sexta-feira, julho 20, 2007

em entrevista...HIPNOTICA

No regresso do OPUSKULO às entrevistas resolvemos desviar-nos um pouco das sonoridades mais habitualmente divulgadas nestas páginas e concentrar atenções em paisagens mais alternativas e de fusão. Os eleitos foram os portugueses HIPNOTICA, banda que condenada a ver os seus discos tornarem-se referências no música alternativa portuguesa, sendo que a novidade «New Comunities for Better Days» não constituirá excepção. Aqui fica o relato da conversa mantida com a banda.

Cada disco que editam figura automaticamente entre os melhores do ano. Isso coloca-vos algum tipo de pressão na hora de compor um novo disco?

Não propriamente, a maior pressão que sentimos quando partimos para a composição de um novo álbum é o desafio de fazermos sempre melhores musicas. Ao início há sempre muita discussão para definir os caminhos que queremos percorrer, mas depois há factores incontroláveis associados com a inspiração e a criatividade, a junção desses factores imprevisíveis associada com o nosso empenho é que vai moldando o resultado. É bom que haja uma certa tensão sempre presente.

Quais as maiores diferenças a assinalar entre este novo disco e o anterior?

É um disco com uma vertente mais rock e com momentos de explosão. Permanece a influência do jazz e da electrónica, mas mais diluídos do que no disco anterior. Também a componente melódica e harmónica dos temas foi mais explorada.

Em termos de colaborações exteriores e novas experimentações parece-me um disco mais ambicioso. Concordam?

Sim, buscamos sempre pessoas com as quais possamos estabelecer afinidade musical e criativa e isso tem acontecido com músicos de diversos países e de diversas tendências. Mas como disse anteriormente, a ambição é em primeiro lugar associada à música. Temos tido sorte de encontrar excelentes músicos que se prontificam a compor connosco e a alargar a nossa comunidade.


Em termos líricos, o que aborda este disco?

Relações entre pessoas, amigos, amantes, observação social, os rumos que podemos tomar, fragmentos de histórias como curtas metragens, alguns elementos surrealistas e algumas expressões mais poéticas.


Apesar do sucesso em Portugal que têm vindo a alcançar o mesmo não se tem verificado a um nível internacional. Porquê?

O tema dos outros mercados é recorrentes, mas temos tido alguns resultados, como por exemplo a recente edição de 1 tema numa compilação de uma editora japonesa que é a KSR ao lado de nomes como os Koop, Andy Caldwell e os The Poems. É uma luta difícil e desigual pois grande parte dos países europeus já perceberam que a exportação da sua música é uma forma muito eficaz de promover a imagem do próprio país. Não há só bons jogadores de futebol em Portugal, há grandes bandas e que numa acção concertada e com subsídios bem aplicados poderiam por Portugal no mapa europeu.

Que reacções vos chegam do estrangeiro?

Quando a nossa música lá chega, a opinião é excelente e aliás conseguimos chegar às pessoas que gostam das bandas e da musica que nós também gostamos de ouvir o que é um óptimo termómetro para nós. Pelo MYSPACE que é um dos meios mais eficazes de lá chegar essa é a percepção que temos tido, aliás temos vendido alguns álbuns através desse tipo de meios.


Qual a vossa opinião quanto ao actual estado da música alternativa portuguesa? Pode dizer-se que existe um movimento cada vez mais forte e organizado?

Nem por isso, há boas bandas, algumas iniciativas já bem estruturadas, mas o circuito de concertos ainda é limitado em termos de condições e o acesso aos media, tirando algumas louváveis excepções, ainda é muito escasso. Ultimamente a Internet tem servido para proliferação de sites e páginas dedicados à musical nacional e o próprio youtube e myspace permitem circular os vídeos que as bandas produzem e que muitas vezes não tinham acesso a nenhum canal de televisão.
A vossa sonoridade contempla um cocktail de diferentes paisagens musicais. Como definiriam o vosso som?

Cocktail molotov? …Perguntas difíceis ( risos). Como diria Dizzy Gillespie “a musica fala mais alto do que as palavras”.

O que podemos esperar da vossa parte em termos de concertos? Alguma digressão planeada?

Estamos a planear uma tour nacional a iniciar em Setembro e a prolongar-se até ao fim de Novembro.

Últimas palavras…

Que as pessoas procurem a nossa música , pode ser através do www.myspace.com/hipnoticapt , que façam download nos P2P, que gravem dos amigos, enfim que a ouçam ….se realmente gostarem e se vos “entrar”, comprem o original que é que nos permitirá continuar discos.
Peace&love

segunda-feira, maio 07, 2007

em entrevista...ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL - OS CANTOS DE MALDOROR

A relação dos Mão Morta à componente teatral não é propriamente novidade, basta recordar o espectáculo "Müller no Hotel Hessischer Hof" que teve como protagonista Adolfo Luxúria Canibal e seus pares e que ficou imortalizado num DVD editado recentemente. "Os Cantos de Maldoror" recuperam esse formato e lançam os Mão Morta numa nova aventura que promete tornar-se num espectáculo singular a não perder. Em vésperas de estrear a nível nacional, o Opuskulo teve o prazer de conversar com o enigmático e incontornável figura desta trama, Adolfo Luxúria Canibal...

Para quem não está familiarizado com a obra que deu origem a este espectáculo, «Os Cantos de Maldoror», é possível fazer um breve resumo da mesma?

Não. Poderia dizer que é construída como uma epopeia clássica mas em que, contrariamente a esta, o herói não é um herói do bem mas um herói do mal – e não seria mentira –, mas isso era deixar o essencial do livro de fora. Porque o que o torna interessante não é propriamente a história que conta – e não conta uma história, antes se perde por milhentos farrapos de histórias – nem a forma genérica que aparenta, mas a maneira como a escrita se desenrola. Não estamos a falar de um romance ou de uma novela, mas de poesia e de poesia moderna – e é insensato imaginar que se possa resumir um poema sem, com isso, perder o poema!

Como surgiu a ideia de passar essa obra para este formato original? Porquê esta obra?

O livro Os Cantos de Maldoror é uma obra já várias vezes referenciada por nós e que nos ocupa a cabeceira da cama desde a adolescência. Tendo a literatura tanta importância no trabalho dos Mão Morta, quer a nível temático quer como inspiração para a composição, quer como objecto de trabalho, seria previsível que um livro que nos é tão querido viesse, mais cedo ou mais tarde, a ser abordado pelo nosso labor criativo. E efectivamente há muito tempo que o Miguel Pedro insistia em fazermos um espectáculo sobre Os Cantos de Maldoror, ideia que eu ia sistematicamente recusando por me parecer que a complexidade da obra, e o nível estritamente literário em que ela opera, não seria susceptível de transposição para outro tipo de linguagem. Mas o Miguel Pedro tanto insistiu que lá nos conseguiu convencer a todos a metermo-nos nessa loucura e o convite do Theatro Circo, para inaugurarmos a sua vertente de produção de espectáculos, acabou por surgir no momento certo para dar viabilidade ao projecto… As dificuldades de transposição que eu temia aconteceram, mas não nos fizeram desistir e acabamos por encontrar um mecanismo que nos possibilitou a construção de um espectáculo que, acreditamos, não atraiçoa o livro.

Esta simbiose entre a música, o vídeo e a declamação não deixa de ser original, especialmente em Portugal. Sentem-se de alguma forma percursores de algo?

Não tenho assim tanta certeza que seja algo tão original quanto isso! Seja como for, importa dizer que não fizemos qualquer levantamento de quem antes de nós já tinha utilizado a multidisciplinaridade de linguagens e de mídias, mas acreditamos piamente que já muita gente o fez… E isso para nós não é importante! Essa utilização acontece no Maldoror não pela vontade em ser percursor ou para ostentar meios, mas porque achamos que a construção do espectáculo o exigia – espelha, de certo modo, as diferentes vozes que no livro se entrecruzam.

Achas que o público português está preparado para acolher um espectáculo deste género? Que expectativas têm quanto aos espectáculos que ai vêm?

Esse conceito de público parece-nos um conceito demasiado abstracto… Nós partimos para a feitura de um espectáculo (ou de um disco) por necessidade nossa, pelo prazer criativo de mergulharmos numa coisa nova e de partilharmos a sua construção entre todos, e um bom resultado final, um resultado que nos satisfaça e com o qual nos sintamos recompensados, faz parte dessa alegria criativa. Se esse resultado final nos agradar, não há motivo para não poder agradar também às pessoas que forem ver o espectáculo – não há necessidade objectiva de haver uma qualquer preparação especial para isso acontecer – e se efectivamente agradar então a nossa felicidade torna-se perfeita!... Neste momento, que ainda não temos um resultado final, estamos amplamente satisfeitos com o trabalho realizado e cheios de expectativas positivas!

A componente cénica e dramática esteve sempre bastante presente na música de Mão Morta. Esta foi uma forma de materializarem essa mesma componente?


Efectivamente sempre houve uma componente cénica muito acentuada em toda a música dos Mão Morta, quer em espectáculo quer em disco, que deriva essencialmente da intensidade interpretativa. Neste Maldoror, como já tinha acontecido no Müller no Hotel Hessischer Hof, fazemos a exploração plástica, submetendo toda a apresentação em palco a um trabalho mais apurado, dessa componente cénica preexistente na interpretação. E com isso criamos um híbrido, que ainda não é teatro mas que já não é só música…

Em traços gerais, o que podemos esperar deste espectáculo? Qual a mensagem que no final pretendem transmitir ao público?

Não pretendemos transmitir qualquer mensagem… Damo-nos por muito satisfeitos se aqueles que conhecem e gostam dos Cantos de Maldoror, ao verem o espectáculo, se tenham sentido transportados sensorialmente para o interior do livro e que os que não o conhecem saiam do espectáculo com a curiosidade desperta e tentados a conhecê-lo.

Inicialmente limitado a poucas datas, encaram a hipótese de estender este espectáculo por um maior número de salas e localidades?

Sim, a ideia é fazer uma itinerância e levar o espectáculo a todo o lado que disponha de uma sala com capacidade técnica para o receber. Já há vários contactos nesse sentido, mas por agora as únicas datas firmes são as de Braga, a 11 e 12 de Maio, e a de Portalegre, a 19 de Maio.

Podemos esperar futuras participações dos Mão Morta neste tipo de espectáculos ou é uma experiência isolada?

Não é uma experiência isolada, até porque já não é a primeira – há dez anos aconteceu outro espectáculo similar que foi o Müller no Hotel Hessischer Hof. Mas pela sua própria natureza, pelos meios que implica, pelo tempo que necessita e pela entrega a que obriga, este tipo de espectáculos só pode ter um carácter esporádico.

Quanto à banda propriamente dita, há já algum novo disco a ser preparado? O que podes adiantar?

