quinta-feira, setembro 11, 2008

em entrevista...BURNING SUNSET





Satisfeitos com as reacções que «Bruma» tem vindo a receber? Na generalidade parece-me que tem sido muito bem recebido…

Estamos contentes, sim. Tem sido bem recebido e as críticas têm surgido com um cariz construtivo bastante interessante. Não se têm remetido à ilustração normal de uma crítica, mas têm apontado sempre pormenores a melhorar para um novo passo. O que só significa que a nossa música marca de alguma forma e as pessoas sentem que há potencial para construir algo mais forte no futuro.

Um dos motivos de maior interesse na vossa sonoridade é a inclusão de guitarra portuguesa. Essa é uma componente a explorar futuramente? Prevêem alargar o leque de instrumentos a incluir na vossa sonoridade?

A guitarra portuguesa é algo que tráz um brilho diferente à nossa música. Não é inovador, pois os Thragedium ou os Dwelling já exploraram a sonoridade no meio, mas não com a densidade e a agressividade do death metal como nós procuramos. Sem dúvida que é algo para explorar futuramente, seja experimentalmente ou como um reforço melódico, dado que tem um traço único que pode distinguir qualquer sonoridade portuguesa dos demais. Em relação a outros instrumentos a incluir, esperamos mais tarde colocar, de forma gradual. No início tinhamos só o violino e brincavamos com o cavaquinho, depois entrou a guitarra portuguesa e só um ano mais tarde, o violoncelo. Agora temos várias ideias e pequenos apontamentos, que esperamos ser concretizados, como o saxofone, trompete, voz feminina ou um segundo baixo. Vamos ver para onde nos levam as novas composições.



A vossa sonoridade indicia uma certa “portugalidade” que vos distingue de qualquer outra banda. Têm consciência disso?

Não existe uma consciência presente e premeditada aquando da composição, mas acontecem uma série de factores que provocam e finalizam essa sensação de portugalidade. O mais gritante é a utilização da guitarra portuguesa, que na sua associação directa ao fado, remete-nos para um universo único da alma lusitana. Mas não passa disso, pois não trabalhamos como os Ava Inferi, que instrumentalmente executam as cadências do fado ou os Process of Guilt, que exacerbam o sentido melancólico português com excelência. Nós somos, de certa forma, mais epidérmicos. Temos os instrumentos, como a guitarra, a língua e os temas do fado, (mar, tristeza, angústia), e procuramos dar-lhe uma nova roupagem, novas forma de o utilizar. Não é uma comparação directa, mas um expoente máximo, seria conseguir fazer o mesmo que os Naifa fazem na pop/electrónica, mas com o metal. A portugalidade está, talvez, anunciada, mas ainda não a atingimos.

Que tipo de reacções têm recebido do estrangeiro?

As reacções têm sido bastante entusiastas. Há uma grande curiosidade referente ao idioma e aos instrumentos clássicos. Dada a guitarra portuguesa, que entendem ser algo como uma sítara, somos várias vezes comparados a bandas do Médio Oriente, ou simplesmente, com arranjos árabes, pois não reconhecem o instrumento e é mais fácil colocar a crítica em terrenos que dominam.


Acham que este tipo de bandas que incorporam na sua sonoridade elementos étnicos conseguem mais rapidamente ter uma maior visibilidade?

Isso não se reflecte em nós. Nós procuramos já há algum tempo mostrar o nosso trabalho e temos tido feedback em casos muito pontuais. É muito mais fácil tomar atenção a géneros cimentados, do que a novas bandas que procuram experimentar. Como Fernando Pessoa dizia: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Já trabalham em novos temas? Que linha estão a seguir?

Sim, temos trabalhado novos temas e nos concertos temos apresentado as músicas que não estão incluídos no EP “ Bruma”. Agora vamos parar para descansar uns dos outros e deixar respirar as músicas para voltarmos a compôr sobre aquelas e experimentar novas ideias. A linha a seguir prende-se com a exploração mais orquestral dos instrumentos étnicos, a introdução de momentos mais directos, mais headbang, mas com a procura de manter a toada progressiva bem vincada.

Podemos contar com um próximo trabalho dos Burning Sunset num formato mais profissional e com o apoio de uma editora ou continuarão por vossa conta e risco?

Não temos tido feedback positivo de editoras e isso só prova que temos muito trabalho pela frente. É necessário calo, robustez, experiência e realizar melhores escolhas. Vamos construíndo e vamos trabalhando ao nosso ritmo, tentando completar um novo EP ou um álbum. Nós costumamos dizer que só agora é que estamos prontos para gravar o EP que acabamos de apresentar, o que é absoluta verdade. Este foi um enorme processo de aprendizagem, quer a nível de produção, gravação e promoção. Agora que sabemos algumas regras, vamos aprofundar e esperar que surja a oportunidade de uma editora. Até lá, devagar e sempre, até concluir o novo trabalho.


Quais as maiores dificuldades que têm vindo a encontrar no vosso percurso enquanto banda no sentido de promover e desenvolver o vosso trabalho?

As maiores dificuldade prendem-se com a falta de apoios e de interesses na nossa zona de Aveiro. O provincianismo português, que diz que o que é nacional é pior do que vem de fora, acontece muito por cá, aliado ao elitismo pseudo-artístico, que é comandado pelas revistas que impõem o artista estrangeiro que tem que vir tocar a Aveiro. Não há espaços em Aveiro para tocar metal; tirando o Blindagem Metal Show (programa de rádio) que nos apoia, não há elementos da nossa cidade que se interesse. E é aí a dificuldade, é taco-a-taco que temos de sair da toca, para o resto do país. Depois é complicado fazer valer a edição de autor. Enquanto que nós entendemos que quem faz uma edição de autor, tem capacidade, valor e coragem para trabalhar, há quem veja a edição de autor como uma não capacidade para estar numa editora, logo falta de qualidade. É uma diferente perspectiva que discrimina logo determinadas bandas / artistas. Isto sob uma perspectiva artistica, pois a nível prático, não temos tido propriamente dificuldades em cumprir os objectivos a que nos propusemos enquanto banda. Temos tocado bastante ao vivo, as pessoas têm correspondido e gostam de nos ver e o EP tem recebido boas reviews.


Últimas palavras

Obrigado à Opuskulo pelo interesse no nosso trabalho. E à possibilidade de o apresentarmos. Ouçam os nossos temas em www.myspace.com/theburningsunset, contactem-nos para burningsunsetpt@hotmail.com e obrigado a quem nos acompanha e nos tem dado força.

sexta-feira, agosto 22, 2008

em entrevista...TODESBONDEN

Apesar de concentrar grande parte da sua atenção no que se vai passando a nível nacional, o Opuskulo abre as suas portas a projectos internacionais que demonstrem vontade em trabalhar conosco. Foi o que aconteceu com os norte-americanos TODESBONDEN, uma banda que tem como figura de proa Laurie Ann Haus, bela e competente vocalista com um passado ligado aos Autumn Tears, Rain Fell Within entre outros nomes marcantes do gothic metal. «Sleep Now, Quiet Forest» marca a estreia do seu novo projecto, um híbrido entre o mais majestoso gothic metal e a envolvência da música folk. Foi este trabalho que serviu de base para uma interessante conversa com esta simpática senhora.


Sendo uma banda desconhecida para a maioria dos nossos leitores, podes explicar-nos melhor as vossas origens?

Todesbonden foi um conceito para um projecto que me surgiu em 1994 após ter ouvido o álbum «Sorrow» dos The 3rd and the Mortal, aliado também a uma série de outras influências, mas que por várias razões só em 2003 consegui pôr essa ideia em prática. Inicialmente era suposto ser um projecto a solo no qual eu iria compor toda a música. No entanto, após ter escrito grande parte do nosso EP de estreia com a ajuda do Jason Aaron e do Patrick Geddes, decidi incorporar mais elementos na banda de forma a conseguir pôr este projecto em palco. Com a incorporação do teclista James Lamb e do baixista Jason Ian-Vaughn Eckert verifiquei que seria bastante proveitoso tê-los a contribuir no processo de composição, sendo o resultado de um esforço conjunto que podem ouvir no nosso álbum de estreia.

O formato ao vivo é então uma parte integrante dos Todesboden?

