificar um pouco isso, e nunca sentimos que fosse um impedimento para o que quer que fosse.

O que podemos esperar dos Painted Black a curto/médio prazo ?

Bem, já começámos a planear a gravação de um segundo EP para o Verão, por isso parte do trabalho que vamos desenvolver vai ser com esse objectivo em vista. De resto, se até lá não surgir nenhuma oportunidade para tocarmos ao vivo, esperamos que depois da gravação isso se concretize. Entretanto vamos continuar a divulgar e promover o nosso trabalho e a desenvolver novas ideias.


Últimas palavras….

Primeiro quero agradecer a todas as pessoas que até agora nos apoiaram e ajudaram. Também agradeço a disponibilidade do Ricardo e a oportunidade de responder a esta entrevista. Continuem a visitar o Opuskulo e a apoiar todos os meios de divulgação de música alternativa feita em Portugal! As pessoas que estiverem interessadas, visitem o nosso site para mais informações sobre a banda e para conhecerem a nossa música (www.paintedblack.tk). Obrigado e um abraço!

quarta-feira, abril 19, 2006

em entrevista...HORRÍVEL

Horrível é o nome de um enigmático projecto surgido recentemente nos meandros da Internet que começa a suscitar o interesse generalizado. Sendo contrário a todos os conceitos e princípios pré-estabelecidos de banda e de música, Horrível promete destacar-se pela diferença e provocar reações bastante diversas. O Opuskulo procurou conhecer um pouco melhor este estranho projecto e falou com Álvaro a.k.a REPULSA, responsável por vozes, barulho e ritmos em Horrível e personagem activa em muitos outros projectos. Aqui ficam as visões...
O que é Horrível ?

Horrivel é uma descarga de barulho instintivo limado e compactado em "músicas" minimamente audíveis. Horrível em estado bruto é uma coisa perigosa para a humanidade por isso decidimos dar um corpo, corpo que pode ser identificado como "metal extremo" ou "Noise". Em suma, Horrível é provavelmente das coisas sonoras mais terríveis do planeta.

Esse universo musical ligado ao Noise julgo que nunca foi explorado em Portugal. Que reacções esperam obter ?

"Noise" puro há algumas experiências mas tudo no campo das artes plásticas, instalação e esse tipo de coisas. Horrível criou uma linguagem para comunicar a partir do "noise" e do chamado "black metal", dois estilos de música bastante agressivos e primitivos que permitem a Horrível criar paisagens sonoras densas e com pormenores que vão sendo descobertos aos poucos. Horrível é como uma sonda que penetra fundo e faz jorrar merda. Horrível sinceramente quer que as pessoas fiquem surdas e desliguem a música passado 10 segundos.

E que tipo de reacções têm recebido até agora? Qual o público que vos ouve?

Não sei, este projecto nasceu à pouco tempo, muito pouco mesmo. A procissão ainda vai no adro. As pessoas vão ter a noção exacta do que é Horrível quando tocarmos ao vivo. ( sim , estamos a pensar fazer isso) Quanto ao público que nos ouve...acho que toda a espécie de gente que gosta de desperdiçar tempo a dar atenção a projectos que, à partida, são totalmente estúpidos. Horrível não é um projecto para se ouvir no discman é para mandar aos amigos "olha lá esta cena que extrilho" ou para ouvir em casa quando todo o restante universo musical parece não satisfazer os instintos mais básicos .

Falaste em tocar ao vivo...há já alguma coisa acertada? Podes revelar pormenores?

Ainda não está nada acertado. Mas muito provavelmente será nas Caldas da Rainha. Será uma experiência para ver até onde podemos levar Horrível. Irá bastante gente participar e quem tiver lá vai ver muita tralha e lixo em cima do palco. Estamos a tentar organizar este festim bélico para Maio. Estejam atentos ao site.

O vosso imaginário gira um pouco em torno de um cenário pós apocalíptico, bélico e negro...ou estarei errado ?

Estás errado. O nosso cenário não tem corpo, Horrível é uma ilustração do medo do escuro. Horrível é algo que se sente quando se está inseguro. É aquele bater de perna quando estás a espera de alguém. Horrível é DESCONFORTAVEL.

Esperam então apelar a um certo sentimento de auto-flagelação a quem vos ouve ?

Façam o que lhes apetecer, não temos nada a ver com isso. Só não gostava de uma associação demasiado explicita ao movimento "blackmetal". O que eu queria mesmo era que quem ouvisse ficasse surdo.
Sei que a vossa forma de operar é totalmente antagónica à tradicional noção de banda...podes explicar-nos um pouco melhor isso...

Agimos por instinto, vivemos a muitos Km uns dos outros. Surge tudo numa espécie de sintonia cósmica via MSN. Através de troca de ficheiros. O Raiva fornece a sua interpretação de Horrível através da guitarra, eu acrescento-lhe a minha interpretação e o Hellraiser expressa-se vocalmente sobre aquilo que já foi "dito". Este processo não tem uma ordem específica.

Preferes agir assim ou gostarias que os Horrível funcionassem como uma banda tradicional, com ensaios em conjunto..etc...Achas que o resultado seria diferente ?

Completamente. Já estou cansado da experiência tradicional de "ensaio" e "banda" e "tocar" , "fazer músicas" e penso que os meus colegas partilham essa opinião comigo. Todos temos larga experiência nessa área. O "concerto" que poderemos dar será também pouco convencional nos métodos e equipamentos usados

Tais como ?

