terça-feira, janeiro 16, 2007

em entrevista...MANUEL MELO [Sinfonias D'Aço]

Mantendo uma tradição neste espaço em não cingir as entrevistas exclusivamente a bandas, partimos à conversa com Manuel Melo, mentor do programa Sinfonias D'Aço e figura lendária do panorama de peso nacional. Aqui fica o resultado.
Pedia-te que começasses por fazer um breve resumo do trabalho que tens vindo a desenvolver enquanto radialista?

Não tenho memória de quando as coisas começaram, mas terá sido ainda nos anos '70 quando me tornei correspondente técnico de imensas rádios de todo o mundo. Estavamos ainda na altura em que a onda curta assumia um papel importante e o gosto pela rádio vem daí. O gosto pela música é posterior e a união dos dois é ainda mais recente. Atrás do microfone começou tudo em 1986, quando havia um pequeno programa de metal numa rádio local barcelense. Eu e um amigo achávamos que aquilo era fraquito e resolvemos oferecer os nossos serviços emprestando discos para ele meter alguma coisa mais “fresca”. Na verdade, o homem acabou por abandonar a rádio e ficámos nós. Mais tarde eu fiquei só até desistir ainda antes de o governo mandar fechar as rádios locais. Depois do concurso e da atribuição de alvarás, uma das rádios de Barcelos convidou-me para seu colaborador e assim comecei com a versão original do “Sinfonias de Aço”. Desde então, são 17 anos de histórias que podem ser lidas no meu site em http://www.sinfonias.org. Referir aqui tudo seria exaustivo e um convite ao pessoal parar já aqui a leitura da entrevista.

Ao longo destes anos dedicados a divulgar o metal através da rádio, o que achas que mudou pela positiva e pela negativa?

Mudou quase tudo. Começo pelos aspectos positivos. Actualmente os suportes digitais facilitam imenso as coisas. O mp3 e mesmo o CD evitam ter de andar com fitas atrás de nós, que apanhavam pó e se deterioravam, para além de termos de apontar as fitas nos decks. Penso igualmente que ao longo destes anos o metal deixou de ser um estilo maldito e agora já é encarado como um estilo mainstream, não causando de imediato repulsa às pessoas. Mas também há aspectos negativos. O desinteresse pela malta mais nova em fazer este tipo de programas de autor é um deles, aliado ao facto de o público já não ser tão fiel, assim como algum alheamento por parte das bandas. Mas já lá vamos. Pela minha parte, sempre te digo que, apesar de tudo, tenho agora menos condições para fazer rádio do que tinha há 20 anos. Nessa altura, havia dois gira-discos e um deck de cassetes. Depois, para passar publicidade havia dois decks de cassetes. Mais tarde, o formato mais convencional era um gira-discos, um minidisc, um deck de cassetes e dois CD's. Os computadores fui eu que os introduzi nas rádios barcelenses. Uma ideia horrível. Rapidamente as direcções acharam que tinham encontrado as minhas do bacalhau e toca a despedir pessoal e a cortar no equipamento. Os decks de cassetes desapareceram, ficaram os CD's e um minidisc para passar registos nas notícias. Mas agora nem isso. Tenho na minha rádio um reles minidisc, um simples leitor de CD e uma porcaria de um computador a correr em Windows um software de merda chamado Digital RM. Para quem prescinde dos programas de autor e utiliza a base de dados de música que está no computador (2 ou 3 mil músicas, não mais), é um descanso; para quem quer fazer programas de autor, cruzando discos, é impossível. Aliás, nem um gira-discos existe. Resumindo: uma lástima e muito complicado fazer um programa de autor. Mas os programas de autor parecem cada vez mais fósseis no universo da rádio.

Sentes que ainda há interesse e ouvintes em programas temáticos como o Sinfonias d’Aço?