Sim, já tocámos ao vivo com esta formação. Na realidade essa foi uma das motivações pela qual esta banda foi formada. Despendemos imenso tempo a preparar os nossos concertos, mais até do que os nossos discos. Agora que o álbum foi editado queremos voltar à estrada após dois anos de hiato. Temos um concerto de apresentação do disco marcado para 18 de Outubro.

Todesbonden não é propriamente a típica banda norte-americana. Concordam se eu disser que em termos de sonoridade e influências são muito mais europeus do que norte-americanos?

Essa é uma questão que me tem sido colocada com frequência. Concordo que a nossa sonoridade tem muito de europeu, no entanto, em termos de influências não nos restringimos apenas à Europa, aí assemelhamo-nos muito mais à world music do que a qualquer outra coisa. De facto, não há muito de americano em Todesbonden, no entanto tenho andado a ler algumas coisas sobre a guerra civil americana e possivelmente poderei focar esse aspecto num próximo trabalho.



Sendo assim, quais são as principais influências que marcam este trabalho? Liricamente parece ter uma forte ligação à natureza.

Sim, tens razão. Eu expresso uma grande admiração pela natureza nas minhas letras e costumo recorrer a metáforas relacionadas com a natureza para expressar um determinado sentimento. No entanto este trabalho é muito mais do que isso, ele aborda toda uma série de assuntos que vão desde acontecimentos históricos a sentimentos muito íntimos. Musicalmente continuo a nutrir uma grande paixão pelo doom metal, no entanto nota-se uma forte influência da world music em Todesbonden, mais até do que aquela que inicialmente idealizava para este projecto.

Essa influência da world music de que falas torna-se evidente pela utilização de diversos instrumentos tradicionais e referências étnicas na vossa música. De onde vêem essas influências?
Este é o estilo de música que gosto de ouvir. Adoro música medieval, celta, folk e por aí fora. Sempre desejei fazer parte de uma banda que incorporasse essas influências noutras sonoridades que também ouço, como por exemplo o doom metal. Na realidade eu até gostava que a nossa música fosse ainda mais étnica do que aquilo que é. Mas tendo em conta que são várias pessoas a escrever e a dar opiniões, procuramos chegar a um consenso. Logo se verá para onde irá evoluir a nossa música.



Podemos então esperar um segundo álbum de Todesboden?

Sim, sem dúvida. Já idealizei algumas directrizes para um novo trabalho e pretendo que seja mais étnico, mais poderoso, mais apaixonado. Encontramo-nos já a escrever para um novo disco e o meu objectivo é que aproveitemos apenas o melhor do melhor.

O teu passado está ligado a bandas como Autumn Tears ou Rain Fell Within. Sentes que isso poderá ter uma influência positiva na promoção e visibilidade que Todesbonden poderá receber?

Sim, principalmente a minha relação aos Autumn Tears, já que a minha colaboração com os Rain Fell Within foi muito vaga. O meu nome tornou-se conhecido na cena e isso pode levar as pessoas a sentirem curiosidade sobre o meu novo projecto. No entanto, o meu objectivo com Todesbonden passa por chegar a uma audiência que ainda não me conhece e posso dizer que isso está a ser muito bem conseguido através do excelente trabalho de promoção que a nossa editora está a realizar.

Alguma vez ponderaste mudares-te para a Europa, tendo em conta que a vossa editora é europeia e a vossa sonoridade tem muito mais tradição e visibilidade por cá?

A mudança para a Europa é uma conversa que tenho comigo própria diversas vezes. No entanto, as razões que me levam a considerar essa hipótese não estão relacionadas com a minha carreira musical. A crise económica que se vive nos EUA, aliada a questões políticas e sociais têm vindo a contribuir para me sentir cada vez mais desconfortável neste país. Irei permanecer por aqui mais uns anos para ver qual o caminho que as coisas levarão e tomar uma decisão final. Há outras coisas que me prendem aos EUA, por exemplo a minha família, os meus companheiros na banda, a minha casa, etc. É complicado de um momento para o outro atirares tudo para trás das costas e começares tudo de novo noutro sítio qualquer. Das vezes que já estive na Europa senti-me como uma outsider devido à barreira linguística e, acima de tudo, por ser norte-americana, e esse é um sentimento com o qual eu não sei se conseguiria lidar a longo termo. No entanto, apesar de tudo isso, a mudança para a Europa é uma opção que considero. Não faço ideia se isso seria benéfico para a minha carreira musical.

O que achas da indústria musical norte-americana actualmente? Há por aí mais tesouros como os Todesbonden bem guardados?

Se me fizesses essa questão há seis anos atrás estaria em condições de te dar uma resposta mais concreta. Ao longo dos últimos anos tenho andado menos atenta ao que se vai passando na cena norte-americana, mas pelo que vejo através do nosso myspace há boas bandas nos EUA a praticar gothic metal, embora num registo muito diferente do nosso.


Contacto: http://www.todesbonden.net/

quarta-feira, agosto 13, 2008

em entrevista...KATABATIC

O post-rock instrumental tem vindo a conhecer no nosso país um desenvolvimento assinalável, sendo de realçar as diversas edições que surgiram dentro deste espectro recentemente. «Vago», a estreia dos KATABATIC, foi uma das que causou maior supresa pela qualidade e sensibilidade da sua música. O Opuskulo não quis deixar passar a oportunidade de conhecer melhor esta promissora banda.


Que tal as reacções a «Vago»? Superaram as vossas expectativas?

A partir do momento em que ficou disponível no myspace e também nos concertos, começámos a obter várias reacções e comentários positivos. Um pouco por todo o mundo o EP foi sendo “distribuído” e fomos estabelecendo diversos contactos entre editoras (Japão, Estados Unidos, Alemanha), promotores (Porto, Espanha), bandas e público - foi uma grande ajuda para uns primeiros passos mais consistentes. Podemos dizer que foi um bom suporte para comunicar a nossa primeira experiência de gravação mais a sério. Queríamos mostrar o que fazíamos em estúdio até então, depois de muito tempo de procura por uma sonoridade própria.

A vossa sonoridade pode ser definida como envolvente e contemplativa. Concordam? Quais as principais influências para a criação desta sonoridade?

Sim, concordamos. Grande parte das músicas têm drones e algo de psicadélico na repetição de riffs e criação de ambientes... Percebemos facilmente como esses adjectivos possam descrever a nossa música. É difícil indicar especificamente aquilo que nos influencia na composição das músicas. Acho que as nossas influências acabam por ser uma reunião de várias experiências, aquilo que vemos, ouvimos ou sentimos. Acho também que somos bastante influenciados pelo próprio processo criativo, ou seja, pelo feeling que um riff inicial dita ou pelas ideias de estrutura que sugere.

O pos-rock instrumental no qual se inserem parece estar a conhecer um impressionante reconhecimento nos últimos anos. Os Katabatic são um fruto desse “hype” que se vive em torno do estilo ou a vossa existência e ideais enquanto banda já estavam definidos mesmo antes deste estilo conhecer uma maior divulgação?

Falar em hype é muito subjectivo, porque são os media que utilizam o hype para comercializar, massificar e lucrar com música - só por isso se definem obrigatoriamente “estilos de música”. Pensamos que as bandas ao seguirem esse caminho estão a condenar a sua existência a regras pré-estabelecidas e a dogmas desnecessários e não a fazer música como veículo artístico. Os Katabatic nunca fizeram nada forçado, nunca tivemos de criar para sobreviver ou sustentar “máquinas” comerciais. Fazemos aquilo que gostamos e que na altura nos inspira. Estivemos muito tempo a construir a nossa identidade e fazemo-lo de uma forma descomprometida, o que nos garante definirmos o nosso próprio espaço e espectro sonoro. Não queremos que isto seja entendido como algo pretensioso ou aspiracional, apenas nos divertimos com aquilo que fazemos sem qualquer necessidade de seguirmos um movimento ou hype. O nosso primeiro concerto com esta formação foi em 2003 e nessa altura este movimento era quase inexistente em Portugal. Bandas como os lemur ou bypass, com quem tocámos nesse concerto, são duas das poucas bandas com quem nos conseguiamos associar um pouco estilisticamente há alguns anos atrás.

Em Portugal parece estar a assistir-se a um enorme interesse em torno deste estilo. Prova disso são as várias bandas que têm editado trabalhos nos últimos meses. Como encaram isso?

Para nós é positivo porque eventualmente surgirão também mais oportunidades de concertos e de promoção da banda em geral. É sempre bom saber que há mais pessoas que partilham dos mesmos interesses musicais que nós.