Aspiradores, etc...(risos)

Sei que para além de Horrível desenvolves outros projectos. Podes fazer uma breve apresentação deles ?

www.1x4.page.vu é o ponto de partida para as "minhas coisas". Sim, tento estar bastante activo, faço ilustração, "vandalizo" WCs e paredes naquilo que chamam "street-art" ( não graffitti ). Tenho Tigre Deficiente ( www.tigredeficiente.pt.vu ) um projecto também "made in MSN", a sonoridade de Tigre Deficiente está nos campos do Rock electrónico, Punk nas ondas de The Locust, Daughters Arab on Radar e mesmo Yeah yeah yeahs . Também canto numa banda "convencional no método de trabalho" chamada Monstro que está agora começar e que soa a tudo, pop, punk, metal, grind, reggae, ska, blues, hip-hop, jazz, ópera. Em breve vou fazer um site para apresentar a banda. E para meados de Julho esperamos já estar a tocar ao vivo.

Sendo tu uma pessoa visivelmente de mente aberta esperas também atrair pessoas dentro da mesma sintonia para os teus projectos? Achas que um fã acérrimo e conservador de Black Metal poderá compreender o conceito de Horrível, por exemplo ?

Não há nada a compreender. Ouve e cala! Ainda em relação à mesma questão, sei por fontes fidedignas de situações em que "fãs acérrimos e conservadores de black metal" ficaram com "medo" e não são palavras minhas

Achas que em Portugal ainda existe algum certo conservadorismo tacanho em relação á música e um instinto de criticar e invejar o outro ?

Acho que em Portugal agarram-se muito a coisas já putrefactas e não dão espaço para ar fresco entrar. Ainda há uns dias fui assistir a um concerto na Casa da Música, em que maior parte das pessoas estavam lá para assistir à última banda, Faust, uma banda rock muito experimental nos instrumentos e nas composições e essa treta toda. A fazer a primeira parte estavam dois dos melhores projectos hip hop mundial, Subtitle e Dalek, hip-hop caótico quase apocalíptico, muito barulhento, muito original e forte. O publico estava neutro em relação a eles e ouvi comentários e atitudes por parte do publico bastante infelizes e demonstrativos de muita falta de cultura e conhecimento. Enfim, isto ilustra bem o que quero dizer. Mas felizmente, cada vez mais, se vê projectos bem interessantes em Portugal, misturas de estilos, experiências musicais etc. Há ainda pouca divulgação e apostas nessa área por medo e quando a "coisa parece um pouco esquisita" fica restrita aquele grupo "intelectual dos óculos de massa e do design" ou aos "man os gajos são bue marados devem fumar altas cenas" Mas pronto já me estou alongar e é melhor ficar por aqui

E que projectos inovadores em Portugal são esses ? Podes citar alguns exemplos ?

Gosto bastante das coisas da distribuidora "Lovers and lollypops
http://www.loversandlollypops.cjb.net/. Não são projectos inovadores mas são projectos que respiram ar fresco. Aliás, a expressão "projectos inovadores" não é bem correcta, prefiro dizer "projectos que parecem um bocado diferentes do resto" Gosto bastante de Vizir, acho uma banda de "Metal" muito objectiva, gosto daquele estilo de metal curto, grosso e mecânico , e das letras . Metal no estado puro é Vizir. Gostava bastante de Triangulo Dourado, uma banda de hip-hop do Porto que, infelizmente, já acabou, mas eram bastante originais na forma de cantar e mesmo nos instrumentais. E pronto, de momento não me surge mais nada…ah…lembrei-me agora dos Bola de Cristal, do Porto

Vejo então que és conhecedor e adepto de um circuito alternativo mais alternativo do que aquilo a que chamam underground...Por exemplo no caso do Metal, e uma vez que citaste os Vizir, é banda na qual nem se pensa quando alguém fala em Metal nacional ou underground mas que existe e tem, de facto, apreciadores....Achas que existe realmente um circuito alternativo para além do que é tido como alternativo? Se é que me faço entender...

Existem mil circuitos alternativos, isso é que é mau, somos pouca gente em Portugal, as minorias aqui têm pouca força, as iniciativas de organizar concertos perdem força e por ai fora, é uma bola de neve. Há o pessoal que gosta da discoteca, há pessoal que gosta de metal, há pessoal que vai a bares "intelectuais", há pessoal que fica na rua a fuma-los, há pessoal que vai mandar umas rimas, há pessoal que vai foder, há pessoal que tem carros tunnings,etc. Estes são os grandes grupos, tudo que está no meio perde força e expressão, é apenas "uma coisa engraçada".

Bem, a conversa já vai algo longa...o que podemos esperar dos Horrível em breve?

Mais barulho, barulho com melhor qualidade, e barulho ao vivo.

Pretendem continuar sempre a disponibilizar os temas no site ou pensam vir a editá-los em suporte físico ? Porquê essa opção ?

Não, vai ser sempre via Inernet. Não faz sentido editar hoje em dia. O meio é a internet, a musica k fale por si. O site serve como suporte visual, não queremos ganhar dinheiro nem íamos ganhar, só queremos mostrar barulho e dai a opção.