O nosso novo disco de originais será este espectáculo, no qual estamos a trabalhar exaustivamente há ano e meio. As apresentações no Theatro Circo vão ser gravadas e filmadas para depois ser feita uma edição em CD e DVD, à imagem do que aconteceu com o Müller no Hotel Hessischer Hof.

sexta-feira, março 09, 2007

em entrevista...ANOMALLY

Terra de estonteante e inquestionável beleza, os Açores são também um verdadeiro viveiro de talentos no que à música de peso diz respeito. Sempre atento ao que se vai passando nesse território insular, foi com satisfação e alguma surpresa que tomei conhecimento dos ANOMALLY, banda que começa a dar os seus primeiros mas seguros passos. O Opuskulo quis conhecer melhor este projecto. Fica o resultado.





Tendo em conta que são um nome desconhecido para a generalidade do público, apresenta-nos os Anomally…

Os Anomally são uma banda de Death Metal melódico com influências góticas proveniente da ilha Terceira que surgiu em 2005.

Editaram recentemente a vossa primeira demo, no entanto sei que a ideia inicial era para que este registo fosse mais para”consumo interno” da banda, certo? O que levou à mudança de estratégia?

Foi à praticamente um ano atrás que editámos a nossa primeira demo. Um trabalho produzido pela própria banda apenas com o intuito de ouvir como estavam a ficar os temas por nós compostos até então. Devido aos fracos recursos possuídos por nós no que diz respeito a equipamento para gravação e claro está, pela falta de experiência neste campo a gravação ficou longe daquilo que pretendíamos a nível de qualidade sonora. No entanto após concluída a gravação e edição dos temas gravados foi de opinião da banda aproveitar aquela gravação para fins promocionais tendo em conta que ninguém nos conhecia e que seria complicado gravar algo melhor do que aquela demo, assim sendo esta seria uma boa aposta para dar a conhecer os Anomally.

Que reacções têm recebido a este trabalho de estreia?

Apesar de termos apostado neste trabalho de estreia para promover a banda, inicialmente não tivemos muita oportunidade para o divulgar. Isso deveu-se ao facto de primeiro querermos captar a atenção do público da nossa ilha e, devido ao facto de não temos ninguém paralelo à banda que nos ajude nesta área torna-se complicado preparar concertos e ao mesmo tempo tratar de toda a divulgação. Felizmente foi possível ainda durante o verão promover um pouco esse nosso trabalho de estreia por outras paragens que não a nossa ilha. As críticas foram sempre muito positivas tanto por parte da imprensa local, onde fomos considerados a melhor revelação de 2006 nos Açores como por parte de rádios continentais onde foi divulgado o nosso trabalho. Temos consciência de que a qualidade sonora deste nosso trabalho está longe daquilo que pretendíamos e é precisamente por este factor que não apostamos em promover ainda mais mas mesmo assim acho que o resultado dessa pequena promoção foi bastante positivo para a banda e é satisfatório ver que todo o trabalho de divulgação foi bem recompensado.

Está já a ser preparado o seu sucessor? O que nos podes adiantar em relação a isso?

É com grande satisfação que posso dizer que material não nos falta para o sucessor. Dentro em breve serão colocados online em www.myspace.com/theanomally três novos temas produzidos mais uma vez pela própria banda, mas apenas com a intenção de mostrar algo novo, mostrar que estamos mais vivos do que nunca. Esta gravação nem será utilizada para divulgação pois prevê-se para o fim do verão entrarmos finalmente em estúdio como já referi. Ainda não posso adiantar nada em concreto nem em relação a datas nem ao estúdio mas tudo indica que em Setembro estaremos de malas e bagagens para o Porto onde iremos gravar 3 temas e ai sim, iremos apostar em grande na divulgação deste novo trabalho pois por aquilo que já ouvimos de gravações do estúdio que pretendemos gravar, tem uma excelente qualidade e tendo um trabalho nas nossas mãos com o nível que em principio ficará já nos sentiremos mais à vontade para o promover sem correr o risco de sermos penalizados devido à qualidade de gravação.


Sendo provenientes dos Açores, julgo que não ficam imunes às mesmas limitações que outras bandas insulares alegam…

Basta ver o facto de termos de ir ao Porto para gravar. Na ilha Terceira o único estúdio profissional que existe a pessoa que está responsável por ele não tem rigorosamente relacionamento nenhum com metal e por isso preferimos nem arriscar pois corríamos o risco de acabar com uma gravação completamente diferente daquilo que pretendíamos. Felizmente já começam a aparecer alguns estúdios em S. Miguel mas mesmo assim continua a ser tão complicado para nós ir gravar a S. Miguel como ir gravar a um estúdio no continente tendo em conta que uma passagem para S. Miguel custa quase tanto como uma para o continente, isso para não falar nos preços que acaba quase por sair mais em conta ir gravar ao continente. No que diz respeito a divulgação acho que muita coisa mudou. A Internet veio dar um grande auxilio quebrando as barreiras que antes existiam, no entanto acho que se pode tornar uma faca de dois gumes pois qualquer pessoa pode gravar seja o que for e colocar online, mesmo que não tenha qualidade absolutamente nenhuma e a meu ver isso pode acabar por prejudicar aqueles que realmente trabalham arduamente com o intuito de algum dia conseguirem o tão desejado contrato. De momento continuo a achar que cá nos Açores há boas bandas mas infelizmente aquilo que vejo é que para além de estarmos um pouco limitados pelo facto de sermos dos Açores também há alguma falta de força de vontade por parte das bandas que parece que continuam à espera que lhes caia tudo do céu.

Concordas se eu disser que uma banda nas vossas condições, oriunda de uma ilha, tem de se esforçar o dobro para alcançar o mesmo que uma banda do continente alcança?

Sem dúvida. Esta questão vem de encontro ao que acabei de exemplificar em relação à gravação de um registo num estúdio profissional. Enquanto que para qualquer banda do continente basta apanhar o comboio ou até tem mesmo a sorte de ter um estúdio na sua terra para poderem gravar, para nós, oriundos dos Açores temos sempre de contar com as passagens que cada vez são mais caras e os apoios são nulos. Mas este é apenas um exemplo, porque quem fala em gravações fala também em actuações, concursos realizados no continente, tudo coisas que para nós se torna impossível participar. De qualquer maneira, não é por isso que desistimos de fazer aquilo que mais gostamos, e talvez por essa razão, nos dê cada vez mais vontade de mostrar aquilo que fazemos a quem nos dê o devido mérito.

No entanto, apesar das dificuldades, os Açores continuam a oferecer um leque interessante de bandas, embora a longevidade das mesmas seja normalmente reduzida…Concordas?

As bandas açorianas têm vindo a mostrar que apesar de estarmos aqui “isolados” temos tanta ou mais capacidade do que algumas bandas provenientes do continente. Infelizmente é uma triste realidade o facto de estas não conseguirem levar avante aquilo que tão bem sabem fazer. Neste momento a banda mais antiga dos Açores são os Morbid Death que contam já com 17 anos de carreira e 4 álbuns já editados. Mas ficaram para trás bandas como Obscenus, Luciferian Dementia, Sanctimoniously, Gnosticism, Gods Sin, tudo bandas que na altura em que estavam activas deram provas de que se tivessem continuado seriam sem dúvida um grande orgulho para todos os metaleiros açorianos. O facto de termos de ir estudar fora da nossa ilha, a falta de motivação devido à falta de concertos, à dificuldade em gravar algo decente, a dificuldade em encontrar os membros certos para as bandas são os principais factores apontados como responsáveis para este problema. Extinguem-se umas surgem outras e a meu ver este ciclo vai manter-se, pois os factores infelizmente tendem em permanecer ao longo destes anos e dificilmente serão ultrapassados. Mas mesmo assim ainda temos alguns exemplos de bandas que contam já com alguns anos de carreira tais como Morbid Death, In Peccatum que já existem desde 1998 mas que infelizmente continuam sem uma boa gravação que os leve mais além pois é uma banda a ter em conta, Enuma Elish que conta já com 12 anos de carreira, Hiffen activos desde 1996, Manifesto formados em 1997. Entre estas encontram-se bandas mais recentes que tenho a certeza que ainda levarão o seu nome e o nome dos Açores bem mais longe do que aquilo que se possa pensar. Nós estamos a trabalhar para isso e espero que não sejamos mais uma banda a ficar na história apenas como a banda que já acabou mas que na altura tinha muito para dar.

Podemos esperar uma visita dos Anomally ao continente para algumas actuações?

Existe uma enorme vontade da nossa parte em actuar no continente, mas como podes imaginar torna-se extremamente complicado para nós suportar todos os custos que acarreta uma actuação fora da nossa ilha. De qualquer maneira estamos dispostos e seria um grande prazer para nós poder actuar no continente. Os objectivos da banda no ano transacto foram praticamente todos realizados, para este ano faz parte dos nossos planos pelo menos uma actuação no continente, uma em S. Miguel e claro está uma gravação em estúdio profissional. Tendo em conta que recentemente foi-nos feita uma proposta por parte de uma agência em que um dos pontos seria organizar alguns concertos no continente pode ser que esse objectivo seja cumprido. No entanto não é nossa politica actuar em determinado sitio sem que antes haja uma acção de divulgação, por essa razão pretendemos primeiro apostar um pouco na divulgação da banda pelo continente pois temos noção de que são poucos os apreciadores de Metal que nos conheçam, no entanto se eventualmente surgir essa oportunidade obviamente não a poderemos recusar, falta só mesmo é alguém que mostre interesse e que apresente uma proposta para que nós actuemos no continente.

Últimas linhas…

Queria agradecer o facto de nos ter sido dada esta oportunidade para apresentar e divulgar uma banda desconhecida pela grande maioria e já agora sugiro que dêem uma vista de olhos no nosso site oficial
www.anomally.com e ainda no site www.myspace.com/theanomally e estejam atentos pois dentro em breve serão colocados novos temas online.

sexta-feira, março 02, 2007

em entrevista...GREEN MACHINE

Da irreverência do rock'n'roll à alma da soul, os portugueses Green Machine afiguram-se como um cocktail explosivo e electrizante que tem em «Themes for the Hidebounds» - o disco editado no final de 2006 - a perfeita materialização. O Opuskulo não quis passar ao lado desta original e interessante proposta e partiu à conversa com a banda.




A pergunta que se impõe: Quem é Sonhouse?

O Sunhouse é um Bluesman dos antiguinhos e que nos influencia desde sempre.

Como estão a correr as coisas com «Themes for the Hidebounds»? Pelo que tenho lido as críticas ao disco têm sido díspares…

Com o disco tem corrido bem, é verdade que temos tido criticas muito diversificadas em relação ao disco, mas mesmo assim estamos contentes com o resultado. E até agora o disco tem dado muitos frutos, isso dá para ver no numero de pessoas que tem aparecido nos concertos.

Apesar de se terem formado em 1999, apenas em 2005 se começou a ouvir falar de Green Machine. O que andaram fazer durante esses anos?