Encaram o trabalho de bandas como Riding Pânico ou Catacombe como concorrência ou como um estimulo à troca de ideias e ao crescimento do estilo?

Conhecemos os Riding Pânico nos Black Seep Studios, onde viemos também a conhecer mais bandas e mais pessoas que partilhavam pontos de vista parecidos com os nossos quanto à forma de sentir e pensar a música. Há muito de familiar naquele local. Quando começámos a ensaiar ali rapidamente nos apercebemos que era um espaço diferente, onde conseguiamos trocar ideias com facilidade e isso é algo que nos estimula bastante para crescer como banda. A nossa relação com os Riding Pânico só pode ser interpretada nesta perspectiva de apoio e amizade. Catacombe conhecemos via myspace e também temos mantido contacto para futuras colaborações. Na verdade acho que nós nem temos muito a dizer sobre o estilo... No nosso ponto de vista é sempre bom estarmos rodeados de pessoas que estão a construir coisas diferentes. Isso dá-nos a oportunidade de assimilar universos distintos e inovadores. Estamos mais interessados em desenvolver a nossa “voz” e em diversos desafios criativos que nem têm de estar necessariamente ligados à música.

Ponderariam a inclusão de um vocalista na vossa sonoridade? Conseguem imaginar como soaria?

Talvez sim, talvez não... O futuro o dirá mas não é algo em que pensemos actualmente. Algumas das nossas músicas têm vocalizações.Conseguimos imaginar como soaria porque já tivemos uma voz feminina na banda. Chegámos a dar um concerto onde tocámos alguns temas instrumentais e outros com voz.

Podemos contar com uma edição dita mais profissional dos Katabatic para breve?

Sim, no entanto não temos ainda uma data definida. É bastante provável que tenhamos novidades ainda este ano, mas podemos adiantar que ainda não será um albúm.

Como encaram o estado actual da música alternativa nacional? Parece que nunca conheceu um momento tão profícuo, na minha opinião. Concordam? Acham que poderão beneficiar deste momento?

A nossa opinião é que a música alternativa nacional tem vindo a melhorar progressivamente e isso é em grande parte um reflexo da qualidade das gravações que se têm feito e também da própria originalidade das várias bandas incluidas neste nicho.Sendo estes dois factores muito importantes e influentes em quem procura ouvir música nova, achamos que também nós podemos beneficiar deste momento.

O que podemos esperar dos Katabatic em breve?

Para além das datas agendadas para Setembro (razão pela qual não podemos deixar de agradecer ao André da Amplificasom que tem feito um esforço enorme para que as coisas aconteçam) pensamos em gravar outra edição com novos temas que temos vindo a desenvolver e que iremos tocar nesses próximos concertos. Talvez menos leve vs pesado e mais dos espaços intermédios.

Últimas palavras…

Temos algumas datas de concertos marcadas - visitem o nosso profile no myspace (myspace.com/katabatic) para saberem os detalhes e apareçam se puderem. Muito obrigado pelo teu interesse e apoio!

segunda-feira, julho 21, 2008

em entrevista...DAWNRIDER

O stoner doom metal português tem um nome: DAWNRIDER. Este é o ano de afirmação de uma banda que tem na persistência e na honestidade as suas melhores armas, sendo «Alpha Chapter» o resultado de árduos anos de trabalho em prol de uma causa digna. F.J. Dias, o carismático vocalista dos Dawnrider e figura emblemática do underground luso acedeu a conversar conosoco.


Após alguns anos de luta no meio underground está finalmente editado o primeiro disco dos Dawnrider. Como se sentem em relação a isso? O esforço compensou?


Sim, claro. Estamos satisfeitos com o disco, foi o nosso cartão de apresentação o ano passado, o disco saiu já quase no fim do ano, em Novembro quando deveria ter saido no inicio do Verão, mas tivemos uma troca de elementos mesmo em cima da gravação, saiu um baixista e entrou outro que já não foi a tempo de aprender os temas para os gravar de imediato por isso o baixo foi gravado por um dos guitarristas, o Conim.
Este primeiro disco acho que é importante no sentido que marca uma lacuna no Metal até agora inexistente em Portugal. Como está a ser recebido «Alpha Chapter»?

Bastante bem, as reviews têm sido todas positivas, esperamos agora que a editora comece a mandar também o disco lá para fora pois somos uma banda que pode ser exportável, embora este disco tenha sido mais dedicado ao publico português, no sentido em que a maioria do pessoal desconhece as bandas que são referência e inspiração para o colectivo, então presenteámo-los com duas covers (Amebix e Buffalo) e um tema dedicado aos pioneiros do Heavy Rock em Portugal, os Beatniks. Escolhemos trabalhar os temas menos Doom primeiro e deixar o material mais denso para o próximo álbum. Um grande impulsionador sem dúvida, têm sido os concertos, o pessoal chega lá e sai com vontade de comprar um álbum. Mas a experiência ao vivo, essa, é impossível de passar para disco.
O disco está a receber alguma exposição a nível internacional? Os vossos planos passam por aí?

Os nossos planos passam definitivamente por aí, agora nós sozinhos não podemos fazer muito, mas contamos com a nossa editora para o fazer. Posso-te dizer que o nosso Split EP de 2005 em vinil, as copias foram quase todas parar lá fora, foi um disco para o underground Doom/Heavy Rock europeu e americano.

Pode dizer-se que os Dawnrider são líderes e praticamente pioneiros de um estilo pouco divulgado em Portugal. Sentem o peso dessa responsabilidade?

Sim, mas não temos medo. O que bandas como os Beatniks e os Xarhanga fizeram nos 70's e o que bandas fizeram nos 80's como Xeque Mate e Vasco da Gama, traduz-se em nós, numa versão mais pesada, actual e mais vasta em influencias com uma identidade muito própria.

Acham que as mentalidades estão cada vez mais a abrir-se a este tipo de sonoridades retro ou permanecerão sempre confinadas a um reduto underground?

Eu vejo este tipo de musica não como retro mas como intemporal. Estou a ouvir o primeiro álbum de Atomic Rooster enquanto estou a responder às tuas perguntas, este álbum data de 1970 e é mais avant-garde Rock que muita merda que sai agora com o tag de "pós-Metal, pós-Doom, pós-isto-e-aquilo". O mercado está inundado de trends, toda a gente se passa agora com bandas que roubam inspiração no Rock alternativo/experimental e trazem essas influencias para o Rock mais extremo.Quando vejo uns Wolfmother na TV ou a tocar em festivais grandes, apercebo-me que esta porcaria do retro chegou ao ridículo de se tornar um trend. Em Inglaterra as revistas curvavam-se perante os The Answer, estas bandas para mim é só merda, copias bem planeadas sem personalidade de Zeppelin e Grand Funk...tirando os supergrupos do passado, que realmente cresciam com suor e trabalho árduo na estrada, desde inícios de 80's que para mim acabaram os supergrupos...desde essa altura que só se pode confiar no underground para se ouvir musica verdadeira. Até um gajo do Black Metal como o Fenriz (dos Darkthrone) cagou na cena que lhe deu dinheiro durante anos a fio e anda agora em Oslo a passar musica em clubes que vai do Hard Psicadelico de 70's, ao Garage Rock de 60's, passando pelo Punk e a NWOBHM, ora querem melhor exemplo que isto? "TRUE MUSIC IS FOREVER!", já dizia o grande Vic Vergeat dos TOAD.

Antes da gravação do disco registaram-se mudanças de formação, nomeadamente a saída do baixista Samuel. De que forma isso influenciou o resultado final do disco e o futuro da banda?

Não foi antes, foi mesmo a meio. O resultado foi que poderíamos ter um registo próprio de um bom baixista, mesmo que seja um bom guitarrista a tocar o baixo nunca é bem a mesma coisa. O registo é mais linear. De imediato arranjámos substituto, o Carlos, que já tinha tocado comigo nos No-Counts DOM, por isso não havia ao cimo da terra melhor pessoa para nos acompanhar nas 4 cordas! Recentemente também o Victor saíu, desta feita ocupando o lugar o André (ex-Shadowsphere, actual Theriomorphic e Wintermoon), que mais uma vez, foi uma substituição perfeita, não poderíamos estar mais contentes, até pelo facto que também o André tocou com o Carlos há uns anos, no inicio de Brainwashed by Amalia, que já agora os menciono como a primeira banda "Stoner Rock" em Portugal...sei que este rótulo é manhoso e o Carlos não gosta, mas é só para não se esquecerem de que se existe uma cena Stoner (revivalista do Hard psicadélico), os B.B.A. eram pioneiros cá. Anda para aí o CD Split deles pelas lojas que eu editei há uns anos, podem-no comprar por 5 ou 7 euritos, aproveitem!