Há interesse, faltam é programas. O António Freitas está atirado para as calendas da noite e nas rádios locais sobrevivem alguns – poucos – D. Quixotes. Os tipos que fazem agora programas já o faziam há 10 ou 15 anos atrás e isso é porque a malta nova está alheada, mas não só por isso. Se repares bem, o pessoal das rádios locais (e aqui falo de todos e não dos que, como eu, fazem programas de autor) tem todo mais de 30 anos. Ou seja, é a mesma malta que fazia rádio quando as coisas começaram. E se reparares mais ainda, são todos iguaizinhos: colocam a voz como os locutores de onda média nos anos '60 e '70, usam as mesmas frases (“estimado ouvinte”, “é um prazer saber que está desse lado”, etc.) estafadas e não evoluiram rigorosamente nada neste tempo todo. Ora, se na altura já não sabiam nada, agora nada sabem. Ou melhor: sabem que não sabem nada de rádio, mas que também não sabem nada de mais nada. Resultado: as rádios locais transformaram-se em fortalezas de gajos de meia idade que fazem rádio para onde encontram feedback: para as donas de casa e para os pimbas. Qualquer projecto exterior é abatido à partida. Esses cromos formataram as rádios locais de tal forma que o auditório ficou estereotipado e o espaço para os programas de autor simplesmente desapareceu. Primeiro porque os mandões não deixam entrar e depois porque eles mesmos argumentam que não há auditório para os outros. E repara que isso é verdade. É verdade porque as rádios foram, como disse, formatadas e só um determinado tipo de auditório as consome. O terreno alternativo foi tornado árido por esta geração de situacionistas parados no tempo, vaidosos, convencidos e muitas vezes arrogantes. Não creio que tenham sido só as novas tecnologias e a expansão da oferta mediática que fez afastar o público mais jovem. Eles simplesmente não tiveram nada para ouvir que não fosse discos pedidos ou Emanueis e desistiram. Mas olha que nas rádios nacionais as coisas não andam melhores. A rádio jovem que mais ouço é a Antena 3 que consegue ter alguns dos melhores profissionais do país a conviver com os mais fracos que se possa imaginar. Há lá pessoal que eu não os queria numa rádio minha a trabalhar de graça. Não vou citar nomes, mas choca-me tamanho desleixo, tamanha incompetência e alguma falta de respeito por quem os ouve. Há até lá uma pessoa que se esquece sistematicamente do que tocou antes. E, bolas, basta olhar para a porcaria da playlist no computador. Mas nem isso. Aliás, quando vi uma dessas “artistas” dizer uma vez no “Cabaret da Coxa” algo como “eu ainda sou do tempo em que se fazia rádio com dois CD's”, está tudo explicado. Esse pessoal gosta é de alapar o cú na cadeira, o computador toca e eles dizem umas frases feitas de vez em quando e até podem dizer qualquer coisa porque as pessoas os adoram e eles são vedetas. E nós pagamos, amigos.

Ponderarias a hipótese de terminar com o programa no seu actual formato e criares uma rádio online?