Foi uma banda sem orientação e que andava um bocado perdida, mas com a entrada de dois novos elementos, o baterista (Pedro Oliveira) e o baixista (Ângelo Sousa) a banda teve uma viragem natural, começou a pensar de uma maneira mais séria e mais organizada. Basicamente despertamos por completo para isto.

Do que é composta a vossa sonoridade? Irreverência e energia estão claramente presentes…

Blues, rock’n’roll, garage, soul e musica negra entre muitas outras coisas, todos temos influências completamente diferentes e tudo misturado dá a nossa este resultado final. Nos concertos tentamos transmitir toda a energia da música daí eles sejam um bocado libertinos e irreverentes.

Vão buscar claras influências à música negra. Não deixa de ser uma influência algo estranha a uma banda portuguesa…

Acabamos por ser um bocado reflexo daquilo que conhecemos e que ouvimos independentemente de parecer estranho, é um tipo de sonoridade que nos agrada e que gostamos de fazer. E penso que nos vamos continuar a orientar por esse campos, mas o futuro só ao Sunhouse diz respeito.

Uma questão básica mas que me suscita alguma curiosidade: Porquê Green Machine?

É um nome com fonética simples e que transmite a energia maquinal que os concertos têm adquirido.

Contam já com alguns concertos dados por Espanha. Acham que as fronteiras estão finalmente a abrir-se para a música portuguesa ou parte tudo do trabalho de cada banda?

Não sabemos se as fronteiras se estão a abrir, mas estamos certos de que estamos a abrir as nossas fronteiras, ou pelo menos temos feito por isso. Temos tido algum espírito de sacrifício/aventureiro que nos tem levado a dar alguns concertos fora do país e gostamos da maneira como temos encarado tudo isso e vamos certamente continuar assim.

O movimento alternativo português vive um momento particularmente interessante. Muitas e boas bandas têm por aí aparecido. Concordam? Achas que lá fora já se começa a falar na “cena” portuguesa?

Não sei, sei que pelo menos em Portugal se tem notado uma crescente afirmação das bandas nacionais e, depois de um período de marasmo que foi entre 2000/2005 em que havia poucos locais para se tocar, já se começa a despertar para um nova realidade e a encarar a musica portuguesa como uma mais valia para a nossa cultura. Existem realmente, e a nosso ver, bandas nacionais com tanta ou maior qualidade que aqueles que consideramos os grandes nomes da música mundial, destaco por exemplo os Dead Combo (entre outras).

O que podemos esperar desse lado nos próximos tempos?

Concertos, muitos concertos! E quem sabe um disco no final do ano. Mas sem grandes compromissos.

Últimas palavras…

Apareçam nos concertos, é aí que gostamos de ver as pessoas.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

em entrevista...ANTIMATTER

Senhores de uma discreta mas brilhante carreira, os britânicos ANTIMATTER orgulham-se de ter no seu catálogo discos de uma sensibilidade à flor da pele e de uma melancolia envolvente capaz de arrepiar o mais insensível dos seres humanos. Numa entrevista exclusiva gentilmente cedida ao Opuskulo, um simpático Mick Moss – cérebro da banda – adiantou-nos alguns detalhes relativamente ao quarto disco da banda a editar brevemente e segredou-nos alguns dos seus desejos e dificuldades com que esta excelente banda estranhamente se tem deparado. Em directo e em exclusivo….ANTIMATTER


O que nos podes adiantar acerca do próximo álbum de Antimatter?

Bem, o álbum irá chamar-se «Leaving Éden» e será editado no próximo dia 13 de Abril. Reúne uma série de canções que há muito andavam na minha mente e que se não as realizasse finalmente daria em louco. Sinto-me muito sortudo por poder exprimir os meus sentimentos e ideias através da música e deixar isso registado para sempre. Espero que o possa continuar a fazer por muitos anos.

Em termos de sonoridade segue a mesma linha que o anterior disco ou há mudanças significativas?

Sim, há enormes mudanças relativamente ao último álbum. «Planetary Confinement» foi um trabalho muito agradável de realizar e é um disco que me orgulha imenso. Partiu de uma ideia muito inteligente do Duncan de realizar um disco baseado apenas em sonoridades acústicas, mas na altura de escrever este novo disco resolvi desenvolver ideias muito diferentes sobre aquilo que eu desejaria obter de um novo álbum.

Podemos esperar algumas surpresas, como por exemplo músicos convidados ou algo do género?

O line-up é praticamente o mesmo do álbum anterior. Como convidados temos o Danny de Anathema que contribuiu com algumas partes de guitarra.




Na tua opinião, porque achas que os Antimatter ainda não alcançaram a popularidade de uns Anathema? Acabam por ser uma sonoridade muito semelhante…

Desde a sua génese que os Anathema fizeram imensos concertos e digressões, e isso é muito importante na construção de uma carreira e na constituição de uma sólida base de fãs. Eu também desejo fazer digressões com os Antimatter, mas as coisas não se têm proporcionado dessa forma. Conseguimos apenas fazer algumas digressões esporádicas mas nada que se assemelhe a ter a banda como o nosso emprego a full-time.

Penso que nunca fizeram uma digressão europeia digna desse nome…

Nós tocámos onde e quando achámos que seria indicado. De facto, em 2003 tivemos um ano muito activo em termos de concertos, mas isso não encaixava sequer com aquilo que eu e o Duncan queríamos para a banda na altura, o que nos levou a tocar de forma mais esporádica. Desde que o Duncan saiu da banda que eu tento retomar uma actividade mais regular ao vivo, tenho recebido convites e alguns são mesmo impossíveis de recusar. Já recusámos participar em digressões que nos dariam uma enorme exposição, quer seja por assuntos pessoais, profissionais, etc.. Gostaria de estar numa posição na qual pudesse aceitar todos os convites que nos surgissem.




Há a perspectiva de algum dia vos vermos a tocar em Portugal?

Não te consigo dizer. Tenho feito algumas datas acústicas com o Danny Cavanagh e o Sean Jude…pode ser que consigamos agendar alguma coisa para Portugal…seria óptimo!

A música de Antimatter é especialmente triste e melancólica. Que influências vos assaltam para a obtenção desse resultado?

Penso que só o facto de escrever sobre assuntos muito pessoais acaba por tornar as letras mais emotivas. Muitas situações pessoais acabam por fazer um outro sentido quando as transponho para um verso ou um refrão.

O que podemos esperar dos Antimatter nos próximos meses?

Bem, neste momento estou a preparar um vídeo com trechos das sessões de gravação de «Leaving Éden» para colocar no Youtube. Estou também a reunir esforços no sentido arranjar um line up para me acompanhar ao vivo, o que é sempre algo complicado de se concretizar. Em breve estará também disponível um tema de apresentação do novo disco em www.antimatteronline.com ouwww.myspace.com/antimatterband.

terça-feira, janeiro 30, 2007

em entrevista...GOD

Banda única no panorama de peso nacional ( e porque não internacional) os GOD foram uma das sensações do ano 2006 muito por culpa do seu mais recente EP, «Hell & Heaven». Tendo uma carreira já consolidada no seu país de origem, a Roménia, os irmãos Lăpuşneanu ( cérebros do projecto) rumaram a Portugal e reergueram a banda em terras lusas. Foi sobre este começar de novo e sobre o que os espera para um futuro próximo que partimos para a conversa com Castor, vocalista da banda.
Como estão a correr as coisas com Hell & Heaven? Satisfeitos com as reacções e o resultado final?

Posso dizer com a mão no coração que até agora estamos globalmente satisfeitos com o novo EP Hell & Heaven (claro que há coisas que podiam sair sempre melhor!). Temos recebido um feedback muito positivo com reacções muito boas de todos os que ouviram este trabalho e de vários países, tais como da Roménia, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Grécia, Itália, Espanha, Áustria, Letónia...entre outros. Para todos que ainda não ouviram o nosso EP vou fazer um convite para visitar os próximos links:
www.khaeotica.com/GOD_HellHeaven ( Para ouvir o EP Hell & Heaven na totalidade!!!)
www.god-band.pt.vu (O site oficial da banda)
www.myspace.com/godthehorde (O site da banda no Myspace)
O novo EP GOD – Hell & Heaven pode ser encomendado por e-mail:
mailorder@khaeotica-productions.com ou godro@excite.com

Hell & Heaven reflecte dois pólos opostos. Significa, de certa forma, a multiplicidade de sonoridades que encontramos na vossa música?

Sim, sem duvida. O nome do EP reflecte dois pólos opostos, duas palavras muito usadas, muito fortes e com muito significado. Escolhemos este nome porque queríamos transmitir uma mensagem... o “inferno” pelo qual nós passámos nos últimos anos (mas sem perder a fé, sem parar de lutar e acreditar sempre que com a ajuda dos deuses podemos sair vitoriosos numa nova terra longe da casa, das nossas raízes mas ainda com o sangue dos nossos antepassados nas veias!). Actualmente estamos satisfeitos com a “ressurreição, a vida depois de um longo sonho de morte”!!! Claro que em termos musicais também podemos falar das diversas sonoridades que se encontram no nosso estilo musical, muito melódico e épico alternando com passagens brutais de Death & Black Metal, nuances Góticas e atmosféricas...Todo o nosso som todo é cheio da energia, e da raiva guerreira dos Deuses!!!

Têm uma forte componente Folk na vossa música. Essa influência advém das vossas raízes romenas ou já incorporam alguns elementos das tradições portuguesas?

Sim, os elementos Folk estão bastante presentes na nossa musica e vão ser ainda mais utilizadas para o próximo álbum, Forefathers. Até agora baseavam-se nas nossas origens romenas, mas tentamos pelo menos com letras em português em algumas musicas dar um ambiente lusitano...

Quando chegaram a Portugal traziam já um background enquanto banda iniciada na Roménia. Foi fácil dar continuidade à banda no nosso país?

Sim, desde 1994 quando fizemos os GOD na Romenia passaram muitos anos que marcaram a banda e fizeram da banda (antes de vir para Portugal) um estatuto de “banda cult” (fomos a banda mais popular em termos de concertos e também a banda romena que obteve mais sucesso desde sempre, só atrás dos Negura Bunget!). Esse estatuto acabou por ajudar o nosso início aqui, mas não foi nada fácil. Tivémos de lutar, de acreditar e de ficar firmes em decisões... não sei se podia fazer isso mais uma vez (crescer outra vez quase do nada!) só de pensar em todas as dificuldades que enfrentámos!!!
O crescimento da banda esteve na base da vossa decisão de se fixarem em Portugal?

Com certeza, tudo dependia disso. Queremos lutar e levar a banda o mais longe na cena underground portuguesa!

Comparando a cena romena com a portuguesa, que diferenças mais flagrantes apontas?

Mmm... acho que na Roménia as bandas dispõem de mais apoio do publico, os fans compram os álbuns e t-shirts das bandas, vão a muitos concertos (tivémos festivais onde tocámos com GOD para mais de 1000 pessoas, coisa que aqui não se vê muito!). E o que é mais importante é que lá as bandas recebem dinheiro por cada concerto, depois também descontam os custos do transporte, têm direito a quartos em hotéis, alimentação, bebida...Acaba por ser muito melhor para as bandas, para o publico e para todos que estão envolvidos na cena Metal!