Como seguidor de longa data da evolução do metal e da cena underground em geral no nosso país, como encaras o estado das coisas actualmente?

A evolução é notória mas as mentalidades, enfim, deixam um bocado a desejar. Isto funciona como uma aldeia pequena, ainda bem que os Dawnrider não fomentam telenovelas, as nossas opiniões são frontais, as nossas ideias são bem claras, leiam as letras. A maioria de nós, crescemos nos 90's um pouco fora do que se passava no Metal porque isto é pessoal que não se indentifica com a cena dos 90's, nessa altura alguns de nós andávamos no Punk Rock e no Crust, eu e o Libe somos os mais velhos, já vimos dos anos 80 da cena Metal, mas nessa altura a onda era mais rebelde e crua, era giro, uma loucura teenager, havia muita marginalidade mas ao menos não haviam grandes telenovelas. Já agora devo mencionar que o Punk 90's em Portugal foi uma bela telenovela, os que mandámos para o caralho nessa altura, foram bem mandados.Achas que a Internet e todos os meios à disposição vieram trazer mais vantagens ou desvantagens à cena?Mais vantagens no sentido que agora um puto em um ano passa de Black Metal florestal a super-cromo do Doom ou do Sludge ou retro que o pariu. As pitinhas podem ser super-Punks com o cursinho ali todo no Soulseek. Um gajo que queria ser nerd musical agora tem 5000 álbuns que realmente não existem fisicamente de merda que nunca mais vai ouvir na vida, mas pode nas conversas dizer "eu tenho" , "eu conheço" , "isso é bom" ou "isso tá bué a frente!". Acho que neste pequeno exemplo se notam vantagens e desvantagens não é? No outro dia lia uma entrevista a um ilustrador conhecido onde ele dizia que pelo andar da coisa, qualquer dia deixam de haver cd's e ninguém vai aos concertos porque a net é o lugar onde devemos estar. Aonde foi parar a rebelião pergunto eu? Em casa a toda a hora na net não mudamos nada!! Menção honrosa a um fórum chamado Irmandade Metálica onde os seus maiores participantes são também ávidos consumidores de cds e vinil e vão a montes de concertos, são apoiantes verdadeiros da cena Nacional Metálica, se tens uma banda de Metal adere ao fórum, aqui vais ganhar apoiantes que realmente não são da boca-para-fora. Este colectivo de que me orgulho fazer parte tem feito muito pela cena...um festival, uma compilação (infelizmente virtual), uma fanzine, patches, tshirts...um caso raro de integridade e coração metaleiro.

Actualmente parece que a compra de discos e o coleccionismo é cada vez mais um luxo e um devaneio de melómanos. Como encaras essa situação? Achas que todo aquele espírito que se vivia há anos atrás irá irremediavelmente perder-se?

O problema são as novas gerações e como consciencializá-los. Realmente não sei, conheço putos de 20 anos com uma atitude impecável perante isto tudo mas são uma escassa minoria. De vez em quando surge a modinha do vinil, pessoal que compra uns disquitos e depois param. A minha geração não lanchava na escola para comprar um single passados 3 dias ou sei de gente que nem almoçava na escola para comprar LPs no fim de semana. Este tipo de guerreiros, muitos deles andam aí com 30 e tais em cima (outros até 40's) ainda no Rock pesado a dar cartas, a todos eles, o nosso respeito. Vocês sabem quem são, vocês são a raça, "SHOW 'EM HOW"!!

O que podemos esperar dos Dawnrider a curto/médio prazo? Há já planos para novas edições, concertos, etc..?

Este verão vamos começar a gravar o nosso segundo álbum, devemos voltar aos palcos só no fim do verão, em principio éramos uma das bandas que iam abrir os megaliticos CELTIC FROST mas o Thomas rompeu e a banda acabou com datas importantes penduradas. Gostávamos de poder abrir de novo os Orange Goblin em Setembro, mas ainda é incerto. Em breve também vamos participar numa compilação da Raging Planet um tributo ao Rock antigo nacional, nós obviamente vamos fazer uma cover dos Beatniks, de 1972, um tema super-Sabbath! Temos também um Mini album planeado de covers para 2009. E para já, "That's all folks"!
www.myspace.com/dawnriderdoom

terça-feira, julho 01, 2008

em entrevista...WE ARE THE DAMNED

Os WE ARE THE DAMNED são já uma das grandes surpresas a assinalar no panorama nacional no que à música de peso diz respeito. «The Shape of Hell to Come» apresenta-se como um portentoso manifesto de raiva e brutalidade que promete abanar a cena e que acrescenta mais um nome à crescente lista de bandas de enorme qualidade no nosso país. O Opuskulo não quis deixar passar em claro a edição da estreia dos We Are the Damned e convidou-os para uma conversa.

Parece que aconteceu tudo muito rápido com os We Are the Damned. Conta-nos resumidamente o percurso até à edição deste álbum de estreia.

Sim foi efectivamente rápido. Trabalhámos imenso na sala de ensaio e acabou tudo por aparecer naturalmente, mostrámos o material àRaging Planet e eles assinaram a banda.


Como está a ser recebido «The Shape of Hell to Come»? As reacções têm-vos surpreendido?

Ainda é um bocado cedo para termos essa percepção mas as poucasreacções que temos tido têm sido bastante positivas, quer do disco, quer dos concertos.

Tendo em conta os nomes envolvidos nos We Are the Damned podemos considerar-vos uma “super banda”?

Não, esse conceito não se pode aplicar. Somos apenas uma banda quequer tentar ir o mais longe possível.


Esta é realmente uma banda com pernas para andar ou não passa de um projecto ocasional?


É uma banda séria, se fosse algo ocasional nem nos dávamos aotrabalho de procurar uma editora nem pessoas interessadas em trabalharconnosco.

Logo na estreia entregaram a masterização do disco ao conceituado Palle Schultz. Porquê essa opção?

Ele não só masterizou, como produziu e misturou o disco, ele aliásesteve presente no estúdio cá em Portugal. Já o conhecíamos de outrostrabalhos que ele realizou na Dinamarca, e alem disso é uma espécie devisionário, o que nos agradou logo, para não falar nas suas qualidadescomo musico, o que nos ajudou bastante.

Uma das sensações deste disco é a vossa vocalista. Onde a descobriram?


Já conhecia-mos a Sofia dos anteriores projectos que ela teve, foiuma boa aposta já que ela encaixou perfeitamente no perfil queestávamos à procura.


Acham que o facto de contarem com uma vocalista feminina numa banda de sonoridade agressiva como a vossa pode dar-vos uma visibilidade extra?


Só se for pelo facto de ser invulgar, em Portugal, vermos umarapariga a cantar numa banda de música pesada.


Sei que liricamente os vossos temas rondam o humor algo sarcástico e negro. Podes elucidar-nos melhor em relação a isso?

Tentámos construir o conceito do disco baseado na actual realidadedo quotidiano misturado com o que achamos que pode vir a ser o futuroda humanidade em geral, mas adicionando elementos fruto da nossaimaginação.

Achas que estão finalmente a reunir-se as condições necessárias em Portugal para uma maior proliferação e crescimento de bandas underground?


Penso que as pessoas têm outra abertura em relação às bandasunderground, mas continua a acontecer tudo com um certo preconceito, enão é por acaso que nos últimos vinte anos de musica pesada em Portugal,só uma banda conseguiu efectivamente ter reconhecimento a nívelinternacional, e só depois nacional !

O que está nos vossos planos a breve trecho?

Nos planos está o segundo álbum e tocar muito ao vivo, lá fora e cá dentro

segunda-feira, junho 23, 2008

em entrevista...THANATOSCHIZO

Sendo uma das bandas mais interessantes e originais do actual panorama de peso nacional, os THANATOSCHIZO chegam à edição do quarto álbum «Zoom Code», um verdadeiro atestado de maturidade e de qualidade da banda e um dos momentos altos de um ano que ainda vai a meio. O Opuskulo não ficou indiferente à qualidade deste trabalho e partiu à conversa com o seu principal mentor, Guilhermino Martins.