Não acredito nas rádios on-line. Mas vamos por partes. De certa forma, eu já tenho a rádio online, dado que os meus programas podem ser ouvidos gravados no meu site em www.sinfonias.org. Desde o dia 10 de Junho de 2006 está lá tudo e são 3 horas por semana. Mas desistir da rádio convencional para me dedicar exclusivamente à versão online está fora de hipótese. A rádio sempre foi um meio quente de comunicação e nos últimos anos as pessoas só têm feito asneiras nesta área. É verdade que a rádio perdeu imensos ouvintes nos últimos anos e as explicações são várias. Por exemplo, quando as rádios começaram legalmente a emitir em 1989, havia 2 canais de televisão (RTP 1 e 2) e pouquíssima gente tinha parabólica. Depois abriram as televisões privadas (uma pessegada em termos qualitativos, mas que roubou gente), apareceu a TV Cabo (que levou algum público mais exigente e temático), os telemóveis permitiram um maior e mais imediato contacto (um exemplo: o pessoal deixou de ficar a ouvir rádio na estrada para saber como ficou o Benfica; os mais impacientes começaram a ligar para os amigos e pronto), também eles evoluíram em termos de oferta tecnológica e depois assistimos à massificação da internet e agora à internet móvel, já para não falar nos DVD que assumiram uma componente lúdica também muito importante e os suportes portáteis como os leitores de mp3 e os ipod's. Ora, se a rádio servia para informar onde as televisões falhavam, a rádio tinha agora uma série de concorrentes ferozes. E o que fez a rádio? Hara Kiri. Nem mais. Ou então fez-se explodir com um cinto de bombas e foi a única vítima. A rádio, em vez de apostar numa maior comunicação, mais interactividade, mais intervenção e mais iniciativa, fez rigorosamente o contrário: as direcções acharam que ter um staff alargado era um desperdício e então toca a pôr computadores a fazer rádio. Simplesmente espatifaram tudo, as pessoas recusam-se a ouvir máquinas a meter música que não informam de coisa nenhuma, não apresentam nada e fazem tudo muito certinho. Desapareceu a componente improviso, o ficar “dependurado”, o pânico da “branca” e, como disse, a rádio tornou-se fria, apática, árida de ideias e emoções. A publicidade fugiu e o auditório também e a rádio está agora à beira do desespero porque não soube – e não quis – reagir aos novos desafios, antes achou que ter máquinas a fazer rádio era a nova maravilha do mundo moderno. Mas a rádio esqueceu-se que as pessoas não funcionam assim: as pessoas ouvem rádio para estar informadas e para terem companhia. Uma rádio feita por computadores não comunica com o auditório, que é humano. O ser humano não funciona assim e ponto final. E a verdade é esta: na rádio online isso é ainda mais distante. Um aparelho de rádio é um aparelho vulgaríssimo que se mete ao bolso e se leva para qualquer lado. Eu tenho pessoal a ouvir-me na estrada, no trabalho, em serões a despachar serviço ou a estudar, etc. Mas ter um rádio à mão é coisa simples que se sintoniza com uma escala de FM ou outra. O espectro está ali e quem estiver a emitir pode ser “apanhado” pela sintonia aleatória. Se calhar a maioria do meu auditório não fixo é pessoal que me ouve como ouve os relatos de futebol ou as notícias. É simplesmente auditório de rádio. Numa rádio online já não é assim, pelo menos actualmente. Precisas de equipamento adicional, um computador com ligação à internet e precisas de saber o que vais ouvir. Na verdade, não imagino o pessoal com computadores portáteis a ouvir rádio por aí. E se o pessoal estiver em casa, é muito pouco provável que fique a ouvir rádio pela net com uma vastíssima oferta mediática à disposição. A rádio pela net pode ter o mesmo interesse que teve a onda curta há umas décadas atrás: serve para as pessoas que se encontram longe poderem informar-se do que se passa na sua terra, ou para fazer pesquisas de acontecimentos importantes, etc. Mas ter um computador ligado a ouvir rádio não me parece viável e conheço pouquíssimas pessoas a fazê-lo. Além disso, não me parece que a Internet seja o filão que muita gente afirma. Está rapidamente a tornar-se num monte de entulho e os motores de busca não filtram. Metes uma palavra qualquer e aparecem-te milhares de páginas, a esmagadora maioria com informação redundante ou incorrecta. Li há dias que ensinaram miúdos numa escola a fazer blogs e sites simples e depois foram publicados. A maioria desses sites jamais serão actualizados e, como calculas, vão ser indexados pelos motores de busca que vão apanhar referências à escola, à localidade, aos nomes, etc. Isso é lixo e mais nada. A internet está rapidamente a ficar transformada numa enorme lixeira a céu aberto, cheia de informação redundante e excesso de pormenores cruzados sobre determinados temas. Ora, tão mau como informação escassa, é ter excesso de informação não filtrada.

Recordo-me que os programas dedicados ao metal em rádios regionais há alguns anos atrás eram encarados quase como um culto, um ritual sagrado e uma forma privilegiada de construir os gostos dos ouvintes. Achas que esse sentimento entretanto perdeu-se?