O facto de estarem numa editora alemã poderá abrir-vos algumas portas na Europa. Como estão a correr as coisas a nível da exposição internacional?

Claro, uma editora da Alemanha é uma editora da Alemanha, mesmo sendo uma editora pequena. Lá é que há movimento e lá é que se dá a grande batalha (vamos lembrar os MOONSPELL quando foram assinar na Alemanha!!!)... Até agora tudo está a andar muito bem, com muito boas criticas em revistas, webzines, radios... (foram 300 CDs promos enviados para todo o mundo ate agora!)... O álbum já se vende bem (com distribuidoras na Roménia, Alemanha, Áustria e Suiça) e aqui em Portugal ainda estamos à procura de distribuidores…

Conceptualmente julgo que os vossos temas baseiam-se em contos ancestrais. Estarei certo? Podes elucidar-nos melhor quanto a isso?

O conceito das nossas letras é sobre a mitologia antiga do povo Dacio, “o melhor povo dos Tracios” (como foi descrito por Herodot há mais de 2000 anos atrás). As tradições, a espiritualidade e o folclore dos nossos antepassados vivem na música dos GOD! Por outro lado, trata-se de uma guerra de cada dia que nós tivemos de travar desde que deixámos a nossa terra, as nossas famílias, amigos... somos guerreiros que lutamos há muitos anos e que agora estamos a travar outras batalhas em terras (prometidas?) novas!!!

Em termos de concertos, está alguma coisa planeada para breve? Não é frequente ver os GOD em cartazes. A que se deve essa fraca actividade ao vivo?

No inicio do próximo ano já temos algumas datas (por confirmar) marcadas em clubes como: Freiras Bar, In Live Cafe, ambas na Moita, e algumas aqui no Barreiro... Não sei bem, é possível que os organizadores dos concertos não estejam a apostar em nós (não deves esquecer que não é fácil crescer assim do nada como nos, uma banda desconhecida de um pais longíquo ,etc...)

O que podemos esperar de vós a curto/médio prazo?

Estamos a preparar uma “grande ofensiva” para 2007: uma tour em Portugal por volta dos meses de Março e Abril (juntos com os Opus Draconis) e também já temos marcadas a tour na Roménia em Outubro de 2007 (muitas datas por toda a Roménia que durará duas semanas seguidas e que inclui também uma participação como cabeça de cartaz num grande festival da capital romena, o “Bucharest Metal Nights”!!!)

Últimas palavras…

Tentamos trazer algo de novo para a cena de metal portuguesa (com muito boas bandas, mas um pouco mais limitada quando falamos dos estilos musicais!) na esperança de podermos mudar algumas coisas. Devido ao nosso estilo musical muito próprio e à nossa imagem em palco (cotas de malha que cobrem os nossos corpos, tatuagens que nos cobrem os braços e as pernas e outros acessórios como espadas, um grande martelo de madeira que também serve como suporte para o microfone, escudos, bandeiras pintadas com símbolos bárbaros, cornos por onde nos bebemos o Hydromel ou cerveja, etc.) tentamos melhorar a imagem de Portugal além-fronteiras. “Nao podemos esquecer as tradiçoes, as raizes e o sangue dos nossos antepassados... Fell the Barbarian Spirit!!!”
Contactos:
Webpage: www.god-band.pt.vu
Label: www.khaeotica-productions.com
Promo: www.khaeotica.com/GOD_HellHeaven
MySpace: www.myspace.com/godthehorde
YouTube: www.youtube.com/profile?user=GODband
LastFM: www.last.fm/music/god
E-mail: godthehorde@googlemail.com

terça-feira, janeiro 16, 2007

em entrevista...MANUEL MELO [Sinfonias D'Aço]

Mantendo uma tradição neste espaço em não cingir as entrevistas exclusivamente a bandas, partimos à conversa com Manuel Melo, mentor do programa Sinfonias D'Aço e figura lendária do panorama de peso nacional. Aqui fica o resultado.
Pedia-te que começasses por fazer um breve resumo do trabalho que tens vindo a desenvolver enquanto radialista?

Não tenho memória de quando as coisas começaram, mas terá sido ainda nos anos '70 quando me tornei correspondente técnico de imensas rádios de todo o mundo. Estavamos ainda na altura em que a onda curta assumia um papel importante e o gosto pela rádio vem daí. O gosto pela música é posterior e a união dos dois é ainda mais recente. Atrás do microfone começou tudo em 1986, quando havia um pequeno programa de metal numa rádio local barcelense. Eu e um amigo achávamos que aquilo era fraquito e resolvemos oferecer os nossos serviços emprestando discos para ele meter alguma coisa mais “fresca”. Na verdade, o homem acabou por abandonar a rádio e ficámos nós. Mais tarde eu fiquei só até desistir ainda antes de o governo mandar fechar as rádios locais. Depois do concurso e da atribuição de alvarás, uma das rádios de Barcelos convidou-me para seu colaborador e assim comecei com a versão original do “Sinfonias de Aço”. Desde então, são 17 anos de histórias que podem ser lidas no meu site em http://www.sinfonias.org. Referir aqui tudo seria exaustivo e um convite ao pessoal parar já aqui a leitura da entrevista.

Ao longo destes anos dedicados a divulgar o metal através da rádio, o que achas que mudou pela positiva e pela negativa?

Mudou quase tudo. Começo pelos aspectos positivos. Actualmente os suportes digitais facilitam imenso as coisas. O mp3 e mesmo o CD evitam ter de andar com fitas atrás de nós, que apanhavam pó e se deterioravam, para além de termos de apontar as fitas nos decks. Penso igualmente que ao longo destes anos o metal deixou de ser um estilo maldito e agora já é encarado como um estilo mainstream, não causando de imediato repulsa às pessoas. Mas também há aspectos negativos. O desinteresse pela malta mais nova em fazer este tipo de programas de autor é um deles, aliado ao facto de o público já não ser tão fiel, assim como algum alheamento por parte das bandas. Mas já lá vamos. Pela minha parte, sempre te digo que, apesar de tudo, tenho agora menos condições para fazer rádio do que tinha há 20 anos. Nessa altura, havia dois gira-discos e um deck de cassetes. Depois, para passar publicidade havia dois decks de cassetes. Mais tarde, o formato mais convencional era um gira-discos, um minidisc, um deck de cassetes e dois CD's. Os computadores fui eu que os introduzi nas rádios barcelenses. Uma ideia horrível. Rapidamente as direcções acharam que tinham encontrado as minhas do bacalhau e toca a despedir pessoal e a cortar no equipamento. Os decks de cassetes desapareceram, ficaram os CD's e um minidisc para passar registos nas notícias. Mas agora nem isso. Tenho na minha rádio um reles minidisc, um simples leitor de CD e uma porcaria de um computador a correr em Windows um software de merda chamado Digital RM. Para quem prescinde dos programas de autor e utiliza a base de dados de música que está no computador (2 ou 3 mil músicas, não mais), é um descanso; para quem quer fazer programas de autor, cruzando discos, é impossível. Aliás, nem um gira-discos existe. Resumindo: uma lástima e muito complicado fazer um programa de autor. Mas os programas de autor parecem cada vez mais fósseis no universo da rádio.

Sentes que ainda há interesse e ouvintes em programas temáticos como o Sinfonias d’Aço?

Há interesse, faltam é programas. O António Freitas está atirado para as calendas da noite e nas rádios locais sobrevivem alguns – poucos – D. Quixotes. Os tipos que fazem agora programas já o faziam há 10 ou 15 anos atrás e isso é porque a malta nova está alheada, mas não só por isso. Se repares bem, o pessoal das rádios locais (e aqui falo de todos e não dos que, como eu, fazem programas de autor) tem todo mais de 30 anos. Ou seja, é a mesma malta que fazia rádio quando as coisas começaram. E se reparares mais ainda, são todos iguaizinhos: colocam a voz como os locutores de onda média nos anos '60 e '70, usam as mesmas frases (“estimado ouvinte”, “é um prazer saber que está desse lado”, etc.) estafadas e não evoluiram rigorosamente nada neste tempo todo. Ora, se na altura já não sabiam nada, agora nada sabem. Ou melhor: sabem que não sabem nada de rádio, mas que também não sabem nada de mais nada. Resultado: as rádios locais transformaram-se em fortalezas de gajos de meia idade que fazem rádio para onde encontram feedback: para as donas de casa e para os pimbas. Qualquer projecto exterior é abatido à partida. Esses cromos formataram as rádios locais de tal forma que o auditório ficou estereotipado e o espaço para os programas de autor simplesmente desapareceu. Primeiro porque os mandões não deixam entrar e depois porque eles mesmos argumentam que não há auditório para os outros. E repara que isso é verdade. É verdade porque as rádios foram, como disse, formatadas e só um determinado tipo de auditório as consome. O terreno alternativo foi tornado árido por esta geração de situacionistas parados no tempo, vaidosos, convencidos e muitas vezes arrogantes. Não creio que tenham sido só as novas tecnologias e a expansão da oferta mediática que fez afastar o público mais jovem. Eles simplesmente não tiveram nada para ouvir que não fosse discos pedidos ou Emanueis e desistiram. Mas olha que nas rádios nacionais as coisas não andam melhores. A rádio jovem que mais ouço é a Antena 3 que consegue ter alguns dos melhores profissionais do país a conviver com os mais fracos que se possa imaginar. Há lá pessoal que eu não os queria numa rádio minha a trabalhar de graça. Não vou citar nomes, mas choca-me tamanho desleixo, tamanha incompetência e alguma falta de respeito por quem os ouve. Há até lá uma pessoa que se esquece sistematicamente do que tocou antes. E, bolas, basta olhar para a porcaria da playlist no computador. Mas nem isso. Aliás, quando vi uma dessas “artistas” dizer uma vez no “Cabaret da Coxa” algo como “eu ainda sou do tempo em que se fazia rádio com dois CD's”, está tudo explicado. Esse pessoal gosta é de alapar o cú na cadeira, o computador toca e eles dizem umas frases feitas de vez em quando e até podem dizer qualquer coisa porque as pessoas os adoram e eles são vedetas. E nós pagamos, amigos.

Ponderarias a hipótese de terminar com o programa no seu actual formato e criares uma rádio online?