Como estão a encarar este vosso quarto disco? Consideram que se trata de um afirmar definitivo da maturidade da banda?


Com toda a honestidade, sim! Temos perfeita consciência do pulo qualitativo que este álbum representa e que, acima de tudo, reflecte dez anos de amadurecimento musical. Na visão desta banda, todos os nossos lançamentos são melhores do que o anterior e penso que, desta vez, não foi excepção. Estamos muito orgulhosos de ser uma banda no verdadeiro sentido da palavra, de continuarmos juntos e de termos criado o Zoom Code.

Como têm sido as reacções ao disco?

Muito boas, felizmente! Tenho a sensação que as pessoas finalmente perceberam o “point” deste grupo e temos obtido excelentes críticas a uma escala global. É claro que vai haver sempre quem não consiga compreender a nossa sonoridade mas, desde o início, tivemos perfeita consciência de não sermos uma banda consensual.

Como está a ser a distribuição e a aceitação a nível internacional, tendo em conta que trabalham actualmente com uma editora com algum peso internacional?

A My Kingdom Music está a cumprir tudo o que estipulámos e, como tal, não temos nada de negativo a assinalar no trabalho deles. O álbum está à venda em praticamente todo o mundo e o feedback que nos chega é consistentemente positivo.

Comparativamente a «Turbulence» o que o separa deste «Zoom Code»?

Quatro anos de amadurecimento: uma cada vez maior atenção a pormenores, a cada vez maior valorização das vozes na nossa sonoridade e o refinar da composição.

Apesar de continuar a demonstrar uma enorme versatilidade estilística, «Zoom Code» soa muito mais coeso do que qualquer disco anterior. Concordam?

Sim, mais do que tentar surpreender pela excentricidade, preocupámo-nos assumidamente em criar bons temas, bem estruturados e compostos. E isso, claro, reflecte-se na tal sensação de coesão de que falas.

Contam com a colaboração de alguns ilustres convidados. Suponho que tenha sido o realizar de um sonho para a banda, certo?

Não diria “sonho”, mas foi uma sensação incrível quando recebemos o solo de violino do Timb Harris e o juntámos à pré-produção instrumental do L.. Os Estradasphere são uma das minhas bandas favoritas, por isso foi óptimo podermos trabalhar com ele. No caso do Zweizz, quando começámos a pensar quem nos poderia ajudar na criação da The Shift, o nome dos Dodheimsgard - outra banda que admiro imenso - veio à baila e foi inevitável contactá-lo. O António Pereira é um músico folk local que emprestou o seu talento a dois dos nossos temas e acabou por lhes adicionar um irresistível tom naïve que os enriqueceu imenso.

Têem programada alguma digressão para a promoção a «Zoom Code»? Por onde irá passar?

Neste momento estamos a agendar uma série de concertos até ao final do ano e há, de facto, a possibilidade de alguns concertos pontuais no estrangeiro. Para já temos o Liperske IV (onde vamos comemorar o nosso décimo aniversário) e o Metal Grândola, mas dentro de dias vamos poder confirmar mais datas.


«Zoom Code» incorpora elementos tão diversos como o acordeão, o saxofone ou o violino. A música dos ThanatoSchizO parece não ter limitações estilísticas…

E não tem, de facto. Esse é o maior prazer que esta banda nos dá: poder fazer aquilo que nos dá na real gana. Talvez por isso nunca tenhamos sentido necessidade de criar projectos paralelos a ThanatoSchizO – no fundo podemos fazer tudo o que quisermos neste grupo e é óptimo não haver qualquer constrangimento no acto criativo porque, basicamente, seguimos o nosso instinto. Provavelmente em termos comerciais, essa não é a melhor atitude a tomar mas... nós sentimo-nos realizados por criar a música que gostamos de ouvir, portanto tudo o resto é acessório.

Conceptualmente por onde anda «Zoom Code»?


Por um mundo muito mais positivo – apesar do lado mais negro do grafismo do álbum. As letras deixaram de ser focadas em episódios da vida pessoal do Eduardo e da Patrícia e passaram a ser histórias de terceiras pessoas. A mensagem é, globalmente, mais uplifting. O título resultou do momento em que nos capacitámos de que, para este álbum, nos deveríamos unicamente centrar naquilo que, a nosso ver, sabemos fazer melhor. Um aprofundar das nossas virtudes, portanto.

Voltaram a gravar nos Rec’n’Roll e a ser produzidos pelos irmãos Barros. É uma relação de fidelidade e durabilidade pouco comum. Não equacionam vontade de trabalhar com novos produtores?

Em Portugal, por ora, não. Além disso, os Rec’n’Roll têm evoluído ao longo destes anos e penso que o som do álbum prova a capacidade actual do estúdio. É claro que, havendo um orçamento mais alargado, equacionaríamos gravar lá fora, mas quem sabe o que o futuro nos proporcionará.


Tendo em conta o vosso passado, considero que os ThanatoSchizO foram pioneiros na abertura do metal português a novas sonoridades e à exploração de novas abordagens musicais. Sentem o peso dessa responsabilidade?

Sim, na altura em que aparecemos, havia, no underground, um certo culto pelo obscurantismo musical (na pior acepção desta expressão) e lembro-me de inicialmente termos sido muito criticados por termos aparecido com uma som muito mais “aberto” a novas abordagens. Hoje em dia, esse dogma está ultrapassado e, felizmente, o que não faltam em Portugal são bandas apostadas em quebrar barreiras no mundo do Metal.


Sendo tu um seguidor de longa data da evolução do metal nacional, qual a tua opinião actual sobre o estado das coisas? O que se perdeu e o que se ganhou?

Penso que há cada vez mais bandas com qualidade. As condições das salas para concertos estão bem melhores e o interesse do público por música made in Portugal cresceu significativamente. Por outro lado, continua-se a cair nos mesmos erros do passado: consegues fazer a conta a quantas next big things foram aparecendo e desaparecendo no nosso panorama ao longo dos últimos dez anos? Além disso, perdeu-se, igualmente, alguma da magia que se vivia há 10/15 anos, com o apogeu da tecnologia a tolher o efeito surpresa de alguns lançamentos.

Achas que o panorama musical português está hoje melhor preparado para proporcionar um desenvolvimento e uma progressão mais visível às bandas do que estava quando começaram a vossa carreira? Quais as principais diferenças?

Sem dúvida nenhuma mas, como sempre acreditei desde o primeiro dia, penso que não é o panorama musical que tem de proporcionar seja o que for às bandas. Antes, elas têm de se capacitar da necessidade de dedicação que um projecto destes acarreta. Havendo vontade e, claro, algum valor, os resultados acabam – inevitavelmente – por aparecer. É claro que hoje em dia as coisas estão também bem mais fáceis devido à Internet: as webzines, as diferentes plataformas de promoção a que as bandas têm acesso, os fóruns, tudo isso serve para gerar um cero burburinho à volta de um grupo. É claro que haverá sempre os meros hypes virtuais mas, lá está, as boas bandas acabam sempre por vir ao de cima e afirmar-se.

O que podemos esperar dos Thanatoschizo a curto prazo?

Vários concertos de promoção ao novo álbum!

segunda-feira, outubro 01, 2007

em entrevista...F.E.V.E.R

Após diversos trabalhos de curta duração mas de qualidade inquestionável, os lisboetas F.E.V.E.R editam finalmente a tão aguardada estreia em formato longa duração. «4st» é o nome de um disco que promete alargar os horizontes da música alternativa portuguesa e lançar esta banda para o reconhecimento internacional. O Opuskulo não quis deixar escapar a oportunidade e falou com o vocalista Fernando Matias e o guitarrista Luis Lamelas.

E finalmente ai está o tão aguardado longa duração. Satisfeitos com o resultado final?

Luís - Sim. Apesar de ter sido um processo algo longo e demorado, mas já contavamos com isso... Quizemos fazer as coisas sem presas e da melhor maneira com os recursos a que tinhamos acesso. Estamos satisfeitos com o resultado final a todos os níveis.

Como têm sido as reacções ao disco? Notava-se uma enorme expectativa em torno do mesmo, não acham?

Luís – Sinceramente, não nos podemos queixar. Temos sido, geralmente, bastante bem recebidos. Relativamente a expectativas... as nossas têm-se cumprido aos poucos. Não tenho bem a noção relativamente a expectativas exteriores, mas como temos estado envolvidos em bastantes actividades a este nível, acabamos por criar alguma curiosidade.