Perdeu-se, em parte, pelos motivos que já aqui deixei. Não foram só os programas de metal, foi toda a rádio de autor e toda a programação inteligente. Agora temos um modelo americano de rádio com playlists, pacotes de promoções e fornadas de porcarias destinadas a massacrar as pessoas com uma atitude consumista. A rádio hoje em dia é pouco mais do que isso. Dantes, para aí há uns 20 ou 25 anos, ouvir o António Sérgio na Rádio Comercial era um prazer. Lembro-me de sair da escola e ir rapidamente para casa para ainda apanhar o “Som da Frente”, onde se ouviam coisas incríveis. Aos Sábados, era dia de “Lança-Chamas” o grande programa de culto de sempre do metal nacional e onde o Freitas deu os primeiros passos. Lembro-me que quando o programa saiu da Rádio Comercial e passou para a Rádio Energia (a verdadeira rádio jovem que Portugal alguma vez teve) eu saía de carro para a praia, pois aí apanhava-se melhor a frequência do Porto. Ia até à beira-mar, relaxava com a paisagem e ouvia o programa no carro. Muita gente fazia isso e coisas semelhantes. Procurava-se não marcar coisas para a tarde de Sábado para não perder o programa, as bandas ensaiavam mais tarde, etc. E há mais exemplos: há dias numa conversa com um amigo e vizinho mais velho do que eu, ele contou-me como ouviu pela primeira vez o “The Wall” dos Pink Floyd. A Rádio Comercial fez a estreia do disco em 1979 e eles foram todos para um velho Toyota no centro da cidade de Barcelos para ouvir o álbum. No fim, ainda ficaram umas horas a discutir o disco. E eu lembro-me também das primeiras visitas a Portugal dos Iron Maiden (em 1984) e do destaque que isso foi (até deu no Telejornal). O Festival de Vilar de Mouros em 1982 foi uma festa. O pessoal foi lá para ver os Echo And The Bunnymen, os Stranglers e outras bandas, mas sabia o que ia ver. Hoje em dia, a malta é apanhada a ir para um festival por uma “reportagem” à Fernando Alvim e ninguém sabe quem vai tocar. Simplesmente porque são muito poucos os que vão ver tocar. O pessoal vai apanhar sol, apanhar umas bebedeiras e dar umas quecas. Depois exibem o bilhete para dizer que estiveram lá, mas quando confrontados com os concertos, ficamos a saber que nem metade viram. Até há pessoal que vai só para a tenda de dança. Enfim...

Falando agora não como radialista mas como fã de metal, como tens visto a evolução do estilo ao longo dos anos?

Os músicos de metal são, regra geral, bons executantes e pessoas com conhecimentos musicais acima da média. O grande problema é que o metal teve uma tendência durante décadas a estagnar em termos criativos e a tornar-se demasiado linear e previsível. Em determinada altura era preciso que uma banda desse um safanão na monotonia e acrescentasse algo a um som encalhado. Os AC/DC fizeram-no, as bandas da NWOBHM fizeram-no, os Metallica fizeram-no e um dia desses alguém vai ter de partir tudo em mil pedaços novamente. A grande mais valia, penso eu, foi mesmo o metal ter-se fragmentado, pois isso possibilitou uma maior fusão, um maior electismo e consequentemente uma evolução em termos estéticos e criativos. Mesmo que os Black Sabbath tenham lançado as sementes do doom metal há uns anos, ou os Venom tenham feito o mesmo em relação ao black, a verdade é que a divisão acontece agora. Se por um lado a fragmenteção de um sector já de si pequeno é mau para a cena metálica de um modo geral, a verdade é que tornou o metal mais abrangente e multifacetado. Mas tenho pena de ver o pessoal dividido, isso tenho.

Quanto à cena portuguesa, como tens acompanhado e encarado a sua evolução?