Não acredito nas rádios on-line. Mas vamos por partes. De certa forma, eu já tenho a rádio online, dado que os meus programas podem ser ouvidos gravados no meu site em www.sinfonias.org. Desde o dia 10 de Junho de 2006 está lá tudo e são 3 horas por semana. Mas desistir da rádio convencional para me dedicar exclusivamente à versão online está fora de hipótese. A rádio sempre foi um meio quente de comunicação e nos últimos anos as pessoas só têm feito asneiras nesta área. É verdade que a rádio perdeu imensos ouvintes nos últimos anos e as explicações são várias. Por exemplo, quando as rádios começaram legalmente a emitir em 1989, havia 2 canais de televisão (RTP 1 e 2) e pouquíssima gente tinha parabólica. Depois abriram as televisões privadas (uma pessegada em termos qualitativos, mas que roubou gente), apareceu a TV Cabo (que levou algum público mais exigente e temático), os telemóveis permitiram um maior e mais imediato contacto (um exemplo: o pessoal deixou de ficar a ouvir rádio na estrada para saber como ficou o Benfica; os mais impacientes começaram a ligar para os amigos e pronto), também eles evoluíram em termos de oferta tecnológica e depois assistimos à massificação da internet e agora à internet móvel, já para não falar nos DVD que assumiram uma componente lúdica também muito importante e os suportes portáteis como os leitores de mp3 e os ipod's. Ora, se a rádio servia para informar onde as televisões falhavam, a rádio tinha agora uma série de concorrentes ferozes. E o que fez a rádio? Hara Kiri. Nem mais. Ou então fez-se explodir com um cinto de bombas e foi a única vítima. A rádio, em vez de apostar numa maior comunicação, mais interactividade, mais intervenção e mais iniciativa, fez rigorosamente o contrário: as direcções acharam que ter um staff alargado era um desperdício e então toca a pôr computadores a fazer rádio. Simplesmente espatifaram tudo, as pessoas recusam-se a ouvir máquinas a meter música que não informam de coisa nenhuma, não apresentam nada e fazem tudo muito certinho. Desapareceu a componente improviso, o ficar “dependurado”, o pânico da “branca” e, como disse, a rádio tornou-se fria, apática, árida de ideias e emoções. A publicidade fugiu e o auditório também e a rádio está agora à beira do desespero porque não soube – e não quis – reagir aos novos desafios, antes achou que ter máquinas a fazer rádio era a nova maravilha do mundo moderno. Mas a rádio esqueceu-se que as pessoas não funcionam assim: as pessoas ouvem rádio para estar informadas e para terem companhia. Uma rádio feita por computadores não comunica com o auditório, que é humano. O ser humano não funciona assim e ponto final. E a verdade é esta: na rádio online isso é ainda mais distante. Um aparelho de rádio é um aparelho vulgaríssimo que se mete ao bolso e se leva para qualquer lado. Eu tenho pessoal a ouvir-me na estrada, no trabalho, em serões a despachar serviço ou a estudar, etc. Mas ter um rádio à mão é coisa simples que se sintoniza com uma escala de FM ou outra. O espectro está ali e quem estiver a emitir pode ser “apanhado” pela sintonia aleatória. Se calhar a maioria do meu auditório não fixo é pessoal que me ouve como ouve os relatos de futebol ou as notícias. É simplesmente auditório de rádio. Numa rádio online já não é assim, pelo menos actualmente. Precisas de equipamento adicional, um computador com ligação à internet e precisas de saber o que vais ouvir. Na verdade, não imagino o pessoal com computadores portáteis a ouvir rádio por aí. E se o pessoal estiver em casa, é muito pouco provável que fique a ouvir rádio pela net com uma vastíssima oferta mediática à disposição. A rádio pela net pode ter o mesmo interesse que teve a onda curta há umas décadas atrás: serve para as pessoas que se encontram longe poderem informar-se do que se passa na sua terra, ou para fazer pesquisas de acontecimentos importantes, etc. Mas ter um computador ligado a ouvir rádio não me parece viável e conheço pouquíssimas pessoas a fazê-lo. Além disso, não me parece que a Internet seja o filão que muita gente afirma. Está rapidamente a tornar-se num monte de entulho e os motores de busca não filtram. Metes uma palavra qualquer e aparecem-te milhares de páginas, a esmagadora maioria com informação redundante ou incorrecta. Li há dias que ensinaram miúdos numa escola a fazer blogs e sites simples e depois foram publicados. A maioria desses sites jamais serão actualizados e, como calculas, vão ser indexados pelos motores de busca que vão apanhar referências à escola, à localidade, aos nomes, etc. Isso é lixo e mais nada. A internet está rapidamente a ficar transformada numa enorme lixeira a céu aberto, cheia de informação redundante e excesso de pormenores cruzados sobre determinados temas. Ora, tão mau como informação escassa, é ter excesso de informação não filtrada.

Recordo-me que os programas dedicados ao metal em rádios regionais há alguns anos atrás eram encarados quase como um culto, um ritual sagrado e uma forma privilegiada de construir os gostos dos ouvintes. Achas que esse sentimento entretanto perdeu-se?

Perdeu-se, em parte, pelos motivos que já aqui deixei. Não foram só os programas de metal, foi toda a rádio de autor e toda a programação inteligente. Agora temos um modelo americano de rádio com playlists, pacotes de promoções e fornadas de porcarias destinadas a massacrar as pessoas com uma atitude consumista. A rádio hoje em dia é pouco mais do que isso. Dantes, para aí há uns 20 ou 25 anos, ouvir o António Sérgio na Rádio Comercial era um prazer. Lembro-me de sair da escola e ir rapidamente para casa para ainda apanhar o “Som da Frente”, onde se ouviam coisas incríveis. Aos Sábados, era dia de “Lança-Chamas” o grande programa de culto de sempre do metal nacional e onde o Freitas deu os primeiros passos. Lembro-me que quando o programa saiu da Rádio Comercial e passou para a Rádio Energia (a verdadeira rádio jovem que Portugal alguma vez teve) eu saía de carro para a praia, pois aí apanhava-se melhor a frequência do Porto. Ia até à beira-mar, relaxava com a paisagem e ouvia o programa no carro. Muita gente fazia isso e coisas semelhantes. Procurava-se não marcar coisas para a tarde de Sábado para não perder o programa, as bandas ensaiavam mais tarde, etc. E há mais exemplos: há dias numa conversa com um amigo e vizinho mais velho do que eu, ele contou-me como ouviu pela primeira vez o “The Wall” dos Pink Floyd. A Rádio Comercial fez a estreia do disco em 1979 e eles foram todos para um velho Toyota no centro da cidade de Barcelos para ouvir o álbum. No fim, ainda ficaram umas horas a discutir o disco. E eu lembro-me também das primeiras visitas a Portugal dos Iron Maiden (em 1984) e do destaque que isso foi (até deu no Telejornal). O Festival de Vilar de Mouros em 1982 foi uma festa. O pessoal foi lá para ver os Echo And The Bunnymen, os Stranglers e outras bandas, mas sabia o que ia ver. Hoje em dia, a malta é apanhada a ir para um festival por uma “reportagem” à Fernando Alvim e ninguém sabe quem vai tocar. Simplesmente porque são muito poucos os que vão ver tocar. O pessoal vai apanhar sol, apanhar umas bebedeiras e dar umas quecas. Depois exibem o bilhete para dizer que estiveram lá, mas quando confrontados com os concertos, ficamos a saber que nem metade viram. Até há pessoal que vai só para a tenda de dança. Enfim...

Falando agora não como radialista mas como fã de metal, como tens visto a evolução do estilo ao longo dos anos?

Os músicos de metal são, regra geral, bons executantes e pessoas com conhecimentos musicais acima da média. O grande problema é que o metal teve uma tendência durante décadas a estagnar em termos criativos e a tornar-se demasiado linear e previsível. Em determinada altura era preciso que uma banda desse um safanão na monotonia e acrescentasse algo a um som encalhado. Os AC/DC fizeram-no, as bandas da NWOBHM fizeram-no, os Metallica fizeram-no e um dia desses alguém vai ter de partir tudo em mil pedaços novamente. A grande mais valia, penso eu, foi mesmo o metal ter-se fragmentado, pois isso possibilitou uma maior fusão, um maior electismo e consequentemente uma evolução em termos estéticos e criativos. Mesmo que os Black Sabbath tenham lançado as sementes do doom metal há uns anos, ou os Venom tenham feito o mesmo em relação ao black, a verdade é que a divisão acontece agora. Se por um lado a fragmenteção de um sector já de si pequeno é mau para a cena metálica de um modo geral, a verdade é que tornou o metal mais abrangente e multifacetado. Mas tenho pena de ver o pessoal dividido, isso tenho.

Quanto à cena portuguesa, como tens acompanhado e encarado a sua evolução?

Há 20 anos era quase impossível arranjar um bom estúdio para se gravar uma demo e talvez mais difícil ainda arranjar um local para tocar ou até ensaiar. O público mais metaleiro também se punha a “jeito”, sendo que parecia quase uma condição ir-se a um concerto todo porco. Agora parece que é ao contrário e ainda bem. Também já é perfeitamente normal ver-se pessoas vestidas de qualquer maneira nos concertos, algo que parecia reprovável há uns anos. O metal enquanto estilo e filosofia de vida é definitivamente mais elegante e inteligente do que há 20 anos. O que falta, a meu ver, é paixão, é garra, prazer sentido e partilhado em fazer do metal uma festa. Dantes um concerto era planeado com meses de antecedência quando se sabia que vinha uma banda a Portugal. O excesso de oferta subverteu esse espírito e agora há concertos que se realizam e as pessoas nem sabem ou só sabem depois. Também não são positivas as fissuras abertas dentro da comunidade metálica. Há pessoal que não se contenta em só ouvir metal (o que já de si é negativo) como apenas ouve um ou dois estilos dentro do metal. E, claro, faltam coisas que existiam há anos a agora não. Como as fanzines, por exemplo, os flyers a circular pelo Correio, a informação boca a boca, etc. Faziam-se amizades só porque o gosto do metal era partilhado. O underground metálico evoluiu bastante e deu imensa força ao movimento. Afastado e maltratado pelos media, o metal organizou-se no underground e evoluiu imenso, mas agora isso parece ter-se perdido. Penso que em termos de movimento underground, o punk ou o hip-hop são agora muitíssimo mais bem organizados que o metal, se bem que o hip-hop seja ainda muito vulnerável ao plástico americano e existe por aí uma tremenda confusão de ideias e uma amálgama indefinida, onde todos parecem querer criticar todos sem um rumo, sem um objectivo que seja. Mesmo assim, são dois exemplos que têm actualmente a organização que o metal já teve. Penso que o público de metal se desleixou de uma maneira geral e foi sendo absorvido pelo sistema (o que quer que isso seja). Um aspecto extremamente negativo hoje em dia são algumas atitudes disparatadas – se bem que isoladas – como a profanação de cemitérios. Sinceramente nem acredito que esses tipos sejam verdadeiros fãs de metal. Parecem-me mais miúdos que chegaram agora ao metal e olham para ele como o meu filho olha para um colchão: zona de brincadeira. Chegam, partem tudo, são os maiores e daqui a dois anos voltam para o pastilhão da discoteca. Resumindo: entraram no movimento, foderam-no e depois vão-se embora. Quem permanece e já estava antes é que leva com as consequências de atitudes tão imbecis, mas também é responsável porque se fica a cagar e não denuncia. Podes crer que se eu visse um cromo a profanar um cemitério o denunciava às autoridades. Estou-me nas tintas para a religião, não adoro mortos, mas tenho respeito pela memória daqueles que ali se encontram depositados. Se aquilo está ali, então deixe-se estar quieto que não incomoda ninguém. Além disso, se queremos ser respeitados, temos primeiro de saber respeitar os outros. Muito gostava eu de ver esses pindéricos um dia quando lhes morrer o pai: berram como bois desmamados. Situações destas, de rebeldes que rapidamente se transformam em engomadinhos, vejo-as todos os dias. Isso não é ser metálico, é ser puto mimado. Vejo também o pessoal muito crítico pela falta de espaços para tocar. Mas, verdade seja dita, já assisti a concertos em determinados locais que me deixaram muito triste e se eu fosse proprietário, jamais voltaria a organizar concertos de metal. Não é preciso andar aos pontapés a tudo e a partir tudo para se desfrutar de um concerto de metal. Mas eu já vi isso acontecer e já vi casas a fechar as portas ao metal. Quem tudo quer, tudo perde e é muito bem feito. Para pessoal mal comportado é assim mesmo. Depois queixa-se que não há sítios, não há concertos, etc. Alguns parecem Madalenas a lamentar-se; mas a verdade é que quando têm uma oportunidade portam-se mal e dão cabo do movimento todo. Vá lá um gajo perceber esta tropa.