Porquê terem demorado todos estes anos para editar um longa duração? Não sentiam que tinha chegado a altura certa quando editaram os anteriores EP ?

Luís – Estivemos bastante ocupados com outros lançamentos (o disco de remisturas “Electronics” em 2005 e o single multimedia “Bipolar [-]” em 2006) e com a composição / gravacao do disco. Também mudámos de baterista. Temos outras actividades e era incomportavel gravar o disco e estar activo ao mesmo tempo para concertos por razões de tempo. Este disco acabou por lucrar com o amadurecimento dos temas que tinhamos para o preencher.

O título "4st" tem algum significado especial ?

Fernando - É um título pragmático e funcional. Significa “quarto lançamento, primeiro longa duração” (excluindo singles e compilações, e tomando apenas em consideração os dois Eps e o disco de remisturas). Não houve grandes preocupações conceptuais, simplesmente gostámos do significado despretensioso e da forma desviante como está escrito. Já no plano da coincidência (e apenas para confundir e pôr em causa tudo o que foi dito anteriormente), “4st” é foneticamente semelhante a “Forced”, a primeira canção do disco, e durante a produção do álbum começámos a notar que havia uma certa reincidência na temática da contingência. Foi um conceito que foi crescendo a posteriori, espontaneamente, um tanto por acaso. Não temos por hábito pegar numa folha em branco e desenhar esboços conceptuais. O nosso método de trabalho é mais rabiscar em post-its e depois forçar puzzles a partir de peças que não encaixam entre si. Uma espécie de desafio lógico.

Os F.E.V.E.R. são daquelas bandas que se sente que caso fossem norte-americanas ou britânicas teriam um sucesso muito diferente daquele que têm. Acham que o factor Portugal prejudica a vossa carreira e limita os vossos horizontes?

Fernando - Talvez sim, talvez não. É, por um lado, verdade que há bandas nos Estados Unidos que sobrevivem saudavelmente só a fazer digressões nacionais (o mesmo não acontece em Inglaterra, creio) é um mercado muito grande em que é muito mais fácil subsistir. Mas também é verdade que a concorrência é muito mais hostil e não sei até que ponto seria muito favorável encontrarmo-nos por lá diluídos numa sopa de bandas muito maior e mais complexa do que aquela que temos aqui deste lado do Altântico. Se tiver de acontecer-nos alguma coisa de bom, quero acreditar que tal acontecerá mais pela força do nosso trabalho do que pelo facto de estarmos no local certo no momento certo.

Ponderariam a hipótese de sair de Portugal para lutar pela banda noutro país que vos oferecesse melhores condições?

Fernando - Não me parece ser absolutamente necessário ter de sair de Portugal. Estamos no século XXI e a distância não é hoje um problema. Se te meteres num avião, consegues chegar a qualquer capital do mundo em apenas algumas horas. Há telefones, há internet... Para além do mais, gosto de pensar na Europa como uma espécie de Estados Unidos em que em vez de teres bandas de Seattle ou Chicago, tens bandas de Glasgow ou Berlim. Agrada-me isto da União Europeia, é como se vivesses num país enorme que vai de Lisboa a Helsínquia. É só uma questão de aproveitar a oportunidade.

"4st" será distribuído no estrangeiro ou a aposta direcciona-se mais para Portugal?

Luís – A edição da RagingPlanet é nacional, mas poderá ter alguma distribuição além fronteiras no futuro. Estamos neste momento a trabalhar com alguns contactos que têm interesse no nosso trabalho para fora de Portugal. Vamos ver no que resulta.

O vosso som prima pela originalidade e consegue agradar a um largo espectro de público...desde um mais metaleiro a outro mais alternativo. Notam isso pelas reacções que vão recebendo? Acham que isso pode constituir uma mais valia ou, por outro lado, dificultar a inclusão da banda num público alvo específico?

Luís – Nunca tivemos por objectivo um público alvo. Agrada-nos a ideia de poder apelar a um publico diverso e isso tem acontecido. Não queremos ser uma banda de elites especiais de corrida, também não nos achamos “os escolhidos” de uma vertente musical qualquer.

Há planos para divulgar este disco ao vivo? Alguma tour planeada?

Fernando - Temos tido alguns concertos, abrimos recentemente para Type O Negative e estivemos no Marés Negras, vamos estar no Midas Rock Fest II no dia 15 e temos já agendadas mais duas datas lá para o final do ano. Há outros eventos ainda a necessitar de confirmação... é uma questão de estarem atentos ao nosso MySpace (www.myspace.com/feveronline). \m/

Últimas palavras..

Luís – Obrigado pela entrevista. Podem ouvir o álbum “4st_Fourst”, em streaming, na nossa página online em http://www.fever.web.pt/. Esperamos vos ver num proximo concerto. Cheers.

sexta-feira, setembro 14, 2007

em entrevista...BEFORE THE RAIN

Quando o doom metal parecia algo moribundo no nosso país, eis que em poucos meses surgem duas agradáveis e encorajadoras surpresas. Se «Renounce» - o álbum de estreia dos Process of Guilt – revelou algo de inovador dentro do estilo, «…One Day Less» - a estreia dos Before the Rain aponta para uma veia mais tradicional do estilo, embora não menos interessante. O Opuskulo quis dar o devido destaque a esta excelente banda e para tal falou com o baixista Pedro Daniel.

Remontando as raízes da banda a 1997, qual a sensação de 10 anos depois ver o primeiro álbum finalmente editado? Foi um percurso penoso?

Sejam 10 anos, sejam 10 meses, é sempre gratificante ver o esforço do nosso trabalho editado e a chegar às pessoas, mas, como já foi dito noutras circunstâncias, os [BeforeTheRain] não levaram 10 anos a lançar um primeiro álbum, mas sim, parte desse tempo a criar as condições para tal acontecer. Acho que há uma diferença importante nesses dois princípios. A progressão natural de uma banda passa por compôr, ensaiar, gravar e lançar um álbum (e depois promovê-lo), mas para isso acontecer tem de existir efectivamente uma banda. Tal só aconteceu, de forma estável, em finais de 2004. Até então, tinham passado literalmente dezenas de pessoas pela formação, por periodos muito efémeros, e pelos mais diversos motivos. A partir do momento em que o presente conjunto de pessoas começou a trabalhar em uníssono, foi apenas uma questão de tempo até termos um álbum pronto a gravar e a lançar.

Começaram por ser uma banda acústica mas sentiram a necessidade de enveredar por uma veia digamos mais “tradicional” do doom metal. Acham que a música acústica não se pode considerar doom, pelo menos em termo da carga emocional e melancólica associada ao estilo?

A fase acústica da banda remonta a um período em que a formação se limitava ao Carlos e ao Valter. A mudança do formato acústico para o formato eléctrico verificou-se apenas porque se chegou à conclusão que eram necessárias mais ferramentas sonoras para aquilo que que se queria fazer. Mas como tudo, essa foi uma mudança natural e progressiva. Não houve uma decisão sumária para isso acontecer. No entanto, o “...One Day Less” combina, para além do tema totalmente acústico “Paragraph”, diversas passagens que não tendo sido gravadas nesse formato, utilizam guitarras limpas em ambientes musicalmente muito introspectivos. Essas são as raízes de [BeforeTheRain] e creio que de uma forma ou de outra irão estar sempre presentes na nossa música.

Este disco conta com a masterização de Thomas Eberger. Como foi contar com a colaboração de alguém que já trabalhou com algumas bandas que provavelmente fazem parte das vossas principais referências? Revolucionou o trabalho de uma forma que não conseguiam alcançar em Portugal?

Penso que o trabalho do Thomas no “...One Day Less” veio sobretudo reforçar o que já estava feito de forma muito competente com a captação e mistura, trabalho esse levado a cabo pelo João Bacelar (e pela banda). Ao contrário do que se passa com a mistura, em que se pode incutir um cunho completamente diferente dependendo do produtor, as “fórmulas” de masterização não variam muito. Quem tenha tido a possibilidade de comparar directamente a versão não masterizada com a versão final iria certamente perceber as diferenças, e é aí que a reputação do Thomas é efectivamente comprovada. Teria sido magnífico poder contar com ele na fase de mistura, mas a crua realidade é que não existiam condições para tal acontecer. Existem estúdios e produtores em Portugal onde conseguiríamos um resultado aproximado, mas penso que foi interessante termos alguém com o historial do Thomas a interagir com o nosso trabalho.