Há 20 anos era quase impossível arranjar um bom estúdio para se gravar uma demo e talvez mais difícil ainda arranjar um local para tocar ou até ensaiar. O público mais metaleiro também se punha a “jeito”, sendo que parecia quase uma condição ir-se a um concerto todo porco. Agora parece que é ao contrário e ainda bem. Também já é perfeitamente normal ver-se pessoas vestidas de qualquer maneira nos concertos, algo que parecia reprovável há uns anos. O metal enquanto estilo e filosofia de vida é definitivamente mais elegante e inteligente do que há 20 anos. O que falta, a meu ver, é paixão, é garra, prazer sentido e partilhado em fazer do metal uma festa. Dantes um concerto era planeado com meses de antecedência quando se sabia que vinha uma banda a Portugal. O excesso de oferta subverteu esse espírito e agora há concertos que se realizam e as pessoas nem sabem ou só sabem depois. Também não são positivas as fissuras abertas dentro da comunidade metálica. Há pessoal que não se contenta em só ouvir metal (o que já de si é negativo) como apenas ouve um ou dois estilos dentro do metal. E, claro, faltam coisas que existiam há anos a agora não. Como as fanzines, por exemplo, os flyers a circular pelo Correio, a informação boca a boca, etc. Faziam-se amizades só porque o gosto do metal era partilhado. O underground metálico evoluiu bastante e deu imensa força ao movimento. Afastado e maltratado pelos media, o metal organizou-se no underground e evoluiu imenso, mas agora isso parece ter-se perdido. Penso que em termos de movimento underground, o punk ou o hip-hop são agora muitíssimo mais bem organizados que o metal, se bem que o hip-hop seja ainda muito vulnerável ao plástico americano e existe por aí uma tremenda confusão de ideias e uma amálgama indefinida, onde todos parecem querer criticar todos sem um rumo, sem um objectivo que seja. Mesmo assim, são dois exemplos que têm actualmente a organização que o metal já teve. Penso que o público de metal se desleixou de uma maneira geral e foi sendo absorvido pelo sistema (o que quer que isso seja). Um aspecto extremamente negativo hoje em dia são algumas atitudes disparatadas – se bem que isoladas – como a profanação de cemitérios. Sinceramente nem acredito que esses tipos sejam verdadeiros fãs de metal. Parecem-me mais miúdos que chegaram agora ao metal e olham para ele como o meu filho olha para um colchão: zona de brincadeira. Chegam, partem tudo, são os maiores e daqui a dois anos voltam para o pastilhão da discoteca. Resumindo: entraram no movimento, foderam-no e depois vão-se embora. Quem permanece e já estava antes é que leva com as consequências de atitudes tão imbecis, mas também é responsável porque se fica a cagar e não denuncia. Podes crer que se eu visse um cromo a profanar um cemitério o denunciava às autoridades. Estou-me nas tintas para a religião, não adoro mortos, mas tenho respeito pela memória daqueles que ali se encontram depositados. Se aquilo está ali, então deixe-se estar quieto que não incomoda ninguém. Além disso, se queremos ser respeitados, temos primeiro de saber respeitar os outros. Muito gostava eu de ver esses pindéricos um dia quando lhes morrer o pai: berram como bois desmamados. Situações destas, de rebeldes que rapidamente se transformam em engomadinhos, vejo-as todos os dias. Isso não é ser metálico, é ser puto mimado. Vejo também o pessoal muito crítico pela falta de espaços para tocar. Mas, verdade seja dita, já assisti a concertos em determinados locais que me deixaram muito triste e se eu fosse proprietário, jamais voltaria a organizar concertos de metal. Não é preciso andar aos pontapés a tudo e a partir tudo para se desfrutar de um concerto de metal. Mas eu já vi isso acontecer e já vi casas a fechar as portas ao metal. Quem tudo quer, tudo perde e é muito bem feito. Para pessoal mal comportado é assim mesmo. Depois queixa-se que não há sítios, não há concertos, etc. Alguns parecem Madalenas a lamentar-se; mas a verdade é que quando têm uma oportunidade portam-se mal e dão cabo do movimento todo. Vá lá um gajo perceber esta tropa.