Como editor de um blog sinto algum desinteresse por parte das bandas, especialmente nacionais, em colaborar com este tipo de projectos. Passa-se o mesmo em relação ao teu programa?

Passa-se, claro. O pessoal dantes gravava uma demo e corria a entregá-la aos programas. Agora quando gravam uma demo parece que ligam pouco aos programas. Eu acho que o pessoal das bandas, como ouve pouca rádio, tem tendência a achar que está tudo estereotipado, que toda a gente pensa e age como eles e por isso acham que mais ninguém ouve rádio. As bandas querem imediatamente saltar para as edições e parece que já nem se preocupam muito em passar na rádio. É uma asneira porque se não passarem na rádio, mesmo que editem, ninguém os vai comprar porque ninguém os conhece. Depois, assistimos ao oásis falso que é a Internet. Primeiro, as bandas faziam uns sites melhores ou piores e isso foi importante. Mais tarde, surgiu o boom dos blogs e toda a gente desatou a fazer blogs porque era mais fácil fazê-los e geri-los do que um site. Por fim, o pessoal parece que chegou à Terra Prometida e toda a gente acha que o Myspace (e também o YouTube) é a galinha dos ovos de ouro. Mas atenção: TODA a gente acha isso. Resultado: excesso de bandas, excesso de oferta, uma tremenda algazarra e não tarda nada temos uma confusão tão grande que ninguém ouve nada, nem vê nada, nem lê coisa nenhuma. Os pinguins distinguem as crias em colónias de dezenas de milhar de indivíduos, mas nós não. Fiz-me entender?

Desde há muito se tem falado na hipótese de criar uma rádio com cobertura nacional inteiramente dedicada ao metal. O que achas dessa ideia? Não passará de mera utopia?

Bem, tenho andado distraído, porque nunca ouvi falar nisso. Mas, essa cobertura nacional é a mesma que algumas rádios proclamam porque têm um emissor no Porto e outro em Lisboa? Como se o país fosse só Porto e Lisboa? Se é isso, não é cobertura nacional nenhuma; agora se é uma rede nacional de emissores a cobrir o território nacional, isso é simplesmente hilariante. Quem quiser sonhar que o faça, porque a minha mãe também acredita piamente na Senhora de Fátima e vai para a cova com a convicção que 3 putos analfabetos viram mesmo a senhora em cima da árvore e o Sol dançou, blá blá blá. Acreditar que é possível ter-se uma rádio com cobertura nacional dedicada ao heavy metal parece-me, desculpa-me, menos provável que as aparições de Fátima. Para já, mesmo que alguém tivesse dinheiro para tal empreitada, as frequências de rádio são atribuídas pelo Estado e não são atribuídas novas frequências só porque alguém as solicita. As coisas não funcionam assim. Mas, imaginemos que funcionavam. Consegues pensar sequer no que é a manutenção de uma rede nacional de emissores? Os meios técnicos que isso envolve? A quantidade de técnicos que precisas de ter? A quantidade de viaturas? E onde colocarias os emissores? Junto de centros emissores, certamente, mas consegues imaginar o que seria obter licenciamento e colaborações do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e Câmaras Municipais? E depois, como seria possível sustentar toda esta máquina? Com publicidade da Nuclear Blast ou da Century Media? Sim, porque não imagino o Pingo Doce ou lixívia Blanka a publicitar numa rádio dessas. Não, de todo. E quem iria ouvir? A comunidade metálica nacional? Quantos são ao todo? Tu arriscavas – se tivesses dinheiro – emitir para um universo potencial de, digamos, 30 mil pessoas (e estou a exagerar, claro). Se tiveres 20% a ouvir, terias 6000 ouvintes. Uma rede nacional a emitir para 6000 pessoas? Sem publicidade? Eu não o faria nem que me saísse o jackpot do Euromilhões. Esta hipótese é de tal forma utópica que podemos falar abertamente nela; mas jamais será realidade.

Ao longo de todos estes anos suponho que houve situações que te marcaram na tua experiência enquanto radialista. Podes contar-nos as mais marcantes?

No que à música diz respeito, algumas coberturas de festivais nacionais trazem-me à memória boas recordações, assim como o famoso boom das bandas barcelenses (ao qual eu estive orgulhosamente associado), entre elas os Oratory e a sua ascensão no mercado internacional. Recordo também as primeiras investidas e a conquista dos Moonspell desse merecido lugar na cena mundial. Há imensas coisas mais pequenas, como o “Sinfonias de Aço” ter-se tornado no centro musical de Barcelos e onde o pessoal comparecia antes de ir para os ensaios e onde se marcavam encontros. São desse tempo também as visitas frequentes desses rapazes maravilhosos que são os irmãos Veiga, de Barroselas, organizadores desse extraordinário festival anual. Mas o que mais me marcou está completamente fora do metal e mesmo da música e passou-se em 1997. Eu era activista da Greenpeace e nessa altura eles decidiram enviar um barco à Antárctida para, em colaboração com universidades e organismos das Nações Unidas, estudar o degelo das calotes polares austrais. O barco, antes de rumar ao sul, precisou de trabalhos de manutenção e os estaleiros escolhidos foram os da Lisnave. Aproveitando a passagem pelo nosso país, decidiram fazer uma visita de cortesia, pensando sobretudo nos 500 associados portugueses. O objectivo era mesmo “low profile”, mas eu não fui nisso. Conhecendo a capacidade mobilizadora dos portugueses (e a sua curiosidade), decidi começar a divulgar esta visita junto da comunicação social, uma vez que se tratava da primeira visita da Greenpeace a Portugal. Dias antes do barco chegar a Leixões, começou toda a gente a telefonar-me, quase 24 horas por dia. Quando vi os jornais a solicitar mais informações, as rádios a fazer-me entrevistas e as televisões a marcar reportagens, achei que isso ia ser um sucesso. E foi, de facto. No primeiro dia em Leixões todo o merchandising voou literalmente e foi preciso mandar vir mais com urgência da Holanda. Alturas houve em que o barco, um quebra gelos de nome “Arctic Sunrise”, chegou a ter centenas de pessoas lá dentro. Foi emocionante, ao ponto de o comandante me ter convidado a mim e a outros colegas portugueses a embarcar com eles de Leixões para Lisboa. Foram 16 horas de viagem, com o mar agitado, muitos enjoos, mas uma viagem belíssima (até apareceram golfinhos). As televisões estiveram todas a bordo, todos os jornais nacionais fizeram peças e as rádios nacionais também marcaram presença com reportagem no barco. As únicas rádios nacionais que ignoraram completamente o acontecimento foram mesmo as do grupo Renascença, o que não me surpreendeu nada. Depois disso, sei que se formou um grupo de trabalho da Greenpeace em Abrantes e eu contactei-os por várias vezes, mas nunca me responderam. Virei-lhes as costas. Se querem protagonismo à custa da Greenpeace não será com a minha ajuda que o terão.

Quanto a discos que te tenham passado pelas mãos e que jamais esqueceste, quais eleges ?

A nível nacional, preferia não me pronunciar. A nível internacional, marcaram-me – porque eu já sou velho – as velhas coisas de Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin e as coisas que se lhes seguiram. E aqui não são discos, mas são bandas: Thin Lizzy, Judas Priest, Van Halen, Whitesnake, Rainbow, etc. (são muitas centenas de bandas, algumas mais fraquinhas mas que eu ouvia com prazer...) Mais tarde, “The Number of The Beast” dos Iron Maiden, “Walls Of Jericho” dos Helloween, “At War With Satan” dos Venom, “Melissa” dos Mercyful Fate, “Ride The Lightning” dos Metallica, “Peace Sells” dos Megadeth, “The Mind Is A Terrible Thing To Taste” dos Ministry, “Wildhoney” dos Tiamat, “Chaos AD” dos Sepultura, “Turn Loose The Swans” dos My Dying Bride (e outros que se lhes seguiram), “The End Complete” dos Obituary, “World Circus” dos Toxik e... nunca mais daqui saímos. Se te responder amanhã a lista é seguramente diferente. São dezenas deles, sempre acompanhei a cena bem de perto e até aos dias de hoje. Continuo a ouvir imenso metal de todos os estilos. Até porque... para mim só existem dois estilos de música: a boa e a má. Por isso eu tanto ouço a Björk como os Entombed, da mesma forma que ouço Tindersticks ou Massive Attack e passo para Nightwish ou Immortal e depois para jazz ou até música electrónica. Toda a música me agrada, desde que seja boa, bem tocada e feita com paixão e entusiasmo. Se assim for, é perfeitamente possível apanhar-me no Hard Club a ver Cradle Of Filth e poucos dias depois no Coliseu a ver Sigur Rós. Não sou esquisito, mesmo que isso cause estranheza aos outros, o que para mim é um problema deles e um prazer meu.

Actualmente o que te tem chamado mais a atenção dentro do panorama musical?