Os Process of Guilt recorreram aos préstimos do mesmo produtor no seu álbum de estreia. Tendo em conta as relações de proximidade existentes entre as duas bandas suponho que terá tido influência na vossa decisão?

Naturalmente que a excelente referência trazida pelo “Renounce” foi relevante no processo de escolha, mas, respondendo o mais friamente possível, creio que a influência mais forte foi mesmo o orçamento disponibilizado pelo CuttingRoom. Pedimos valores a vários estúdios de renome, no entanto o CuttingRoom acabou por ser a escolha óbvia.

Se juntarmos «…One Day Less» à já referida estreia dos Process of Guilt, acham que o doom está a recuperar o fôlego em Portugal que parecia algo perdido nos últimos anos?

Não creio que alguma vez tenha havido um grande movimento Doom em Portugal, isto comparando directamente o género em causa com outros estilos como Black ou o Death Metal, mas também penso que enquanto corrente de expressão, o Doom nunca será, felizmente, hype. É no entanto curioso constatar que o percurso de duas bandas que são próximas, devido à partilha de elementos, as levaram a lançar os respectivos álbuns de estreia pela mesma editora, e num curto lapso de tempo, mas creio que isso é mais uma anomalia cósmica, que pode ser vista como uma feliz coincidência, do que propriamente o indicador de uma tendência.
Existem várias bandas Doom em Portugal, com percursos muito válidos, umas já extintas e outras ainda em actividade, e de uma forma ou de outra o fôlego que referiste nunca deixou de existir. Quanto muito um estado de hibernação cíclico.

Pessoalmente considero que ambas as bandas reuném requisitos mais do que suficientes para um sucesso além fronteiras e para uma carreira bastante positiva. Sentem isso ou adoptam uma postura mais reticente?

Queremos sempre sentir que a nossa arte poderá chegar ao maior número de pessoas possível, e estamos a apontar os nossos esforços nesse sentido. O sucesso além fronteiras é sempre algo muito relativo, porque não basta ter meia dúzia de pessoas no MySpace a dizer que a nossa música é boa, ou mesmo umas quantas reviews encorajadoras (não menosprezando o valor que tal possa ter). É necessário um suporte promocional enorme e uma rede de distribuição forte o suficiente para “furar” a densidade do mercado, e bem vistas as coisas, isso não se consegue da noite para o dia, com um álbum e uma demo. A nossa atitude presente é de um “entusiasmo reservado”. Estamos satisfeitos com o álbum, foi um processo longo e complicado, pelos motivos que indiquei acima, estamos também satisfeitos com o trabalho e o apoio que a Major Label Industries nos tem dado. Para todos os efeitos, a promoção ao vivo do “...One Day Less” começará no final de Setembro, com os concertos “An Evening Before The Rain” em Lisboa e Porto, e o futuro mostra-se risonho...

Já agora, há alguma estratégia delineada em termos de projecção internacional do álbum? Que reacções vos têm chegado?

Ainda é um pouco cedo para reacções. O álbum saiu a 30 de Julho, e como tal as edições de Agosto dos príncipais veículos de media nacionais e internacionais não conseguiram responder a tempo. O feedback pontual que nos tem chegado por diversos meios tem sido muito positivo, e durante Setembro saberemos efectivamente mais. A editora tem alguns parceiros de peso em termos de distribuição internacional, como a The End Records, a Firebox ou a Prophecy, e creio que esse é o primeiro passo para dar alguma credibilidade ao lançamento.

Voltando a falar de Process of Guilt, a vossa sonoridade entra por uma veia mais tradicional, mas não menos interessante, do doom metal. Que argumentos congregam na vossa sonoridade que vos possa distinguir de bandas semelhantes?

Penso que não cabe a nós defender esse argumento, e nem sei se existe realmente a necessidade de o fazer. Se “...One Day Less” porventura soa a um registo mais tradicional ou clássico de Doom Metal, tal aconteceu porque tinha de acontecer e não porque planeámos conscientemente fazer algo assim. O “...One Day Less” é sobretudo o fechar de um ciclo para a banda, e provavelmente o próximo registo vai soar categoricamente diferente, mas essa diferença tem de acontecer de forma natural, e não porque assim se decide. A Arte, no seu geral, deveria ser isenta da necessidade de argumento, especialmente do próprio artista, ou neste caso, a banda.

Tocaram recentemente ao lado de Moonspell e Kreator, possivelmente a oportunidade que tiveram para expor o vosso trabalho perante uma plateia mais vasta. Como foi essa experiência?

Penso que a expressão é mesmo “Experiência”. Tivemos desde início a noção que, tendo em conta a natureza sectária do underground, que seríamos, juntamente com F.E.V.E.R., uns “fish out of the water”. Tirando algumas falhas no som (devido a alguns atrasos na logística que nos obrigaram inclusive a reduzir o set em 10 minutos), a actuação propriamente dita correu bem, e foi muito interessante poder partilhar um palco (especialmente o do Coliseu do Porto) com dois headliners monstruosos. Penso que “atingimos” quem tínhamos de atingir, e dado o número de pessoas que nos abordaram após o concerto, o saldo é mais do que positivo.

O que podemos esperar dos Before the Rain a curto/médio prazo?

O nosso objectivo presente visa a promoção ao vivo do “...One Day Less”, o mais possível, mas existe um desejo comum de começar a explorar algumas das ideias que já surgiram, para o próximo registo.

Últimas palavras, lamentos ou pensamentos…

Oiçam música com a abertura de espírito e dignidade que merece, seja ela qual for.

Peace

sexta-feira, julho 20, 2007

em entrevista...HIPNOTICA

No regresso do OPUSKULO às entrevistas resolvemos desviar-nos um pouco das sonoridades mais habitualmente divulgadas nestas páginas e concentrar atenções em paisagens mais alternativas e de fusão. Os eleitos foram os portugueses HIPNOTICA, banda que condenada a ver os seus discos tornarem-se referências no música alternativa portuguesa, sendo que a novidade «New Comunities for Better Days» não constituirá excepção. Aqui fica o relato da conversa mantida com a banda.

Cada disco que editam figura automaticamente entre os melhores do ano. Isso coloca-vos algum tipo de pressão na hora de compor um novo disco?

Não propriamente, a maior pressão que sentimos quando partimos para a composição de um novo álbum é o desafio de fazermos sempre melhores musicas. Ao início há sempre muita discussão para definir os caminhos que queremos percorrer, mas depois há factores incontroláveis associados com a inspiração e a criatividade, a junção desses factores imprevisíveis associada com o nosso empenho é que vai moldando o resultado. É bom que haja uma certa tensão sempre presente.

Quais as maiores diferenças a assinalar entre este novo disco e o anterior?

É um disco com uma vertente mais rock e com momentos de explosão. Permanece a influência do jazz e da electrónica, mas mais diluídos do que no disco anterior. Também a componente melódica e harmónica dos temas foi mais explorada.

Em termos de colaborações exteriores e novas experimentações parece-me um disco mais ambicioso. Concordam?

Sim, buscamos sempre pessoas com as quais possamos estabelecer afinidade musical e criativa e isso tem acontecido com músicos de diversos países e de diversas tendências. Mas como disse anteriormente, a ambição é em primeiro lugar associada à música. Temos tido sorte de encontrar excelentes músicos que se prontificam a compor connosco e a alargar a nossa comunidade.


Em termos líricos, o que aborda este disco?

Relações entre pessoas, amigos, amantes, observação social, os rumos que podemos tomar, fragmentos de histórias como curtas metragens, alguns elementos surrealistas e algumas expressões mais poéticas.


Apesar do sucesso em Portugal que têm vindo a alcançar o mesmo não se tem verificado a um nível internacional. Porquê?

O tema dos outros mercados é recorrentes, mas temos tido alguns resultados, como por exemplo a recente edição de 1 tema numa compilação de uma editora japonesa que é a KSR ao lado de nomes como os Koop, Andy Caldwell e os The Poems. É uma luta difícil e desigual pois grande parte dos países europeus já perceberam que a exportação da sua música é uma forma muito eficaz de promover a imagem do próprio país. Não há só bons jogadores de futebol em Portugal, há grandes bandas e que numa acção concertada e com subsídios bem aplicados poderiam por Portugal no mapa europeu.