Como editor de um blog sinto algum desinteresse por parte das bandas, especialmente nacionais, em colaborar com este tipo de projectos. Passa-se o mesmo em relação ao teu programa?

Passa-se, claro. O pessoal dantes gravava uma demo e corria a entregá-la aos programas. Agora quando gravam uma demo parece que ligam pouco aos programas. Eu acho que o pessoal das bandas, como ouve pouca rádio, tem tendência a achar que está tudo estereotipado, que toda a gente pensa e age como eles e por isso acham que mais ninguém ouve rádio. As bandas querem imediatamente saltar para as edições e parece que já nem se preocupam muito em passar na rádio. É uma asneira porque se não passarem na rádio, mesmo que editem, ninguém os vai comprar porque ninguém os conhece. Depois, assistimos ao oásis falso que é a Internet. Primeiro, as bandas faziam uns sites melhores ou piores e isso foi importante. Mais tarde, surgiu o boom dos blogs e toda a gente desatou a fazer blogs porque era mais fácil fazê-los e geri-los do que um site. Por fim, o pessoal parece que chegou à Terra Prometida e toda a gente acha que o Myspace (e também o YouTube) é a galinha dos ovos de ouro. Mas atenção: TODA a gente acha isso. Resultado: excesso de bandas, excesso de oferta, uma tremenda algazarra e não tarda nada temos uma confusão tão grande que ninguém ouve nada, nem vê nada, nem lê coisa nenhuma. Os pinguins distinguem as crias em colónias de dezenas de milhar de indivíduos, mas nós não. Fiz-me entender?

Desde há muito se tem falado na hipótese de criar uma rádio com cobertura nacional inteiramente dedicada ao metal. O que achas dessa ideia? Não passará de mera utopia?

Bem, tenho andado distraído, porque nunca ouvi falar nisso. Mas, essa cobertura nacional é a mesma que algumas rádios proclamam porque têm um emissor no Porto e outro em Lisboa? Como se o país fosse só Porto e Lisboa? Se é isso, não é cobertura nacional nenhuma; agora se é uma rede nacional de emissores a cobrir o território nacional, isso é simplesmente hilariante. Quem quiser sonhar que o faça, porque a minha mãe também acredita piamente na Senhora de Fátima e vai para a cova com a convicção que 3 putos analfabetos viram mesmo a senhora em cima da árvore e o Sol dançou, blá blá blá. Acreditar que é possível ter-se uma rádio com cobertura nacional dedicada ao heavy metal parece-me, desculpa-me, menos provável que as aparições de Fátima. Para já, mesmo que alguém tivesse dinheiro para tal empreitada, as frequências de rádio são atribuídas pelo Estado e não são atribuídas novas frequências só porque alguém as solicita. As coisas não funcionam assim. Mas, imaginemos que funcionavam. Consegues pensar sequer no que é a manutenção de uma rede nacional de emissores? Os meios técnicos que isso envolve? A quantidade de técnicos que precisas de ter? A quantidade de viaturas? E onde colocarias os emissores? Junto de centros emissores, certamente, mas consegues imaginar o que seria obter licenciamento e colaborações do Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e Câmaras Municipais? E depois, como seria possível sustentar toda esta máquina? Com publicidade da Nuclear Blast ou da Century Media? Sim, porque não imagino o Pingo Doce ou lixívia Blanka a publicitar numa rádio dessas. Não, de todo. E quem iria ouvir? A comunidade metálica nacional? Quantos são ao todo? Tu arriscavas – se tivesses dinheiro – emitir para um universo potencial de, digamos, 30 mil pessoas (e estou a exagerar, claro). Se tiveres 20% a ouvir, terias 6000 ouvintes. Uma rede nacional a emitir para 6000 pessoas? Sem publicidade? Eu não o faria nem que me saísse o jackpot do Euromilhões. Esta hipótese é de tal forma utópica que podemos falar abertamente nela; mas jamais será realidade.