A música continua a evoluir bastante, mas a oferta de produtos comerciais é demasiado agressiva. A mim choca-me estes destaques nos Telejornais às Britneys e às Spices, ao mesmo tempo que se ignora uma banda como Moonspell, que leva o nome deste país longe. Mas as coisas ficaram assim, frias, previsíveis, sem emoção e sem prazer. Acabou o Sol Música e ficaram os outros canais com programinhas parvos e apresentadores que não devem ter a noção do ridículo. Quando eu digo que a música evoluiu refiro-me aos corredores fora do mainstream, nomeadamente as bandas menos conhecidas e as labels independentes. Aí, acho que o grau de exigência se mantém. Fora isso, soa tudo muito a MTV. Mas, se reparares bem, as coisas nesse aspecto não são muito diferentes do que eram há uns anos atrás. Dantes os putos ouviam os Ministars (que cantavam versões de temas conhecidos) e agora ouvem as bandas teen, de cujos nomes nem me lembro. Isso só serve para fazer gastar dinheiro aos pais, porque não vai marcar ninguém, como as coisas pirosas dos anos '70 não marcaram ninguém da minha idade. Por favor, quem é que ouve agora os Village People ou os Boney M? Os Nirvana, os U2, os Metallica, os Sepultura, os Sex Pistols ou os Kraftwerk (bela salada, hein?) serão sempre bandas de culto. E, no essencial, as coisas não são muito diferentes do que eram há uns anos atrás. O que mais me agrada é que algumas barreiras foram quebradas. As bandas de metal tocam com orquestras, os músicos de metal tocam com outros projectos (alguns até de música electrónica) e as pessoas não precisam de apenas gostar de um estilo. Esse tempo já lá vai. Música é música e como diz o povo, “os cães ladram e a caravana passa”. As coisas que têm muita exposição são planeadas para cansar e serem substituídas por outras, por isso ninguém se vai lembrar deles no futuro. Mas quem faz as coisas de forma séria fica para sempre. Mas, claro, o tempo também provoca erosão na memória e o que ontem era foleiro, hoje é respeitado. Costuma-se dizer que com o tempo, os políticos, as putas e os edifícios feios ganham notoriedade e respeito. Com a música foleira isso também acontece, mas paciência.

Últimas palavras…

Gostaria apenas de referir que algumas palavras minhas poderão não ser do agrado de algumas pessoas. São palavras minhas, que tenho 42 anos e muitos a ouvir música. Não são opiniões mais correctas do que outras. São simplesmente as minhas opiniões e as pessoas poderão naturalmente discordar. Por aceitar isso e por acreditar na juventude portuguesa, na música portuguesa e no trabalho das bandas nacionais é que eu continuo a manter o “Sinfonias de Aço”. Vou parar quando já não for capaz de continuar ou quando deixar de acreditar. Para já vou em frente. Obrigado pelo tempo dispensado e obrigado ao Ricardo Agostinho pelo convite.

quarta-feira, novembro 29, 2006

em entrevista...CRADLE OF FILTH

Amados por uns, odiados por outros, os Cradle of Filth são já um nome incontornável na história da música extrema. Discos como «The Principle of Evil Made Flesh» e, principalmente, «Dusk…and Her Embrace» são marcos do metal dos anos 90, tendo influenciado dezenas de bandas um pouco por todo o mundo e criado todo um movimento no qual o gótico se entrelaçava com o black metal. Uma fórmula de sucesso que rapidamente afirmou a banda como um dos nomes mais populares e mediáticos da actual cena de peso, e como um ponto de passagem frequente a recém convertidos às maravilhas do metal mais obscuro. Com alguns altos e baixos na sua carreira – passando por inúmeras mudanças de formação, discos menos consensuais e uma experiência pelo mundo das multinacionais - os Cradle of Filth sabem reinventar-se e gerir e continuar uma história que já dura há 15 anos, sendo «Thornography» a mais recente prova disso mesmo. A poucas horas da banda subir ao palco do Paradise Garage em Lisboa, o Opuskulo, em colaboração com o programa de rádio Cessar Fogo, teve o prazer de falar com um simpático Paul Allender, guitarrista e figura incontornável na evolução e continuidade da banda britânica. Aqui fica o resultado…

Começava por te perguntar se estás satisfeito com o resultado de «Thornography»?

Sim, definitivamente. Penso que marca um passo em frente na evolução da banda. É um disco diferente de todos os outros em termos de sonoridade e penso que é o melhor que fizemos desde o «Dusk…and Her Embrace». As reacções, tanto de fãs como da imprensa, têm sido muito boas, o que nos deixa bastante satisfeitos.

Porquê «Thornography» como título? É uma palavra que pode ter várias interpretações, não achas?

Sim, sem dúvida. É um daqueles títulos que não significa nada de muito transcendente. Simplesmente tínhamos uma série de propostas para possíveis títulos do disco e achámos que «Thornography» daria um excelente título. Cabe a cada um interpretar o que quiser desse título, não significa nada em particular…

Nota-se no entanto uma certa conotação erótica neste título…

Sim, totalmente…o aspecto sexual é algo que tem estado sempre relacionado com Cradle of Filth…(risos)


Em termos de sonoridade, penso que este disco pende mais para o heavy metal mais tradicional do que propriamente para o black metal, especialmente em termos de melodia. Concordas?

Concordo totalmente. Este disco revela claramente onde estão as nossas raízes musicais enquanto banda, ou seja, cenas old-school como Iron Maiden, Judas Priest ou Motorhead e toda uma série de bandas thrash dos anos 80. Estas influências estão todas presentes neste disco, mais do que em qualquer outro.

No entanto, julgo que nunca se consideraram uma banda black metal..

Eu penso que nunca fomos uma banda de black metal, somos sim uma banda de metal extremo. Nós nunca soámos como Burzum, Dimmu Borgir e todas as bandas realmente black metal, nós sempre tivemos um som muito próprio ao qual apenas gostamos de chamar heavy metal com uma forte presença de teclados, blastbeats e riffs muito acessíveis e melódicos.


A voz do Dani Filth surge igualmente mais melódica neste disco. Isso foi fruto de uma evolução natural ou uma opção ponderada?

Penso que foi uma evolução natural. Nós sempre usámos a voz do Dani como mais um instrumento, e tendo em conta que a nossa sonoridade sofreu algumas alterações neste disco, a voz também sofreu algumas adaptações naturais que resultaram muito bem…


E mais dinâmicas…

Sim, sem dúvida…!

O teu trabalho de guitarra está igualmente mais melódico e dinâmico. Nota-se por aqui a influência de Iron Maiden…

Sim, assumidamente. Eu sempre gostei de guitarras mais melódicas e sempre criei muitas composições nesse sentido, simplesmente quando chegava a altura de aplicar esse trabalho a Cradle of Filth achava que não encaixava na sonoridade da banda e tinha de compor alguns riffs mais rápidos e brutais. Mas desta vez pensei: “Que se foda! Eu quero tocar cenas mais melódicas e é isso que eu vou fazer.” Podes encontrar neste disco harmonias muito influenciadas em Maiden e deixou-me bastante satisfeito o facto de recuperar essa influência e introduzi-la na sonoridade Cradle of Filth.

Sim…penso que este disco tem melodias que ficam mais facilmente na memória do ouvinte..

Sem dúvida, esse é um dos objectivos, ou seja, que as pessoas memorizem mais facilmente as nossas melodias e as possam entoar nos concertos.

Contam com a participação do Vile Vallo (Him) neste disco. Como se deu essa colaboração?

Na verdade foi ele que veio ter connosco e demonstrou vontade em participar num tema. Nós achámos boa ideia e enviámos-lhe um tema no qual ele poderia aplicar as suas vocalizações da forma que quisesse, no qual ele fosse ele mesmo, sem limitações da nossa parte. Quando nos enviou o resultado final agradou-nos bastante, resultou muito bem…

O baterista Adrian deixou recentemente a banda…o que aconteceu de facto?

Basicamente o que aconteceu foi que ele começou a fazer workshops de bateria, penso que para a Pearl, as quais começaram a ser cada vez mais e mais. Para além disso ele formou uma banda com a sua esposa e uma outra banda para além dessa, sendo que chegámos a um ponto em que lhe tivemos de perguntar: “ o que queres fazer realmente? Cradle of Filth ou essas outras coisas?”. E ele fez a sua escolha… (risos).

Têm já um substituto oficial para ele ?

Sim, temos o Martin, um excelente baterista da República Checa. Ele é mesmo um baterista fabuloso e ainda é novo, julgo que tem 25 anos, e é de facto fenomenal…aliás, vais constatar isso esta noite…(risos).

Como estão a correr as coisas com a Roadrunner? A vossa experiência com a Sony foi muito curta. Achas que editoras mais generalistas não conseguem promover uma banda de metal convenientemente?

O que aconteceu com a Sony foi que na altura que assinámos por eles, todas as editoras multinacionais estavam, por qualquer razão estranha, a assinar bandas associadas ao black metal. Nós nem sequer nos consideramos uma banda black metal mas pensámos, que se lixe, vamos experimentar. O «Damnation…» foi editado e o que se passou foi que eles não sabiam o que haveriam de fazer com o disco. Não sabiam promover-nos, não sabiam onde nos promover, não sabiam onde disponibilizar o disco, não sabiam que lojas vendiam este som, nem que revistas o promoviam…basicamente não sabiam nada! Após essa experiência, sentámo-nos, falámos entre nós e concluímos que não poderíamos continuar a trabalhar com a Sony pois isso iria arruinar a banda. Eles ainda nos abordaram para continuar, mas dissemos que a decisão era irreversível, que eles não fazem ideia do que é promover uma banda de metal. Acabaram por aceitar e deixaram-nos ir à nossa vida….

Defendes então bandas de metal em editoras de metal?

Sim, sem dúvida. A Roadrunner abordou-nos e as coisas estão a correr muito bem com eles.

Sei que fizeram algumas datas no Reino Unido com os lendários Sabbat na abertura. Parece que estão a querer mostrar aos vossos fãs mais novos que o metal não surgiu agora e que há clássicos fantásticos para descobrir…

Sim, absolutamente. Foi também por essa razão que fizemos um disco como o «Thornography». Há toda uma nova geração de miúdos que pensa que uma banda de heavy metal são os Trivium. Eu não penso o mesmo. Apesar de os conhecermos e respeitarmos, acho que o disco dos Trivium é um rip-off descarado de Metallica. O que eles fizeram foi pegar no que os Metallica fizeram na década de 80, dar-lhe uma nova roupagem e vender isso aos putos como se tivessem inventado alguma coisa. A maioria dos putos acredita nisso e nós achámos que isso é totalmente errado. Foi por isso que tivemos os Sabbat a tocar connosco, para dizer aos putos “vá lá, acordem!”. Quisemos mostrar as raízes dos Cradle of Filth, quisemos mostrar que os Metallica não começaram quando os Trivium começaram. Os próprios Metallica ou Megadeth não iniciaram nada, já havia coisas para trás. Queremos que os putos saibam que o metal já existe há muitos anos, não começou com os Trivium… (risos)

Eu penso que essa consciência já se está a formar. Vejo míudos de 14 ou 15 anos a comprar discos de Maiden e de Metallica…

Sim, concordo. É bom que esses míudos ponham a mão na consciência. Quando eu ouvi o último disco dos Trivium só pensei: “mas que merda de rip-off descarado”! (risos)

O que achas da vossa nomeação para um Grammy nos EUA ?