Que reacções vos chegam do estrangeiro?

Quando a nossa música lá chega, a opinião é excelente e aliás conseguimos chegar às pessoas que gostam das bandas e da musica que nós também gostamos de ouvir o que é um óptimo termómetro para nós. Pelo MYSPACE que é um dos meios mais eficazes de lá chegar essa é a percepção que temos tido, aliás temos vendido alguns álbuns através desse tipo de meios.


Qual a vossa opinião quanto ao actual estado da música alternativa portuguesa? Pode dizer-se que existe um movimento cada vez mais forte e organizado?

Nem por isso, há boas bandas, algumas iniciativas já bem estruturadas, mas o circuito de concertos ainda é limitado em termos de condições e o acesso aos media, tirando algumas louváveis excepções, ainda é muito escasso. Ultimamente a Internet tem servido para proliferação de sites e páginas dedicados à musical nacional e o próprio youtube e myspace permitem circular os vídeos que as bandas produzem e que muitas vezes não tinham acesso a nenhum canal de televisão.
A vossa sonoridade contempla um cocktail de diferentes paisagens musicais. Como definiriam o vosso som?

Cocktail molotov? …Perguntas difíceis ( risos). Como diria Dizzy Gillespie “a musica fala mais alto do que as palavras”.

O que podemos esperar da vossa parte em termos de concertos? Alguma digressão planeada?

Estamos a planear uma tour nacional a iniciar em Setembro e a prolongar-se até ao fim de Novembro.

Últimas palavras…

Que as pessoas procurem a nossa música , pode ser através do www.myspace.com/hipnoticapt , que façam download nos P2P, que gravem dos amigos, enfim que a ouçam ….se realmente gostarem e se vos “entrar”, comprem o original que é que nos permitirá continuar discos.
Peace&love

segunda-feira, maio 07, 2007

em entrevista...ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL - OS CANTOS DE MALDOROR

A relação dos Mão Morta à componente teatral não é propriamente novidade, basta recordar o espectáculo "Müller no Hotel Hessischer Hof" que teve como protagonista Adolfo Luxúria Canibal e seus pares e que ficou imortalizado num DVD editado recentemente. "Os Cantos de Maldoror" recuperam esse formato e lançam os Mão Morta numa nova aventura que promete tornar-se num espectáculo singular a não perder. Em vésperas de estrear a nível nacional, o Opuskulo teve o prazer de conversar com o enigmático e incontornável figura desta trama, Adolfo Luxúria Canibal...

Para quem não está familiarizado com a obra que deu origem a este espectáculo, «Os Cantos de Maldoror», é possível fazer um breve resumo da mesma?

Não. Poderia dizer que é construída como uma epopeia clássica mas em que, contrariamente a esta, o herói não é um herói do bem mas um herói do mal – e não seria mentira –, mas isso era deixar o essencial do livro de fora. Porque o que o torna interessante não é propriamente a história que conta – e não conta uma história, antes se perde por milhentos farrapos de histórias – nem a forma genérica que aparenta, mas a maneira como a escrita se desenrola. Não estamos a falar de um romance ou de uma novela, mas de poesia e de poesia moderna – e é insensato imaginar que se possa resumir um poema sem, com isso, perder o poema!

Como surgiu a ideia de passar essa obra para este formato original? Porquê esta obra?

O livro Os Cantos de Maldoror é uma obra já várias vezes referenciada por nós e que nos ocupa a cabeceira da cama desde a adolescência. Tendo a literatura tanta importância no trabalho dos Mão Morta, quer a nível temático quer como inspiração para a composição, quer como objecto de trabalho, seria previsível que um livro que nos é tão querido viesse, mais cedo ou mais tarde, a ser abordado pelo nosso labor criativo. E efectivamente há muito tempo que o Miguel Pedro insistia em fazermos um espectáculo sobre Os Cantos de Maldoror, ideia que eu ia sistematicamente recusando por me parecer que a complexidade da obra, e o nível estritamente literário em que ela opera, não seria susceptível de transposição para outro tipo de linguagem. Mas o Miguel Pedro tanto insistiu que lá nos conseguiu convencer a todos a metermo-nos nessa loucura e o convite do Theatro Circo, para inaugurarmos a sua vertente de produção de espectáculos, acabou por surgir no momento certo para dar viabilidade ao projecto… As dificuldades de transposição que eu temia aconteceram, mas não nos fizeram desistir e acabamos por encontrar um mecanismo que nos possibilitou a construção de um espectáculo que, acreditamos, não atraiçoa o livro.

Esta simbiose entre a música, o vídeo e a declamação não deixa de ser original, especialmente em Portugal. Sentem-se de alguma forma percursores de algo?

Não tenho assim tanta certeza que seja algo tão original quanto isso! Seja como for, importa dizer que não fizemos qualquer levantamento de quem antes de nós já tinha utilizado a multidisciplinaridade de linguagens e de mídias, mas acreditamos piamente que já muita gente o fez… E isso para nós não é importante! Essa utilização acontece no Maldoror não pela vontade em ser percursor ou para ostentar meios, mas porque achamos que a construção do espectáculo o exigia – espelha, de certo modo, as diferentes vozes que no livro se entrecruzam.

Achas que o público português está preparado para acolher um espectáculo deste género? Que expectativas têm quanto aos espectáculos que ai vêm?

Esse conceito de público parece-nos um conceito demasiado abstracto… Nós partimos para a feitura de um espectáculo (ou de um disco) por necessidade nossa, pelo prazer criativo de mergulharmos numa coisa nova e de partilharmos a sua construção entre todos, e um bom resultado final, um resultado que nos satisfaça e com o qual nos sintamos recompensados, faz parte dessa alegria criativa. Se esse resultado final nos agradar, não há motivo para não poder agradar também às pessoas que forem ver o espectáculo – não há necessidade objectiva de haver uma qualquer preparação especial para isso acontecer – e se efectivamente agradar então a nossa felicidade torna-se perfeita!... Neste momento, que ainda não temos um resultado final, estamos amplamente satisfeitos com o trabalho realizado e cheios de expectativas positivas!

A componente cénica e dramática esteve sempre bastante presente na música de Mão Morta. Esta foi uma forma de materializarem essa mesma componente?


Efectivamente sempre houve uma componente cénica muito acentuada em toda a música dos Mão Morta, quer em espectáculo quer em disco, que deriva essencialmente da intensidade interpretativa. Neste Maldoror, como já tinha acontecido no Müller no Hotel Hessischer Hof, fazemos a exploração plástica, submetendo toda a apresentação em palco a um trabalho mais apurado, dessa componente cénica preexistente na interpretação. E com isso criamos um híbrido, que ainda não é teatro mas que já não é só música…

Em traços gerais, o que podemos esperar deste espectáculo? Qual a mensagem que no final pretendem transmitir ao público?

Não pretendemos transmitir qualquer mensagem… Damo-nos por muito satisfeitos se aqueles que conhecem e gostam dos Cantos de Maldoror, ao verem o espectáculo, se tenham sentido transportados sensorialmente para o interior do livro e que os que não o conhecem saiam do espectáculo com a curiosidade desperta e tentados a conhecê-lo.

Inicialmente limitado a poucas datas, encaram a hipótese de estender este espectáculo por um maior número de salas e localidades?

Sim, a ideia é fazer uma itinerância e levar o espectáculo a todo o lado que disponha de uma sala com capacidade técnica para o receber. Já há vários contactos nesse sentido, mas por agora as únicas datas firmes são as de Braga, a 11 e 12 de Maio, e a de Portalegre, a 19 de Maio.

Podemos esperar futuras participações dos Mão Morta neste tipo de espectáculos ou é uma experiência isolada?

Não é uma experiência isolada, até porque já não é a primeira – há dez anos aconteceu outro espectáculo similar que foi o Müller no Hotel Hessischer Hof. Mas pela sua própria natureza, pelos meios que implica, pelo tempo que necessita e pela entrega a que obriga, este tipo de espectáculos só pode ter um carácter esporádico.

Quanto à banda propriamente dita, há já algum novo disco a ser preparado? O que podes adiantar?

O nosso novo disco de originais será este espectáculo, no qual estamos a trabalhar exaustivamente há ano e meio. As apresentações no Theatro Circo vão ser gravadas e filmadas para depois ser feita uma edição em CD e DVD, à imagem do que aconteceu com o Müller no Hotel Hessischer Hof.