Ao longo de todos estes anos suponho que houve situações que te marcaram na tua experiência enquanto radialista. Podes contar-nos as mais marcantes?

No que à música diz respeito, algumas coberturas de festivais nacionais trazem-me à memória boas recordações, assim como o famoso boom das bandas barcelenses (ao qual eu estive orgulhosamente associado), entre elas os Oratory e a sua ascensão no mercado internacional. Recordo também as primeiras investidas e a conquista dos Moonspell desse merecido lugar na cena mundial. Há imensas coisas mais pequenas, como o “Sinfonias de Aço” ter-se tornado no centro musical de Barcelos e onde o pessoal comparecia antes de ir para os ensaios e onde se marcavam encontros. São desse tempo também as visitas frequentes desses rapazes maravilhosos que são os irmãos Veiga, de Barroselas, organizadores desse extraordinário festival anual. Mas o que mais me marcou está completamente fora do metal e mesmo da música e passou-se em 1997. Eu era activista da Greenpeace e nessa altura eles decidiram enviar um barco à Antárctida para, em colaboração com universidades e organismos das Nações Unidas, estudar o degelo das calotes polares austrais. O barco, antes de rumar ao sul, precisou de trabalhos de manutenção e os estaleiros escolhidos foram os da Lisnave. Aproveitando a passagem pelo nosso país, decidiram fazer uma visita de cortesia, pensando sobretudo nos 500 associados portugueses. O objectivo era mesmo “low profile”, mas eu não fui nisso. Conhecendo a capacidade mobilizadora dos portugueses (e a sua curiosidade), decidi começar a divulgar esta visita junto da comunicação social, uma vez que se tratava da primeira visita da Greenpeace a Portugal. Dias antes do barco chegar a Leixões, começou toda a gente a telefonar-me, quase 24 horas por dia. Quando vi os jornais a solicitar mais informações, as rádios a fazer-me entrevistas e as televisões a marcar reportagens, achei que isso ia ser um sucesso. E foi, de facto. No primeiro dia em Leixões todo o merchandising voou literalmente e foi preciso mandar vir mais com urgência da Holanda. Alturas houve em que o barco, um quebra gelos de nome “Arctic Sunrise”, chegou a ter centenas de pessoas lá dentro. Foi emocionante, ao ponto de o comandante me ter convidado a mim e a outros colegas portugueses a embarcar com eles de Leixões para Lisboa. Foram 16 horas de viagem, com o mar agitado, muitos enjoos, mas uma viagem belíssima (até apareceram golfinhos). As televisões estiveram todas a bordo, todos os jornais nacionais fizeram peças e as rádios nacionais também marcaram presença com reportagem no barco. As únicas rádios nacionais que ignoraram completamente o acontecimento foram mesmo as do grupo Renascença, o que não me surpreendeu nada. Depois disso, sei que se formou um grupo de trabalho da Greenpeace em Abrantes e eu contactei-os por várias vezes, mas nunca me responderam. Virei-lhes as costas. Se querem protagonismo à custa da Greenpeace não será com a minha ajuda que o terão.

Quanto a discos que te tenham passado pelas mãos e que jamais esqueceste, quais eleges ?