Foi fantástico. Tivemos alguns fãs que nos arrasaram com críticas por termos sido nomeados, o que não deixa de ser engraçado, uma vez que foram esses mesmos fãs que, ao comprarem o disco, fizeram com que fossemos nomeados (risos). Foram eles que nos puseram lá, não fomos nós que pedimos. Nunca pensámos que uma coisa destas acontecesse. Quando era puto sonhava em ter uma banda e ser nomeado para algo do género…e agora que aconteceu, custa a acreditar.

Esta é a segunda vez que visitam Portugal este ano. Parece que têm uma relação especial com o nosso país…têm cá imensos fãs…

Sim, ainda me lembro da primeira vez que cá toquei com Cradle of Filth, foi num festival em Penafiel. Lembro-me perfeitamente desse concerto, foi muito bom. Temos também os nossos grandes amigos Moonspell e sim, temos um carinho especial pelos fãs portugueses e adoramos cá voltar.

Penso que é tudo…algo a acrescentar.

Sim, claro. Quero agradecer aos nossos fãs em Portugal o fantástico apoio que nos têm dado e por nos ajudarem a chegar onde estamos hoje. Estamos muito gratos a todos os nossos fãs pela sua dedicação e esperamos ver-vos nos nossos concertos.

terça-feira, outubro 31, 2006

em entrevista...UNDERNEATH

Por mais transformações ocorridas no seio underground português, o movimento death metal manteve-se sempre como um dos mais coesos, prolíferos e intemporais. A prová-lo está o continuo surgimento de novas e interessantes dentro do género a cada ano que passa. Os Underneath não são propriamente novatos nestas andanças mas só agora começam a ver o seu nome circular de boca em boca. «By Flesh», a ultima demo do colectivo de Tomar, muito contribuiu para isso, assim como as demolidoras descargas de brutal death metal que a banda tem espalhado por diversos palcos. O Opuskulo quis conhecer melhor esta banda e falou com o guitarrista Sérgio Garraio.



Apresenta-nos os Underneath…

Os Underneath são um grupo de amigos que se juntam para tocar música extrema, essencialmente é isso. Para quem não nos conhece, esta aventura começou em Outubro de 2001. Na altura a banda era só formada por mim na voz, pelo Telmo na guitarra, pelo Ricardo Neto na bateria e pelo Ricardo Ferreira no baixo. Passado um ano decidimos gravar um promo-cd para dar a conhecer a banda, depois disso foi o habitual, enviar o material para rádios, zines, etc etc etc. Em 2004 entrou o Miguel Fonseca para a voz e eu passei para a guitarra, passado algum tempo decidimos gravar novamente, como deves ter reparado existem diferenças entre os 2 trabalhos e era isso que queríamos demonstrar com o “By Flesh”, apesar da qualidade não ser grande coisa acho que ,tendo em conta os nossos objectivos, serviu bastante bem.

O vosso último trabalho, «By Flesh», já foi editado há algum tempo. Há já alguma coisa a ser preparada para o suceder?

Apesar do “By Flesh” ser de 2005 ele só veio cá para fora este ano devido a sucessivos atrasos da parte da gráfica e se nós não temos decidido avançar provavelmente ainda estaríamos a espera. O que queríamos era mostrar banda com a nova formação, por isso não demos muito valor ao aspecto gráfico, afinal o que interessa é o que lá está dentro. Falando sobre material novo, só estamos a espera da decisão da editora, foi tudo feito durante este ano e se tudo correr bem vai ser o nosso albúm de estreia, não quero estar a adiantar muito mais para não dar galo, só vou dizer que não é nacional.

Como foram as reacções a «By Flesh»?

Acho que os nossos objectivos foram alcançados. Como já disse a ideia era dar a conhecer os novos Underneath e o pessoal percebeu isso, deu para perceber que a alteração no line-up só veio beneficiar a banda.

Achas que o facto de serem de Tomar, uma cidade mais periférica em relação aos grandes centros urbanos, vos poderá condicionar de alguma forma?

Sem dúvida. Quando começámos a distribuir o nosso material as primeiras distribuidoras a falar connosco foram estrangeiras e só depois apareceram as nacionais.Isto pode ter evoluído muito em certos aspectos mas noutros continua a mesma coisa de sempre, mas não nos queixamos. Felizmente existe muito pessoal a provar que fora dos grandes centros também se fazem grandes coisas e não falo só de bandas, pessoal com tu são bons exemplos disso e fazem-no por amor à camisola. Infelizmente continua a haver muito poser espalhado por este país fora.

A nível de concertos dá-me a sensação que os Underneath começam finalmente a surgir com mais assiduidade em cartazes. Estarei errado?

Mais ou menos, sempre tocámos em festivais, uns mais conhecidos outros menos, o que aconteceu é que nem sempre as pessoas se preocuparam em divulgar os eventos e isso acaba sempre por prejudicar quer os próprios eventos como também as bandas. Dizes que finalmente começamos a aparecer nos cartazes, acho bem que sim, depois de tanto dinheiro gasto a enviar cd’s já estava na altura de começarem a reparar em nós, infelizmente ou felizmente continuamos a não querer boleias de ninguém.

O movimento Brutal Death Metal, Grindcore e afins parece estar a crescer substancialmente em Portugal, não achas ? Ou já conheceu melhores dias?

Ao contrário do que muito gente tenta mostrar o death e o grind sempre tiveram em grande o problema é que o pessoal sempre gostou muito de ir atrás das modas. Se reparares a maioria das bandas de death e grind que andam por ai já o fazem há uns anitos. Talvez o problema tenho sido o facto do pessoal preferir organizar concertos de determinados estilos por, como te disse, estarem na moda logo trazerem mais pessoal.

O que pensas de espaços como o Myspace ou o Itunes para a divulgação e aquisição de bandas e discos? Sentes alguma nostalgia em relação ao tempo em que tudo era mais difícil?

Excelente, acho que esse tipo de cenas veio ajudar em muito o pessoal, mas como em tudo há coisas boas e coisas más. Hoje em dia um gajo com um pc e net consegue fazer o que quiser e esse é que é o problema, deixou de haver aquele espírito de sacrifício que dantes havia. Tu até podes ter um som de merda mas como toda a gente ouve falar de ti já és muito bom.

Por onde passam os vossos objectivos a curto/médio prazo?

Continuar a trabalhar como sempre temos feito e esperar pela resposta da editora. Em função disso logo vemos o que vai acontecer.

Últimas palavras…

Queria desde já agradecer a todo o pessoal que há por este país fora que como tu tem zines, distros etc etc e que continuam a fazer tudo só por amor á camisola. Obrigadão pessoal! Para terminar quero deixar aqui um apelo ao pessoal, apareçam nos eventos e apoiem o metal nacional.

segunda-feira, outubro 23, 2006

em entrevista...PORTUGAL UNDERGROUND

Porque nem só de bandas vive o nosso underground, o Opuskulo quis conhecer melhor um projecto que merece todo o nosso louvor. Trata-se do Portugal Underground, um espaço no qual se colocam à disposição para download gratuito demos de bandas nacionais (algumas verdadeiros clássicos e raridades), promovendo um acesso mais fácil e rápido a registos nem sempre simples de obter. Um projecto de fãs para fãs sobre o qual falámos com o seu mentor, Paulo Silva.
Apresenta-nos o projecto Portugal Underground… quais os seus objectivos?

O site Portugal Underground (PU) tem como principal objectivo, dar a conhecer e divulgar o que se fez, e vai fazendo, em Portugal em termos de metal. O objectivo inicial seria disponibilizar apenas demos das décadas de 80 e 90, mas as coisas não se proporcionaram dessa maneira, de modo que agora basicamente é um site de divulgação de registos de qualquer banda ou projecto que queira ser divulgado no site através de downloads gratuitos.

O trabalho que fazes é apenas e só pelo amor à camisola e ao gosto em partilhar um pouco da história do nosso underground, sem qualquer interesse adicional. Acho que isso é de louvar…

Sim, é apenas por amor à camisola e é tudo feito por mim... Desde os contactos das bandas, pois cerca de 50% das bandas que estão no site sou eu que lhes peço a autorização e tenho de “andar atrás delas”, até rever os links que já expiraram no site e que é necessário repor, entre outras coisas... É um processo que me consome muito tempo, mas penso que no final compensa. Felizmente que agora as bandas já entram em contacto comigo a propor para as divulgar no PU e isso acelera, e de que maneira as coisas, uma vez que o meu tempo disponível também não é assim tanto.


De que forma as bandas podem ver os seus trabalhos disponibilizados no Portugal Underground?

É tão simples quanto enviar-me um e-mail (x_acto69@hotmail.com). Depois é só aguardar…

Falando um pouco de fã para fã, qual a tua demo preferida de todos os tempos, que te tenha marcado pela positiva?

Como deves calcular é muito difícil destacar uma em particular. Mas posso-te dizer que as demos dos Sarcastic Angel “Haunting The Prayers”, Dinosaur “Demo-Tape 91”, WC Noise “You’d Better Shut Up!”ou The Temple “Demo-Tape 1994”, entre muitas outras me marcaram bastante.

E qual a demo que consideres que tenha sido absolutamente revolucionária na época em que foi editada?

Pessoalmente, e talvez por ter sido na altura que comecei a ouvir Metal nacional, será a “Last Seeds Of Mind” dos Procyon.

Suponho que como qualquer coleccionador te continuem a faltar sempre demos na tua colecção. Quais as que mais ambicionas obter?

Gostava bastante de ter a “Promo Tape 1992” dos Dinosaur, a demo “Ticket To Hell” dos Harum, a “Promo’ 93” dos Lakrau a demo "Raising Fear" dos Raising Fear a “Demo’ 9”2 dos Shrine e a “Demo 1992” dos Silent Scream. Coisa pouca, portanto…

E quais são aquelas de que mais te orgulhas ter na tua colecção como trabalhos valiosos hoje em dia?

A Colectânea The Birth Of A Tragedy em vinil dulplo, os primeiros EP’s, em vinil também, de Sacred Sin e Decayed e as primeiras demos, originais, de Moonspell, The Temple e Sacred Sin.

Qual o teu formato favorito para uma demo, cassete ou CD?

Por motivos nostálgicos a cassete, mas o CD tenho de reconhecer que é muito mais prático.

Pessoalmente sinto alguma nostalgia em relação ao tempo em que as demos eram simples cassetes muito na lógica DIY. Que recordações guardas desse tempo?

As melhores possíveis! Era tudo mais difícil… Sobretudo para as bandas conseguirem gravar, talvez por isso os registos dessa altura soarem quase sempre muito honestos. Actualmente é muito mais fácil gravar com os computadores e com todas as novidades que vão aparecendo, o que retira alguma “magia” à coisa… Pelo menos para mim! Sempre gostei bastante dessa atitude DIY, aliás o PU é, para mim, um bom exemplo disso. Não se pode ficar sempre à espera que as coisas aconteçam sozinhas.

Que objectivos impões para o teu projecto ?

Continuar a receber registos para divulgar e arranjar uma alternativa melhor para alojar os ficheiros de música.