A nível nacional, preferia não me pronunciar. A nível internacional, marcaram-me – porque eu já sou velho – as velhas coisas de Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin e as coisas que se lhes seguiram. E aqui não são discos, mas são bandas: Thin Lizzy, Judas Priest, Van Halen, Whitesnake, Rainbow, etc. (são muitas centenas de bandas, algumas mais fraquinhas mas que eu ouvia com prazer...) Mais tarde, “The Number of The Beast” dos Iron Maiden, “Walls Of Jericho” dos Helloween, “At War With Satan” dos Venom, “Melissa” dos Mercyful Fate, “Ride The Lightning” dos Metallica, “Peace Sells” dos Megadeth, “The Mind Is A Terrible Thing To Taste” dos Ministry, “Wildhoney” dos Tiamat, “Chaos AD” dos Sepultura, “Turn Loose The Swans” dos My Dying Bride (e outros que se lhes seguiram), “The End Complete” dos Obituary, “World Circus” dos Toxik e... nunca mais daqui saímos. Se te responder amanhã a lista é seguramente diferente. São dezenas deles, sempre acompanhei a cena bem de perto e até aos dias de hoje. Continuo a ouvir imenso metal de todos os estilos. Até porque... para mim só existem dois estilos de música: a boa e a má. Por isso eu tanto ouço a Björk como os Entombed, da mesma forma que ouço Tindersticks ou Massive Attack e passo para Nightwish ou Immortal e depois para jazz ou até música electrónica. Toda a música me agrada, desde que seja boa, bem tocada e feita com paixão e entusiasmo. Se assim for, é perfeitamente possível apanhar-me no Hard Club a ver Cradle Of Filth e poucos dias depois no Coliseu a ver Sigur Rós. Não sou esquisito, mesmo que isso cause estranheza aos outros, o que para mim é um problema deles e um prazer meu.

Actualmente o que te tem chamado mais a atenção dentro do panorama musical?

A música continua a evoluir bastante, mas a oferta de produtos comerciais é demasiado agressiva. A mim choca-me estes destaques nos Telejornais às Britneys e às Spices, ao mesmo tempo que se ignora uma banda como Moonspell, que leva o nome deste país longe. Mas as coisas ficaram assim, frias, previsíveis, sem emoção e sem prazer. Acabou o Sol Música e ficaram os outros canais com programinhas parvos e apresentadores que não devem ter a noção do ridículo. Quando eu digo que a música evoluiu refiro-me aos corredores fora do mainstream, nomeadamente as bandas menos conhecidas e as labels independentes. Aí, acho que o grau de exigência se mantém. Fora isso, soa tudo muito a MTV. Mas, se reparares bem, as coisas nesse aspecto não são muito diferentes do que eram há uns anos atrás. Dantes os putos ouviam os Ministars (que cantavam versões de temas conhecidos) e agora ouvem as bandas teen, de cujos nomes nem me lembro. Isso só serve para fazer gastar dinheiro aos pais, porque não vai marcar ninguém, como as coisas pirosas dos anos '70 não marcaram ninguém da minha idade. Por favor, quem é que ouve agora os Village People ou os Boney M? Os Nirvana, os U2, os Metallica, os Sepultura, os Sex Pistols ou os Kraftwerk (bela salada, hein?) serão sempre bandas de culto. E, no essencial, as coisas não são muito diferentes do que eram há uns anos atrás. O que mais me agrada é que algumas barreiras foram quebradas. As bandas de metal tocam com orquestras, os músicos de metal tocam com outros projectos (alguns até de música electrónica) e as pessoas não precisam de apenas gostar de um estilo. Esse tempo já lá vai. Música é música e como diz o povo, “os cães ladram e a caravana passa”. As coisas que têm muita exposição são planeadas para cansar e serem substituídas por outras, por isso ninguém se vai lembrar deles no futuro. Mas quem faz as coisas de forma séria fica para sempre. Mas, claro, o tempo também provoca erosão na memória e o que ontem era foleiro, hoje é respeitado. Costuma-se dizer que com o tempo, os políticos, as putas e os edifícios feios ganham notoriedade e respeito. Com a música foleira isso também acontece, mas paciência.

Últimas palavras…

Gostaria apenas de referir que algumas palavras minhas poderão não ser do agrado de algumas pessoas. São palavras minhas, que tenho 42 anos e muitos a ouvir música. Não são opiniões mais correctas do que outras. São simplesmente as minhas opiniões e as pessoas poderão naturalmente discordar. Por aceitar isso e por acreditar na juventude portuguesa, na música portuguesa e no trabalho das bandas nacionais é que eu continuo a manter o “Sinfonias de Aço”. Vou parar quando já não for capaz de continuar ou quando deixar de acreditar. Para já vou em frente. Obrigado pelo tempo dispensado e obrigado ao Ricardo Agostinho pelo convite.

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